Desta vez,Moacir dos Anjos chegou sem passe de volta. Durante mais de um ano, o pernambucano de 47 anos carregou a trouxa para a ponte aérea, residência inevitável. Dividia a semana mais ou menos por igual, na medida irregular da matemática: três dias para lá, quatro para cá, entre São Paulo e Recife. Em princípio, planejava alugar um flat em terras paulistanas,mas trocou o projeto de moradia por uma suíte provisória,“muito mais prático”.Acostumou-se a tomar o café da manhã no Slaviero Executive Jardins, hotel na Alameda Campinas de onde partia sempre antes das 9h para o Parque Ibirapuera, a uma distância de pouco mais de 2km. Nada de bicicletadas, como gosta, mas de rigorosas jornadas de trabalho que só terminavam depois da meia-noite.

“1998, ele já estava completamente inserido. Acho que o fato mais importante para as artes pernambucanas daquela época foi o surgimento de Moacir”

Gil Vicente
Assumir o posto de um dos curadores-chefe da 29ª edição da Bienal de São Paulo foi uma empreitada exaustiva. Junto ao mineiro Agnaldo Farias, companheiro de chefia, Moacir fez três viagens de garimpo pela Europa,EUA e México. De volta ao Brasil, teve que preencher e gerir, cotidianamente, os 30 mil m2 de andares astronomicamente projetados por Oscar Niemeyer para o Pavilhão Ciccillo Matarazzo,além de uma equipe que se embrulha para contabilizar.

“Tem um monte de gente”, ri o curador, antes de sair calculando em balbucios os mais de 400 empregados que somamos no catálogo do evento, isso excluindo montadores e técnicos.A equação se completa comos 159 artistas brasileiros e estrangeiros cujas obras foram expostas para um público que, segundo Moacir,deve fechar em torno de 600 mil ingressos,acumulados de 24 de setembro até hoje, dia em que o evento termina.

“Ele achava que não tinha maturidade para realizar a curadoria, mas eu tinha certeza”

Agnaldo Farias, sobre o convite para Moacir ser curador do projeto Nordestes
“Foi tudo muito superlativo”.De um tamanho impensável para aquele doutor em economia que, nos primeiros anos da década de 1990, sentava em seu birô no Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e engatava devaneios sobre o papel da moeda no Brasil. Em 1997,Moacir passou por um rompante como os que, no campo da economia, são chamados “experimentos cruciais” por um de seus ex-teóricos de cabeceira, o britânico George Shackle. “São aqueles experimentos que mudam radicalmente o próprio ambiente onde se dão, de forma que seria impossível repeti-los, e para os quais a teoria das probabilidades não se aplica”, tenta resumir. Num português empurrado,eventos transformadores que soam absurdos num mundo de humanos: para Moacir, um tímido “sim” que extinguiria sua carreira econômica e o levaria ao estrelato brasileiro das artes em pouco mais de uma década. Não tem estatística para isso.


Catálogos de exposições organizadas por Moacir: Contraditório (2007), Valeska Soares (2002), Efrain Almeida (2002), Dragões e leões (1998) e 29ª Bienal de São Paulo (2010)

Moacir recebeu Aurora para milkshake com conversa no Castigliani, café instalado na FundajDerby. Seu pensamento é sempre sistemático, e calmamente nos transporta por sua biografia como se fosse um ensaio acadêmico, comepígrafe, referências e uma dose necessária de confissões. Enquanto trocava o canudo entupido por outro, mais espesso, lembrava os ícones que moldaram seus desejos de reflexão e profissão, pincelados entre os realismos do cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder,dos romances de Machado de Assis e dos discos de Egberto Gismonti. Dias depois, após mais uma ida e volta de São Paulo, recebeu a reportagem em seu escritório na Rua do Futuro, enquanto testava o novo aparelho de ar condicionado. Moacir tinha acabado de reformar o espaço e encomendar mais uma estante para acolher os novos livros de sua bibliografia, acúmulo do último ano até então empilhado no chão. Até que ficou frio.

o começo

Entre os compromissos de retomada da vida de Recife full time, o pesquisador foi cotado para um reencontro com a turma de escola, 30 anos depois da formatura. A última aconteceu há uma década. Foi na adolescência, entre os colegas do Colégio Marista São Luís, que Moacir dos Anjos Júnior – até então, ainda Júnior – começou a dividir escapadelas para os cinemas e bibliotecas, afeições que surgiram bem antes das artes visuais e nem tão antes assim dos números inflacionários.

Tinha seus 16, 17. Filho de médico, o segundo de três, Moacir encampou relação de cumplicidade com Paulo,irmão dois anos mais velho, que faleceu há cinco. Às portas da universidade, os companheiros seguiam juntos para as sessões especiais do Cinema Moderno, do Teatro do Parque, do São Luiz, ou as promovidas pelos consulados, como o alemão. “Coisa de descoberta de adolescência”, diz. Os filmes foram o primeiro enlace irreversível com as artes, rubricado por Alexander Kluge, Jean-Luc Godard, Eric Rhomer, Michelangelo Antonioni, Vittorio De Sica, Carlos Saura, salada europeia. Enquanto isso, os professores de história e português atiçavam o pensamento político numa época de repreensão com
etiqueta aristocrática.

As descobertas foram adquirindo ares de transgressão com a iminência da abertura democrática e da Lei da Anistia,“o país numa ebulição, uma loucura muito grande”. O desbravamento da arte era também o da política, enquanto, para a universidade, era necessário definir entre um e outro. Em 1981, aos 17, Moacir Júnior ingressou no curso de economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mas “poderia ter sido ciência política, sociologia, até jornalismo”, pois a escolha era,acima de tudo, uma maneira de entender como a sociedade brasileira se estruturava. “Era uma carreira das mais demandadas no momento”. Na faculdade, colecionou mais filmes, mais literatura, peças de teatro de Antunes Filho ao grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. O ápice ideológico veio em 1984, ano em que concluiu a graduação,com o Movimento das Diretas Já.“ Participei de grandes comícios em Olinda, em Santo Amaro… Um show de encerramento em Boa Viagem que congregava toda aquela geração”.

A primeira experiência em aparelho público veio no Instituto de Desenvolvimento de Pernambuco, o Condepe,órgão ligado à Secretaria de Planejamento onde Moacir, sem deixar o Júnior, foi assessor durante a gestão socialista de Miguel Arraes. Em 1986, o pesquisador partiu para o mestrado na Universidade de Campinas (Unicamp) e estudou a implantação da indústria de microcomputadores em Pernambuco, destrinchando o antológico Elógica, provedor jurássico de internet, e o projeto esquecido do computador pernambucano Corisco. No caminho para a faculdade, comprava o jornal Folha de S. Paulo com os colegas mestrandos, sementrar na disputa pelo caderno de economia. Era o primeiro a desencartar as páginas de cultura da Ilustrada. Um ano antes, foi marcado por sua primeira Bienal, onde,sob curadoria de Sheila Leirner, circulou por um corredor polêmico que reunia cometas e iniciantes do neoexpressionismo, tendência em voga. “Sheila queria mostrar que estava todo mundo, em várias partes do planeta, fazendo a mesma coisa. Foi um grande gesto de curadoria”. O olhar já ensaiava.

De volta ao Recife em 1989, Moacir ingressou como pesquisador no Instituto de Pesquisas Sociais da Fundaj, atuando ainda em sua área pregressa. O aquecimento derradeiro para a passagem estava montado nas galerias londrinas. Em 1990, o economista iniciou doutorado na University College London, um dos campi da Universidade de Londres. Influenciado pelo boom inflacionário do governo do presidente José Sarney, pesquisava a “deterioração do papel da moeda como regulador social”, mas já deixava a “perspectiva economicista”, abrindo-se para a sociologia, a antropologia e, meio de supetão, as artes visuais. No tempo livre, não largava os museus. “Enquanto estudava a moeda como instituição social, comecei a observar alguns paralelos com a arte, já que ela também necessita de certo aparato institucional de legitimação”, conta o pesquisador. Encantado com a oferta de exposições na cidade, Moacir seguiu percurso autodidata, estudando história e teoria da arte, enquanto esboçava uma aproximação filosófica como campo. Sempre se interessou pelo “futuro, incerteza, expectativas”, ideias postas na tribuna por economistas como o inglês John Keynes, e nunca quis se ater ao tecnicismo mercadológico dos números. Começou a esboçar artigos como Moeda e arte no mundo moderno, que mais tarde publicaria na revista Anthropológicas, em 1998.

Quando seu Waldeck grita “Venhaaaaa!”, o frei Diniz já sabe que o sossego acabou: é impossível rezar ou estudar no Convento da Penha.









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