| Abrigo recebe
mulheres ameaçadas de morte pelos ex-companheiros
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Por CAROLINA
MONTEIRO
Especial para o PERNAMBUCO.COM |
Em um bairro de classe média da Região
Metropolitana do Recife (RMR), uma bela e espaçosa
casa abriga um segredo. Sob a fachada de uma creche,
lá são acolhidas mulheres que sofreram
violência dos ex-companheiros e ainda correm o
risco de serem vítimas de uma agressão
maior. Mantido pela Prefeitura do Recife (PCR), o abrigo
Sempre Viva funciona há três anos e ajudou
a 33 mulheres, que passaram, em média, dois meses
e meio no local. Embora sejam vítimas de um tipo
de violência tão cruel quanto comum, são
elas que têm que viver escondidas, sob pena de
serem encontradas por aqueles que, de fato, deveriam
estar presos.
Para garantir a segurança das abrigadas e
dos funcionários, o endereço e os números
de telefone são mantidos em total sigilo. A
preocupação é tanta que a equipe
do Pernambuco.com foi a primeira a conhecer as instalações
do abrigo, depois de garantir a preservação
do segredo em relação à localização
e à identidade das entrevistadas.
As mulheres que já passaram pela casa percorreram
um longo caminho desde as primeiras agressões
físicas, psicológicas ou sexuais, passando
pela denúncia, até a decisão
de mudar de vida. Para entrar no Sempre Viva, elas
passam por uma rigorosa avaliação. Na
maioria, são mulheres de baixa renda e que
não têm como se sustentar, nem para onde
ir. "Às vezes elas romperam com os parentes
para ficar com o companheiro agressor. Por isso, têm
vergonha de voltar para a família", analisa
Anna Lemos, uma das psicólogas do Centro de
Referência Clarice Lispector, e que também
atende às mulheres da casa.
No momento, apenas uma mulher e duas crianças
ocupam a casa de quatro quartos, que tem a capacidade
de acolher até 12 mulheres e 40 crianças.
"A rotatividade é grande, algumas passam
apenas alguns dias, outras chegam a passar até
seis meses. Mas o prazo máximo recomendado
é de 120 dias", explica Joelma Moraes,
coordenadora do abrigo.
A MORADORA - Na manhã de uma terça-feira,
quando a reportagem do Pernambuco.com esteve na casa
abrigo, uma arte-educadora brincava com uma criança
de cabelos pretos e pouco menos de dois anos. Ao som
do CD Xuxa e os baixinhos, a pequena Patrícia*
fingia se esconder, já de biquíni para
o passeio à praia, que aconteceria à
tarde. Seu irmão menor, Felipe*, de cinco meses,
estava no carrinho de bebê, próximo à
mãe, Celina*, de apenas 19 anos.
Embora seja uma história de violência
e medo, o perfil da mãe das crianças
diverge um pouco da maioria das mulheres que já
foi abrigada pela casa. Nascida em uma família
de classe alta, filha de um engenheiro e de uma apresentadora
de TV, Celina tem segundo grau completo, é
bem articulada, pretende se formar em direito e ser
promotora.
Órfã de mãe ainda criança,
a vida da garota começou a tomar outro rumo
aos 17 anos, quando, para confrontar o pai, ela se
envolveu com um rapaz que cometia pequenos crimes.
O romance durou pouco e acabou quando Celina avisou
ao namorado que estava grávida. Expulsa de
casa, ela foi morar com um irmão mais velho.
Ainda gestante, conheceu e se apaixonou por Flávio*.
"Ele era muito bonito. Sempre ia para a escola
me ver e me levava para os lugares mais chiques da
cidade. Eu tinha um baú cheio de cartas dele",
conta. Com pouco mais de um mês de relacionamento,
o rapaz desapareceu. Semanas depois, Celina descobriu
que ele estava preso por tráfico de drogas.
Um ano depois, Flávio fugiu da prisão
e o casal foi morar junto, mas o comportamento dele
mudou. Viciado em crack, Flávio passou a querer
dominar a companheira. Ao comunicar o fim do relacionamento,
Celina viu seu namorado apontar uma arma para a cabeça
de sua filha. Grávida pela segunda vez, ela
denunciou o companheiro, que a ameaçou de morte
e terminou preso, não pela ameaça, mas
pelo fato de ser fugitivo da cadeia. Ainda assustada,
sem dinheiro e sem emprego, Celina mudou-se para a
casa de uma amiga.
Numa noite de fevereiro, enquanto preparava a mamadeira
de Felipe, Celina escutou uma movimentação
estranha próxima a sua casa. Em pouco tempo,
três comparsas do seu ex-namorado invadiram
sua casa e a jogaram no chão. Com três
armas apontadas para a cabeça, Celina já
perdia as esperanças quando o bebê começou
a chorar. Um dos criminosos ficou comovido e deu dois
minutos para que ela saísse do local.
Celina foi direto para a delegacia. De lá,
ela foi encaminhada ao abrigo de proteção
às mulheres da capital do seu estado, até
ser transferida para o Sempre Viva, no Recife, há
pouco mais de um mês. "Eu não me
sinto segura em lugar nenhum, nem se estivesse no
exterior me sentiria. Nunca mais vou ter uma vida
normal", comenta com a voz embargada.
A CASA - Obrigadas a fugir e a se esconder por causa
dos agressores, a revolta é um sentimento comum
entre as mulheres abrigadas. Privada de liberdade,
o que Celina mais sente falta é de andar na
rua, sem ser acompanhada pelos funcionários
do abrigo. "Quando eu ainda morava com meu pai
eu adorava ir para o shopping, fazer compras. Também
ia muito para shows, barzinhos. Agora eu não
posso nem ir na calçada sem ficar apavorada",
lamenta.
"As mulheres que vêm para cá apresentam,
em termos gerais, duas reações: a revolta
ou a apatia. As que sofreram cárcere privado
ficam resignadas, apáticas, sem forças
para lutar. Ambas as situações são
tratadas pelo setor psicológico da casa",
comenta a coordenadora do Sempre Viva, Joelma Moraes.
De acordo com ela, um dos motivos que faz com que
as mulheres não queiram ir para o local são
as regras que têm que seguir na casa. Na lista
de compromissos, porém, não há
nada de absurdo. As abrigadas precisam cuidar dos
filhos, ajudar na cozinha apenas nos finais de semana
(quando o cozinheiro está de folga), seguir
os horários (acordar às 6h e dormir
às 22h) e preservar o sigilo do endereço.
Por motivos de segurança, as mulheres são
proibidas de usar o telefone, para evitar rastreamento.
A rigidez é necessária para manter a
organização da casa e centrar as mulheres
nos cuidados dos filhos, que já sofreram traumas
pelas brigas dos pais, quando não foram eles
mesmos agredidos. As crianças levam uma vida
quase normal, estudam pela manhã e realizam
atividades com arte-educadoras, à tarde.
GASTOS - Desde 2001, a Prefeitura da Cidade do Recife
já gastou cerca de R$1 milhão com a
criação e manutenção da
casa. Na fase de implantação, o Governo
Federal liberou uma verba para instituição,
mas, de acordo com Karla Menezes, responsável
pela Coordenadoria Geral da Mulher, o dinheiro não
passou dos 10% do custo total. O Consulado Alemão
também ajudou o abrigo, doando R$13 mil em
equipamentos.
Com doze funcionários, que se revezam nos
três horários, de fevereiro a outubro
deste ano o orçamento previsto é de
R$ 420 mil. Em todo Brasil, existem apenas 70 abrigos
do tipo. Poucos, porém, possuem uma estrutura
tão completa como a do Sempre Viva, com assistência
médica, psicológica, nutricional e jurídica.
* Os nomes foram trocados para preservar a identidade
dos entrevistados.
| CASA ABRIGO
SEMPRE VIVA |
Idade média das usuárias: 32 anos
Tempo médio de permanência: 74 dias
68, 25% foram agredidas na própria residência
Tempo médio de convivência com o
agressor: 7 anos
73% dos agressores eram dependentes químicos
66,7% eram alcoólatras
100% das usuárias sofreram violência
física, 93,75% violência psicológica
e 25% violência sexual
Número médio de filhos: 2
68,75% possuíam apenas ensino fundamental
incompleto
Fonte: Coordenação da casa abrigo
Sempre Viva - referentes ao ano de 2004 |