l Contra a Colômbia, o futebol bailarino não apareceu. Está cedo. Como disse Leão, é preciso tempo para preparar uma boa coreografia. Faltaram também as sapatilhas. O baile apenas começou. Termina em 2002. Até lá, dá para ensaiar. Nem sempre é necessário um longo tempo para se afinar os bailarinos e os instrumentos de uma orquestra. Para isso, existe o maestro.
Às vezes, o tempo serve somente para evidenciar e aumentar as deficiências. Muito mais importante que o tempo de ensaio são as características dos bailarinos. No primeiro treinamento, um pode adivinhar os passos do outro. Aí, o baile começa, logo esquenta e só termina com o título.
Cada bailarino e instrumento tem seu brilho. Quando se afinam, nasce um espetáculo grandioso. Independentemente do tempo. Há bons dançarinos no futebol brasileiro, mas poucos são excepcionais. Os que existem estão cansados, sem confiança e ritmo.
Não se pode cobrar entrosamento no primeiro espetáculo, mas pode-se exigir um posicionamento correto. Não depende de ensaios. Basta uma boa conversa. No primeiro tempo, houve momentos brilhantes. O time pressionou, desarmou com facilidade e, com um ritmo veloz, criou várias situações de gols.
No segundo, cansou. É impossível bailar os dois tempos no mesmo ritmo. É preciso saber o momento de trocar os passos e de descansar. Vampeta jogou muito estático, ao lado do César Sampaio. Foi falta de iniciativa ou orientação do coreógrafo? O jogador não avançou, driblou, deu passes longitudinais, nem finalizou. Parecia um volante burocrata, igual a dezenas de outros espalhados pelo Brasil.
Os bailarinos Juninho e Rivaldo não tinham posição. Dançaram desordenadamente. A improvisação é necessária e bem-vinda, mas com o mínimo de disciplina. Senão, tropeçam um no outro. A defesa da Colômbia estava congestionada no meio e, mesmo assim, os dois armadores ofensivos tentaram, durante toda a partida, tabelas e dribles por esse setor. Só bailaram no meio do salão. Abandonaram as laterais.
Prefiro os dois meias próximos aos laterais, formando um par de cada lado. Por aí é que nascem os gols. O par dança melhor e mais bonito que um só. A presença do Marques foi uma tentativa de resolver o problema. Contudo, entrou no momento de intranquilidade da equipe, perturbada pelas vaias da torcida.
Como sempre, Juninho Paulista foi o jogador que mais correu, driblou, passou e chutou. Foi eleito o melhor da seleção, ao lado do Lúcio. Juninho é muito bom, mas não tanto quanto parece. Baila muito, mas resolve pouco. Não deu um passe decisivo, nem finalizou com eficiência.
Rivaldo, novamente, não dançou com a leveza dos grandes bailarinos. França e Edmundo nada fizeram para sair da boa marcação colombiana. Provavelmente, serão barrados no próximo baile. No primeiro tempo, França perdeu um gol, se ajoelhou e lamentou profundamente, durante um longo tempo com as mãos no rosto. Parecia que tinha perdido o gol do título, numa final de Copa do Mundo. Depois, como se esperava, não fez nada importante.
Quando um craque, ou um grande bailarino, perde um golfeito, ou tropeça nos passos, não se desespera. Sabe que outras oportunidades virão. O baile não terminou. O mesmo acontece com o grande goleiro. Gilmar (o verdadeiro) jogava melhor após um frango ou uma queda.
A revolta dos torcedores, antes do gol salvador, foi um protesto não somente contra a equipe, o espetáculo, mas também contra o futebol. O torcedor brasileiro perdeu a paciência. Está descrente. Com razão. A seleção é o reflexo do desorganizado futebol do país.
O regente Leão tem dois grandes problemas: a ausência do Romário e de uma afinada orquestra. Não se pode contar com o Baixinho e não há um bom substituto. Existem bons bailarinos. Nenhum é excepcional. Ronaldinho, do Grêmio, é o melhor, mas não é um artilheiro como Romário. O outro Ronaldo é uma esperança. Com a limitação de se reunir os bailarinos uma vez por mês, a seleção corre grandes riscos de chegar à Copa despreparada para a grande festa.
Leão tem de definir uma coreografia, ensaiar e formar um elenco e time. Mudar somente se for bastante necessário. Se o "professor" não resolver os problemas, a seleção, o coreógrafo e os bailarinos podem "dançar" na próxima Copa.