Gustavo Cabral segue de casa, na Boa Vista, ao trabalho, na Avenida Caxangá: inspiração veio do Japão. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press
O antropólogo Roberto da Matta sentenciou, em entrevista recente: “Vivemos o delírio de que ter um carro é sinônimo de sucesso”. A frase pode ser usada para resumir o comportamento do brasileiro no trânsito. No entanto, apesar de Pernambuco ver sua frota aumentar em 10% ao ano, várias pessoas seguem na contramão dessa tendência e utilizam a bicicleta também para fins não-recreativos.
A preocupação com o desenvolvimento sustentável e a redução da poluição é um dos motivos para usar bicicleta para ir ao trabalho. Mas quem opta por esse meio de transporte enumera outras qualidades. “O estresse do trânsito me levou a pedalar. Ninguém consegue me tirar do sério quando estou sobre duas rodas”, diz a funcionária pública Maria das Graças Cunha, 43 anos.
Apesar de ter carro, a servidora federal prefere percorrer de bicicleta os 10 km que separam sua casa, em Boa Viagem, do trabalho, no Bairro do Recife. “Só não faço isso todo dia porque ainda não tenho prática suficiente, pois comecei há apenas dois meses”. Para chegar lá, o acesso é feito pela Ciclovia Orla, que engloba os calçadões de Boa Viagem, Pina e Brasília Teimosa. A funcionária atravessa o Rio Capibaribe de barco a remo para chegar ao Marco Zero. “Levo mais ou menos o mesmo tempo para fazer o trajeto, mas o visual é muito melhor. Pena que a segurança deixe a desejar e os motoristas não respeitem quem anda de bicicleta”.
O exemplo de Maria das Graças inspirou ao menos uma pessoa a pedalar. A cuidadora da mãe dela, Cleide dos Santos, faz, há um mês, o trajeto do Conjunto Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes, até a Avenida Boa Viagem. “De ônibus, levo 1h20 para chegar ao trabalho. De bicicleta, o tempo cai para 40 minutos. Tomei gosto e, hoje, também uso a bicicleta para lazer. Já passeei de bike da minha casa até Enseada dos Corais, no Cabo de Santo Agostinho”.
Na outra ponta da cidade, Gustavo Cabral, 29 anos, também usa a bicicleta para se deslocar de sua casa, na Boa Vista, até a empresa de automação industrial onde trabalha, na Avenida Caxangá. Desde que voltou de uma temporada no Japão, há sete meses, começou a usar a bicicleta de forma intensiva. “Por lá, quase ninguém tem carro. As ruas são mais tranquilas, arborizadas e as pessoas são muito conscientes de sua responsabilidade com o meio ambiente”.
O uso da bicicleta como alternativa aos carros levou à criação de núcleos cicloativistas na internet. No Recife, uma das referências no tema é o blog Pedalando e Olhando (pedalandoeolhando.blogspot.com), criado pelo engenheiro de materiais Rogério Leite há dois anos. “O número de pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte está aumentando, mas esse número cresceria ainda mais se houvesse o mínimo de infraestrutura”, prega. “Apesar de ser uma cidade relativamente plana, o Recife é desenhado para os carros, em detrimento tanto das bicicletas quanto do transporte coletivo. A solução é fazer bicicletários nos terminais de ônibus e mais ciclovias”.
Cleide dos Santos sai de Jaboatão para a Avenida Boa Viagem: de ônibus, levava 40 minutos a mais
Pedale com segurança
As bicicletas precisam ter campainha, sinalização noturna dianteira, traseira, lateral e nos pedais, além de espelho retrovisor do lado esquerdo.
Os ciclistas precisam seguir as leis de trânsito. Não se pode andar na contramão nem desrespeitar a sinalização.
Luvas e capacetes são indispensáveis. As primeiras dão mais firmeza ao conduzir o guidão e protegem as mãos, enquanto os últimos evitam ferimentos graves na cabeça.
Evite aparelhos de som. A atenção deve estar no trânsito.
A manutenção da bike é fundamental: pneus calibrados, corrente lubrificada e freios em ordem.
Os cadeados têm de ser confiáveis e estar presos a um local sólido. O ideal é investir até 20% do valor da bicicleta em trancas
Fonte: Organização da Sociedade Civil Transporte Ativo.