Domingo
19 de Novembro de 2000

Brasil atrai legião estrangeira

Privatizações trouxeram ao País mão-de-obra especializada em telecomunicações, energia e petróleo

Luiz Carlos Pinto
Da equipe do DIaRIO

O fenômeno é global, mas tem reflexos bem locais. Profissionais do mundo todo, com alta especialização em diversos ramos da economia, deixam seus países de origem para trabalhar em outros países. No Brasil, a chegada dessa legião estrangeira está ligada à quebra do monopólio estatal do setor energético, de telecomunicações e à abertura ao capital estrangeiro para a exploração do petróleo em território verde-amarelo. A presença dessas pessoas vem se tornando forte em outros setores também, como nas áreas da sáude e de advocacia. Na maior parte das vezes, entretanto, a prática das profissões é feita sem o aval das entidades representativas das respectivas categorias. O que não acontece quando profissionais brasileiros vão para fora do País. Lá, eles são rigorosos na entrada. Estima-se que essa situação seja vivida no Brasil por pelo menos 28 mil pessoas, o dobro de estrangeiros legalizados até setembro deste ano.

E tem mais. O Ministério do Trabalho (MT) concedeu o visto a 35 mil estrangeiros desde 1996. O quadro é bem diferente daquele vivido por imigrantes ilegais italianos, alemães e espanhóis no século passado e na primeira metade deste. O imigrante deste fim de milênio tem diploma, cargo de chefia em empresas multinacionais ou veio a convite de órgãos públicos. Nem a Polícia Federal nem o Ministério das Relações Exteriores ou o MT sabem quantos trabalhadores de fora do País estão ilegais.

A maioria entra com visto de turista ou autorização do MT para serviço temporário. Há também aqueles cujo visto está vinculado ao contrato. Quase nenhum revalida o diploma ou se cadastra nas instituições que fiscalizam e regulamentam as atividades de seus pares brasileiros.

Nessa situação se encontra o gerente de tecnologia da informação da Tim Nordeste, o italiano Danilo Marinucci. Um dos primeiros europeus a vir para Pernambuco depois da privatização da Telpe, Marinucci coordena o trabalho de 100 engenheiros. "Nunca fui procurado pelo Crea. Meu visto está atrelado ao contrato de trabalho", afirma. Na operadora trabalham 14 estrangeiros.

Para o Crea, Marinucci e seus colegas exercem o cargo de forma ilegal. "Os profissionais estrangeiros que não fizeram revalidação de diploma e não se inscreveram no conselho agem de forma ilegal", informou o presidente do conselho, Telga Araújo.

A entidade começou a notificar as empresas onde trabalham estrangeiros não cadastrados. Quer que até o fim deste ano esse pessoal se regularize. "Depois entraremos com representação nos ministérios Público e do Trabalho para autuar as empresas", completa.

Exemplos semelhantes já chamaram a atenção de outras duas entidades: o Conselho Regional de Medicina e a Ordem dos Advogados do Brasil. O Cremepe anda preocupado com atuação de médicos cubanos e colombianos em cidade da zona da Mata e Sertão. "Temos informações de que são cerca de 600 profissionais", afirma o presidente do Cremepe, Roberto Tenório. "Precisamos garantir o trabalho dos 9 mil médicos em atividade no setor público e privado do estado", completa.


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