A lguém aí resiste a um retrato? Unzinho que seja, daquele tipo lembrança, tirado em viagem ou festa de aniversário? E quantas vezes você babou diante do retrato do seu artista preferido? Você pode não chegar ao exagero de dizer que a fotografia foi inventada para fazer o retrato do homem, mas que há uma obsessão da gente pela própria imagem, não há dúvida. Um retrato revela mais que beleza ou feiúra, alegria ou tristeza, existindo distância incomensurável entre retrato revelador e outro medíocre. Mas, que elementos assinam o veredito?
Foi para dar algumas pistas sobre a arte do Retrato que o paulista Eduardo Simões, 43 anos, esteve no Recife nos últimos dias, ministrando curso na 1ª Semana Pernambucana de Fotografia. Fotojornalista há 25 anos, Simões trabalhou nas revistas IstoÉ e Goodyear, tendo sido, até setembro deste ano, editor de fotografia das revistas República e Bravo!. Há cinco anos ele vem registrando escritores para os Cadernos de Literatura Brasileira, publicados pelo Instituto Moreira Salles.Neste percurso profissional, Simões se destaca como autor de retratos.
A fórmula para tal status está fora de bula, garante o fotógrafo. Uma afirmação enfática que Eduardo Simões faz sobre as regras para se obter um bom retrato é: "Não existe um jeito de fazer retrato". A linguagem é pessoal e as condições são subjetivas, destaca. "O artista trabalha com o imponderável, não sabe aonde vai chegar".
Mesmo dispensando respostas prontas, Simões sabe que ninguém consegue bons resultados sem empenho real. Por isso, se mune de informações anteriores sobre o entrevistado; se faz acompanhar de assistente nas sessões; quase sempre utiliza iluminação artificial e seu equipamento inclui Hasselblad 6 x 6.
"Acredito que minhas fotos passem para o espectador uma atmosfera de intimidade. Mas não há nada pré-estabelecido. A relação que se cria entre mim e o personagem é definida no momento do encontro. Gosto de estar no ambiente da pessoa, que geralmente diz o que vai ser daquele retrato".
Alguns casos são ilustrativos sobre o que Eduardo Simões define como revelar o retratado em suas contradições. "Passei os anos 70 inteiros fotografando Delfim Netto em imagens que o traduziam como o inimigo número 1 do país, o cara que deu sustentação ao regime. Era uma perseguição sem trégua". Há dois anos, Simões reencontrou Delfim em uma sessão de fotos para a República. Nas fotos o economista está rindo, simpático. "Isto porque, pessoalmente, ele é muito engraçado, inteligente e espirituoso. Esta é outra imagem que o representa e que conhecemos menos, porque não nos interessa".
Nem todo mundo facilita as coisas para o fotógrafo. Eduardo Simões considera um golpe de sorte ter feito retrato do arquiteto Oscar Niemeyer sentado em chaise longe desenhada por ele mesmo, tendo ao fundo a praia de Copacabana e as curvas do Pão de Açúcar. "Todo mundo já tinha pedido a Niemeyer para ele fazer isto e ele havia negado as solicitações. Ele é um cara difícil de fotografar e calhou de ceder ao meu pedido e posar daquela forma". É a citada imponderabilidade dos encontros.
Você pode achar que a arte do retrato é um exercício de culto à vaidade, um reflexo da excessiva valorização da imagem. Um narciso revisitado. Mas, se é o homem que interessa, o retrato sinaliza duas frentes: a do fotografado e a do fotógrafo. Deste encontro, dependendo do diálogo estabelecido, iluminam-se tipos humanos, suas personalidades, valores, sentimentos e humores. Para Simões, fazer retratos é "um álibi para conhecer as pessoas". E não se trata disso?