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  Mensalmente, nesta coluna, teremos a colaboração de profissionais da área de educação abordando temas diversos sob a sua ótica.
  O Leitor do Futuro
Quando o barro vira comida

O dicionário Aurélio define fome como "escassez de alimento", "urgência de alimento" entre outros. Ela não é um elemento contemporâneo, existe desde os primórdios tempos.

As Escrituras Sagradas a descrevem em vários livros; no Livro de Mateus, por exemplo, Capítulo 24, versículo 07 diz: "... e haverá fomes e terremotos em vários lugares."

No final dos anos 40, o poeta Manuel Bandeira, com sua sensibilidade poética e aguçada visão da realidade, eternizou-a em um dos seus belos poemas : " O Bicho " - Vi ontem um bicho/ Na imundície do pátio/ Catando lixo entre os detritos./ Quando achava alguma coisa./ Não examinava nem cheirava :/Engolia com voracidade./ O bicho não era um cão,/ Não era um gato,/ Não era um rato./ O Bicho, meu Deus, era um homem..". A fome já fazia parte da realidade brasileira e já era algo preocupante.

Nos anos 50, o mestre e sociólogo Josué de Castro considerado "profeta do futuro" despontava nos cenários brasileiro e internacional publicando uma obra que abalou a sociedade da época : Geografia da Fome.

Há mais de cinco anos, o Haiti - país insular da América Central - vive uma guerra civil devastadora. O índice de desemprego é altíssimo, principalmente na camada pobre, a inflação chega a casa dos 14% ao ano, a criminalidade aumenta cada vez mais. O país agoniza, mesmo tendo em seu território Força Armada (Exército Brasileiro) enviada pela ONU. A falta de alimento é grande e a população busca alternativas para apaziguá-la.

Nas feiras livres são vendidos biscoitos de argila ( barro ), misturado com manteiga , água e sal. Esse alimento é bastante vendido nas camadas mais pobres, Os nativos saboreiam essa iguaria e afirmam que é bom. Meu Deus, o que é isso ? O barro virando comida! Até que ponto chegou a fome no mundo.

Nos países africanos a fome já não é novidade para nós. Ela já dizimou milhares de pessoas, a maioria refugiados de países que vivem em guerras e conflitos étnicos.

Partindo para o oriente, temos o Camboja - país do Sudeste Asiático - que sofre com a fome e a guerra civil, uma nação marcada por conflitos que causaram a morte de milhões de pessoas nas últimas décadas. O crime organizado e o tráfico de drogas agravam a violência. Novamente, a escassez de alimento é grande, chegando ao ponto da população se alimentar de comidas as mais diversas e exóticas: larvas vegetais, embriões de animais, baratas secas e espetinhos de escorpiões. E muitos dizem que tudo isso é cultura! Uma cultura a qual posso denominá-la de "Cultura da Fome ".

Segundo Josué de Castro,o Brasil é um verdadeiro laboratório de pesquisa social do problema da fome. No nordeste brasileiro existe uma cidadezinha chamada de Guaribas no município do Sertão do Piauí. Há três meses, uma criança filho de um morador, estava comendo terra para amenizar sua fome.

Que tempos são estes ? Pergunto: O apocalipse está se cumprindo?

Mas dias melhores virão em que não haverá fome e sede, dizem as Sagradas Escrituras. Então será o fim.

José Felismino // Professor e educador
felismino.farias@dpnet.com.br


A LEITURA E SUAS FACES

A leitura é a base, por excelência da condição de cidadão, pois com a aquisição da leitura o homem constrói a sua história encontrando diversos caminhos a serem percorridos.
     Independente de material didático, da bibliografia (livros didáticos) ou da metodologia, a leitura em suas diversas faces, precisa e deve ser vivenciada em nossa sala de aula numa freqüência diária, numa continuação do trabalho desenvolvido na Educação Infantil. Acrescento ainda que independente de projetos interdisciplinares ou de leitura, a leitura precisa fazer parte do plano de aula e da prática de cada dia, de cada professor, em todas as disciplinas...
     Investir na leitura é colaborar para a formação de leitores e indiscutivelmente melhora as relações afetivas e de disciplina em sala de aula e na escola como um todo. A escola fomenta essa prática aos seus docentes através de uma vasta bibliografia sobre uso da leitura, da assinatura do Diário de Pernambuco, da escolha dos livros de leitura adotados, dos encontros e oficinas sobre leitura, dos projetos vivenciados, da presença de escritores na escola, do concurso de redação do Diário e Paulinas, das dramatizações, etc, mas tudo isso somado ainda é pouco, se não tivermos na sala um professor leitor, que conte e encante seu aluno adentrando assim no universo mágico da leitura e do conhecimento.

Luzimar Soares das Neves
Escola Imaculada Conceição
Email: escolaimaculadaconceicao@gmail.com


O RECIFE (ANOS 50) E A PENSÃO DE DONA BOMBOM

Em meados do ano passado, fui presenteado por uma amiga jornalista com o livro do escritor pernambucano, Cícero Belmar: " Rosseline amou a pensão de Dona Bombom ". Logo, o título nos remete a uma interrogação: Quem foi dona Bombom? E Rosseline? De início, um exímio prefácio de Amim Stepple, jornalista e cineasta. Depois, somos presenteados com uma bela narrativa que nos remete a um Recife, até então, desconhecido: o Recife dos anos 50.
 
A obra retrata a história da vinda do cineasta italiano Rosseline, um dos maiores cineastas contemporâneos, considerado "um dos papas do neo-realismo italiano", um homem que viria ao Brasil, especialmente ao Recife, para filmar "Geografia da Fome" do sociólogo Josué de Castro.
 
No ano de 1958, Rosseline foi recebido no Aeroporto do Galeão - RJ, por Josué de Castro e por Pascoal Carlos Magno. Hospedou-se no Copacabana Palace. Semana depois, desembarcou no Aeroporto dos Guararapes, acompanhados pelo pintor Di Cavalcanti e por Josué de Castro. Em terra recifense, foi recebido pelo médico Jamenson Ferreira e pelo prefeito da cidade Pelópidas Silveira. Rosseline ficou hospedado no Hotel Boa Viagem. Num "tur" pela Veneza Brasileira, ficou encantado com as belezas naturais, pois durante o dia, Recife mostrava suas belezas naturais e turísticas, à noite, descortinava sua vida noturna, o bairro do Rio Branco era só vida e prazer, não dormia. O "Chanterclair" com sua belíssima arquitetura esbanjava charme e glamour aos mais aristocratas. Os menos favorecidos freqüentavam as centenas de pensões e bares aos redores, era a famosa "Zona". O Porto do Recife viveu dias de glórias. Os marinheiros americanos traziam produtos importados e trocavam por drogas e sexo. Era o Recife das lindas mulheres e dos mafiosos cafetões.
 
Durante sua estada na cidade, Rosseline foi convidado pelo Merchant Aloísio Magalhães e outro intelectual para conhecer a vida noturna . Dentre os pontos turísticos, a pensão / bar de Dona Bombom, uma senhora setentona, localizada na Rua do Rangel, próximo ao Mercado de São José. Por ser mais afastado, reunia rapazes de família e intelectuais ( Aloisio Magalhães, o professor aposentado Zenildo Cavalcante e o arquiteto Austro Camargo ) entre outros. Dona Bombom era uma mulher respeitada naquele meio, possuía as mulheres mais bonitas e formosas. Eram consideradas suas filhas. E um dos seus objetivos era arranjar casamento e marido para elas. Destacaram-se: Bianca e Bibiana, duas irmãs, conhecidas no meio como irmãs "Passarinhos". Rosseline, em sua visita à pensão, encantou - se por uma delas.
 
Rosseline visitou também o sociólogo Gilberto Freire, escritor do famoso "Casa Grande e Senzala" em seu sobrado em Poço da Panela em Casa Forte. Lá, o patriarca fez questão de receber a ilustre comitiva em seu belo jardim, cercado por mangueiras e pitangueiras. Uma recepção impecável, regada a bolo de rolo e licor de pitanga. Iguarias pertencentes à culinária da família Freyriana, eternizada em seu livro "Casa Grande e Senzala"."Rosseline amou a pensão de Dona Bombom", é uma obra belíssima , uma verdadeira retrospectiva sobre o Recife dos anos 50 e sua cultura, um livro para ser lido e relido à sombra de uma mangueira, degustando um saboroso bolo de rolo, tomando um delicioso licor de pitanga.


José Felismino
Professor e educador



NÃO MATEM NOSSAS CRIANÇAS!

Recentemente, a Unicef e outros órgãos que protegem as crianças têm elaborados relatórios com índices alarmantes e muitas vezes cruéis sobre a situação das crianças no Brasil e no mundo. No Brasil, por exemplo, a cada dia, crianças são vítimas de maus tratos pelos adultos, principalmente dentro de sua própria casa, do seu "lar doce lar" isto é se podemos defini-lo como isso.

Em 13 de julho de 1990 foi criada a Lei 8069, surgindo em nosso país o "Estatuto da Criança e do Adolescente" assegurando aos pequeninos proteção e direito à vida tanto pelo estado quanto pelos pais. No Artigo 4º (Título I - Das Disposições Preliminares ) está escrito: "É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, a saúde,....." Diante desse artigo, entendo que qualquer criança seja rica ou pobre, independente de sua cor esteja protegida, principalmente no que se refere ao direito à vida.

Atualmente, nós brasileiros fomos tomados por um acontecimento bárbaro ocorrido em São Paulo (zona norte) quanto uma criança de cinco anos de idade foi morta brutalmente, jogada do sexto andar do seu "lar doce lar" tendo como seus algozes sua própria família ( suspeita-se do seu próprio pai ). Que mal essa criança fez, para tal grande crueldade ?

Nessa mesma semana, no pequeno município de Jupi, no Agreste pernambucano, a 207 quilômetros do Recife, outra criança de apenas 3 anos foi brutalmente assassinada a golpes de foice, tendo como assassino o próprio tio, irmão de sua mãe.

E quem se lembra, da pequena Laís Ribeiro de 9 anos da cidade de Limoeiro (PE) que foi seqüestrada, estuprada esquartejada em agosto de 2006. Se não me falha a memória, um de seus assassinos já está solto.

E do caso Narcisinho de Carpina, ocorrido em 1992, vítima de seqüestro seguido de morte, cujo próprio tio foi suspeito de sua morte. Ainda hoje, esse caso é um mistério.

Afora esses assassinatos cruéis contra nossas crianças, temos relatos que, em muitas cidades brasileiras elas são induzidas a entrarem no mundo do crime, da prostituição e do tráfico de drogas. Muitas vezes em troca de um pão para comer, iniciando assim um caminho sem volta, onde o destino final é a sua própria morte.

Até quando isso vai parar de acontecer? Onde estão os direitos da criança e do adolescente? Será que estão adormecidos em caixões de cristais em uma floresta encantada? Onde estão os príncipes para acordá-los de tão pesados sonhos? Quando isso acontecer, casos como o de Narcisinho, Laís Ribeiro, Isabella Nardoni e de Tauane Siqueira serão esclarecidos e seus assassinos pagarão pelos seus atos cruéis. Isto é, se a justiça brasileira funcionar.

Resta-me, tão somente, dizer às crianças assassinadas: "Descansem em paz, meus anjos!, que justiça seja feita "

E ao nosso sistema social, político e jurídico brasileiro: "Não matem nossas crianças!" .


José Felismino
Professor e educador



CARTA AOS MEUS PROFESSORES DEFICIENTES

Sabem, meus queridos mestres, sou muito agradecido a todos vocês. Mas hoje, entendo que meu aprendizado foi dificultado porque ninguém notou que eu não escutava bem e vocês ainda insistiam em falar baixo e de costas pra mim, impedindo que pudesse ouvir ou ler seus lábios. Rafael não enxergava muito bem e, durante todos os anos do primário, nos sentamos nas últimas bancas, a letra miúda no quadro-negro, de lá, parecia menor ainda. Por falar em banca escolar, lembro que a Betânia ficava quase atravessada na passagem, reclamando de dor nas costas com freqüência, mas quem manda ser canhota... Depois do recreio, suados, ficar com sede era um martírio, mas água daquele filtro de barro que nunca era lavado, nem pensar. Éramos diferentes, vocês não ouviram, não viram, vocês nem notaram. Na época, a gente adorava a escola e considerava vocês nossos segundos pais.

Os primeiros anos do primário foram lúdicos, vocês sempre encontraram uma forma bonita e diferente de ensinar: brincando e aprendendo, sempre com um carinho tão especial. Mas, de repente, tudo mudou, todos aqueles castelos construídos foram desfeitos abruptamente quando iniciamos o ginásio. A 5ª. Série foi um suplício: ao invés de uma só professora para todas as matérias, agora seria uma para cada disciplina, os livros mais grossos, os textos mais profundos, e freqüentar a escola já não era tão prazeroso, pois todas aquelas mudanças de uma só vez nos assustavam muito, sem falar que os novos colegas rapidamente nos passaram a chamar de “cegueta e hein”, nos sentimos diminuídos, humilhados. Os quatro anos de ginásio seguiram e junto com eles o nosso sofrimento.

Dia desses nos encontramos eu, administrador, Rafael, Gerente de Banco e Betânia, que se formou justamente em Magistério, daí relembrarmos e acharmos graça daqueles tempos, dos nossos temores e dificuldades. Passados todos esses anos, rimos muito do que no passado tanto nos maltratou e Betânia, agora educadora, disse: medidas simples como nos colocar nas primeiras bancas e trocar a banca de Betânia por uma apropriada para canhoto (sobrava em outras salas) e lavar aquele filtro de barro imundo pelo menos uma vez por semana, não teriam custo algum para a escola, mas dependiam exclusivamente do poder de observação e discernimento daqueles professores, que não ouviram, não enxergaram e nem notaram nada, eles eram deficientes profissionais.

Cumpriam expedientes (quando não faltavam) pelo salário que recebiam e só, não possuíam o menor comprometimento com a nobre tarefa de formar cidadãos, não se encontraram como agentes de mudança. Entendemos, hoje, que eles não mereciam nem mesmo pelo que recebiam. Eu, Rafael e Betânia ficamos a nos perguntar: Será que agora, em alguma sala de aula desse país, ainda tem alunos vítimas de professores deficientes profissionais? Muitos...

Sérgio Vieira de Melo (51)
Bacharel em Ciências Administrativas.
Coordenador de Projetos da Secretaria Municipal de Educação do municío do Bom Jardim - PE



"PROFESSOR TEM QUE SER CAPACITADO"

Atuando como coordenadora de projetos de incentivo à leitura de jornais nas escolas desde o final da década de 80, a pedagoga carioca e mestre em educação Carmen Lozza é responsável há três anos pela direção nacional do programa Jornal e Educação, da Associação Nacional de Jornais (ANJ). Nesta entrevista ela afirma que a chave do sucesso desses projetos está nas mãos do professor. "Ele é o principal instrumento para criar reflexão dentro de sala", disse.

Qual a opinião da senhora sobre o uso do jornal na escola: por que sim, por que não?
Dou esse nome à palestra porque o jornal pode ser muito bom ou muito ruim para a aprendizagem dependendo de como ele é lido dentro de sala de aula. Você tem que fazer uma articulação daquela informação vista no jornal com outras. Ele tem que entender que nenhuma matéria é uma verdade absoluta.

Quais as formas de leitura de um texto jornalístico?
Existem três maneiras de fazer a leitura do texto. Primeiro é considerar tudo como uma verdade absoluta. Em segundo lugar, é quando o leitor acredita que tem autonomia sobre a questão de acordo com sua vivência e ângulo no qual enxerga o assunto. E a terceira e mais difícil maneira é dialogar com o texto.

Como o leitor do futuro pode dialogar com o texto?
Em primeiro lugar o professor tem que ser capacitado para isso. Se você não tem uma orientação pedagógica para esses projetos sociais de incentivo à leitura, as empresas podem estar apenas entregando jornais, sem formar o cidadão.

Qual a importância desses projetos para as novas gerações?
A leitura crítica das notícias possibilita que esses jovens tenham clareza a respeito das influências que sofrem da imprensa.

E as empresas? Quais as vantagens nessa parceria?
As empresas que levam o jornal para as escolas são vistas de forma positiva porque estão ajudando os colégios e as comunidades. Ou seja, estão fazendo sua contribuição.



Carmen Lozza
Pedagoga e mestre em educação
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