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Meninos do Campo
A cultura do algodão - que ressurgiu no Agreste e no Sertão do Estado como esperança de uma vida melhor para os agricultores - está fazendo com que os pais levem os filhos para ajudar na colheita. Os fazendeiros, que pagam R$ 0,15 pelo quilo da fibra bruta, fazem vista grossa ao trabalho infantil, que afasta os menores da escola
Rodrigo Hilário Da equipe do DIaRIO
Quinze anos após ter sido erradicada, a cultura do algodão está ressurgindo nas lavouras do Agreste e do Sertão de Pernambuco. O ouro branco é sinônimo de fartura para os produtores e esperança de vida melhor para o homem do campo. Porém, apesar de indicadores econômicos animadores, a retomada da produção do algodão volta trazendo junto uma dura realidade: o trabalho infantil. Crianças de várias idades estão trabalhando nas plantações do Interior para ajudar suas famílias a sobreviver à miséria. Franzino, calado e de olhar tristonho, o menino F.J.B., 13 anos, é o retrato fiel desta realidade. Órfão de pai e mãe e caçula entre oito irmãos, ele reside na comunidade rural de Sítio Gonçalo, em Cumaru (no Agreste, a 154 quilômetros do Recife), onde mora com o irmão José Nivaldo Borba, 26. A rotina diária do garoto começa às 6h, quando acorda, toma um pouco de café com pão e sai para a lavoura. Ele chega por volta das 8h e trabalha por três horas. Durante este período, consegue colher até 25 quilos de algodão.Os proprietários rurais da região não pagam mais que R$ 0,15 por quilo. Portanto, o esforço de F.J.B. rende R$ 3,75 a cada dia. Além de ser um trabalho penoso que requer muito vigor físico e gera pouca remuneração, apanhar algodão prejudica a saúde. À primeira vista, o capucho alvo e leve (pesa não mais que sete gramas) é delicado. Mas o contato direto, sem a proteção de luvas, e por longo tempo, aos poucos vai ferindo as mãos. "Tenho muita dor nas costas", queixa-se o menino, sentido os reflexos da posição inclinada em que é obrigado a ficar para pegar tufos mais baixos. Apesar da labuta no campo pela manhã, à tarde o garoto freqüenta a sala de aula. Cursa a 4ª série do Ensino Fundamental em uma escola do povoado. Mas não tem motivação e pensa em desistir do sonho de ser doutor. "Fico cansado e não consigo entender direito o que a professora diz". F.J.B. não recebe auxílio do Programa Bolsa-escola, que beneficia famílias com uma ajuda de custo mensal para manter jovens e adolescentes na escola. Para o irmão dele, a saída vai ser a dedicação exclusiva à agricultura, tradição em sua família. "Foi assim com meus avós, meus tios, meus pais, comigo e meus outros irmãos. Ninguém sabe ler. E ele precisa ajudar, senão falta comida na mesa", justifica Nivaldo. DRAMA - Outro personagem com história semelhante é o garoto R.A.C., 13, morador de Pitombeira, distrito de Limoeiro, a 77 quilômetros da Capital. Abandonado pela mãe ainda bebê, ele foi adotado pela lavradora Joana Antônia da Silva, 54. Estuda em uma escola pública no vilarejo, onde cursa a 2ª série. Atrasado para a idade, R. mal sabe escrever o nome. "Já repeti de ano umas quatro vezes". Juntos, mãe e filho colhem até 35 quilos de algodão por dia. Cinco horas de trabalho equivalem apenas a R$ 5,25.Quantia que para dona Joana faz muita diferença, pois a família é sustentada só com o salário mínimo da aposentadoria do esposo dela. Para a agricultora, o trabalho do menino é o único meio para livrá-lo da marginalidade. "Tive outro filho de criação que nunca trabalhou, estudou ou me ajudou e acabou virando ladrão. Prefiro que este trabalhe comigo para não acontecer a mesma coisa". O menor recebe a Bolsa-escola, que remunera a mãe com R$ 50,00 mensais. "Meu marido é doente e a aposentadoria só dá para os remédios. O dinheiro do algodão e da bolsa é para comprar comida".
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