Domingo
19 de Novembro de 2000

Exército de voluntários procura o PT

Já chega a 2.000 o número de pessoas que estão se oferecendo para ajudar na administração de João Paulo

Samarone Lima
Especial para o DIARIO

O empresário Heber Martins, a economista Maria do Socorro Araújo e a analista de sistemas Carolina Medeiros fazem parte de um grupo cada vez mais numeroso que diariamente busca o Partido dos Trabalhadores (PT) para ajudar à futura administração do prefeito João Paulo. Fazem parte de uma legião de mais de 2.000 voluntários que pretendem doar algumas horas por semana ao projeto petista de governar o Recife. A onda vermelha, que levou o petista ao poder, não terminou com a contagem final dos votos.

O volume de pessoas que procuram diariamente o PT se oferecendo como voluntário é um fenômeno novo, que está mexendo com a equipe de transição. Na semana passada, começaram a ser realizadas reuniões setorizadas para encaminhar os trabalhos. O partido não sabe quando a onda de voluntários vai parar, mas os números não param de crescer. Só à reunião de advogados voluntários, compareceram 70 pessoas. O grupo que pretende trabalhar nos movimentos sociais já tem 200 inscritos. Cultura conta com 300 voluntários. "Nos surpreendeu muito. É uma energia da sociedade que vamos amadurecer e aproveitar", diz o vereador Humberto Costa, da equipe de transição.

São centenas de médicos, engenheiros, jornalistas, artistas e diversas categorias profissionais que pretendem contribuir de alguma forma com a nova administração. O empresário Heber Martins é uma mostra do que acontece no Recife desde a vitória de João Paulo. Com uma vasta experiência no setor de estacionamentos em São Paulo, Heber mudou-se para o Recife há um ano. Transferiu o título, votou pela primeira vez no PT e se ofereceu para trabalhar como fiscal do partido. "Comecei a perceber que a proposta do PT é de total transparência", diz Martins. "O objetivo é honesto, e isso me conquistou completamente".

APRENDIZADO - Com a maré de gente buscando o partido, telefonando, mandando recados via Internet, o PT está tendo que aprender a trabalhar com o voluntariado. "Estou dando o pontapé inicial, mas sabemos pouco sobre o assunto", admite a economista Tânia Bacelar, que faz parteda equipe de transição do PT. Ela participou da primeira reunião com voluntários da UFPE e ficou surpresa com o número de pessoas interessadas em contribuir. "O volume de ofertas é impressionante", avalia. A economista acredita que será necessário criar um grupo na Prefeitura para cuidar especificamente deste assunto.

Para o cientista político Michel Zaidan, a mobilização espontânea de pessoas das mais diversas origens e profissões está relacionada com a própria campanha à prefeitura, marcada por um esforço voluntário e coletivo da militância petista, em oposição a uma "militância profissionalizada", do PFL. Mas Zaidan observa que este movimento de milhares de pessoas reflete também uma nova esfera pública da cidadania, que não aceita mais imposições e autoritarismos. "O voluntariado é uma reação da sociedade à velha política oligarquizada no Recife e no Estado", diz.

O desafio para o Partido dos Trabalhadores, analisa Zaidan, é saber receber e encaminhar esta energia e disponibilidade de tantas pessoas."Seria um perigo se o PT se fechasse num círculo intrapartidário e nas lutas internas. Poderia perder um momento belíssimo", diz.

A partir de 1º de dezembro, a maré de voluntários deve aumentar. Estão sendo agendados encontros nas Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Universidade Católica (Unicap) e Universidade de Pernambuco (UPE). Enquanto João Paulo não assume, um pequeno exército de voluntários se prepara para mudar a cidade.


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