Domingo
19 de Novembro de 2000

Canudos entre dois Brasis

Ariano

A lmanaque Armorial. Grande Logogrifo Brasileiro da Arte, do Real e da Beleza, contendo idéias, enigmas, lembranças, informações, comentários e a narração de casos acontecidos ou inventados, escritos em prosa e verso e reunidos, num Livro Negro do Cotidiano, pelo Bacharel em Filosofia e Licenciado em Artes Ariano Suassuna.

O CONSELHEIRO E O PRESIDENTE

No artigo intitulado Canudos entre dois Brasis, publicado na Gazeta de Rio Pardo de 5 de Agosto deste ano, o escritor e professor Nicola S. Costa fez honrosas referências a meus escritos sobre o Arraial criado por Antônio Conselheiro e destruído pela brutalidade positivista e "modernizante", numa política que, alguns anos depois, somando-se à economia entreguista e insensível de Campos Sales e Joaquim Murtinho, iria se tornar precursora de Fernando Henrique Cardoso e Pedro Malan.

Pedindo perdão pela vaidade em que isto implica, passo a transcrever alguns trechos do artigo de Nicola S. Costa:

"Suassuna afirma que, tanto na época de Canudos como hoje, éramos governados por uma 'insensível' elite econômica e política - (...) o Brasil 'oficial' e mais claro -, o dos 'brancos e poderosos', dono da 'cultura' e identificado com São Paulo e o Rio de Janeiro. Era uma elite urbana que representava os ideais positivistas e modernizantes".

"A essa elite, contrapunha-se nosso povo, pobre, negro, índio e mestiço - (...)o Brasil 'real' e mais escuro - autêntico, vivendo na 'barbárie'. Era a população rural, apegada à religiosidade e aos arcaísmos".

"Para a elite (...) Canudos representava 'um país inimigo', que era necessário invadir, assolar e destruir (...), 'uma sociedade justa, fraterna e despojada', como no passado havia sido o Quilombo dos Palmares e como viria a ser a comunidade dos caboclos da região do Contestado alguns anos após a guerra de Canudos".

"O conflito acontecido em Canudos

é o mesmo de hoje, com o Brasil oficial esmagando e sufocando o povo do Brasil real, pois os acontecimentos de Canudos continuam a se repetir a cada instante. Em todos os lugares. Em todos os campos de atividade. Diariamente, incessantemente".

"Ampliando sua visão para o plano internacional, Suassuna projeta Canudos nos países de Terceiro Mundo, designando-o como 'um imenso arraial de Canudos, pobre e injustiçado' pelas potências dominantes do mundo atual. No plano interno, Canudos é identificado com a repressão oficial e policial aos posseiros, favelados etc., que, para ele, são outros tantos arraiais de Canudos que estão sendo esmagados e humilhados".

Nicola S. Costa afirma, com toda razão, que eu discordo da idéia de que primeiro é preciso enriquecer para, somente então, se tentar a instauração da justiça (como se esta pudesse ser adiada). E comenta:

"Suassuna discorda (do adiamento) e recomenda simplesmente que o ideal seria (...) socializar nem que fosse a pobreza, reduzindo-se o luxo supérfluo para diminuir a distância entre opulentos e miseráveis, numa sociedade mais justa, fraterna e despojada".

"Dever-se-ia 'ampliar e aprofundar a comunidade verdadeira mas local de Canudos em comunidade verdadeira e nacional', já que nela o critério espiritual e humano estava acima da consideração material e econômica, e não o contrário, como apregoa hoje o Neoliberalismo, com sua 'modernização' falsificadora e falsa (...). Basta observar o que acontece em nosso país, desde as privatizações até o tráfico de drogas (...)".

"A propaganda consumista pratica uma autêntica 'lavagem cerebral' nas novas e velhas gerações, através dos meios de comunicação, a fim de 'modernizá-las', isto é, integrá-las ao mercado consumidor".

D epois, daí, Nicola S. Costa passa a transcrever trechos do depoimento que Nertan Macedo ouviu de Honório Vilanova e no qual fica perfeitamente evidenciado o sonho pré-socialista e messiânico dos seguidores de Antônio Conselheiro (sonho que tanto me toca e que, a meu ver, deveria ser o ponto-de-partida de nossa reflexão e de nossa ação política no Brasil). Dizia Honório Vilanova:

"Canudos era um pedaço de chão bem-aventurado. Não precisava nem mesmo de chuva. Tinha de tudo (...). Quem tinha roça tratava da roça, na beira do rio. Quem tinha gado tratava do gado. Quem tinha mulher e filhos tratava da mulher e dos filhos. Quem gostava de reza ia rezar. De tudo se tratava porque a nenhum pertencia e era de todos, pequenos e grandes, na regra ensinada pelo Peregrino (...). Não havia precisão de roubar em Canudos porque tudo existia em abundância, gado e roçado, provisões não faltavam".

No texto de Honório Vilanova, grifei a frase segundo a qual em Canudos tudo era de todos, porque ela confirma a de Euclydes da Cunha, para quem o Conselheiro "abria aos desventurados os celeiros fartos pelas esmolas e produtos do trabalho comum".

Por outro lado, só pode ter sido pelas deformações causadas em sua cabeça pelo Brasil oficial, que a meu Mestre, simpatizante do socialismo, tenha causado tanta estranheza, e quase repugnância, aquela sociedade socialista em-bruto, na qual havia "apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens,dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota-parte, revertendo o resto para a companhia" (isto é, para a comunidade).