Domingo
19 de Novembro de 2000

A nova vítima

DAD SQUARISI

Na guerra das telefônicas, valem todas as armas. A bela Ana Paula Arósio manda fazer um 21. Sem cerimônia, mistura o tu com o você. Maliciosa, a não menos bela Débora Block responde: "Intelig tem a tarifa mais barata no momento que você mais precisa". Quem está ganhando? Nem Deus sabe. No pega pra capar, só há uma certeza. A língua sofre as maiores baixas. A nova vítima é o pronome relativo. Ou melhor: a preposição que o acompanha. Eta, espinho no pé.

Livrar-se dele dá trabalho. É preciso, antes, entender o pronomezinho pra lá de sofisticado (que, o qual, cujo, onde). Ele adora frases elegantes. Faz tudo para evitar repetição de palavras. Substitui, por isso, as doses duplas:

Comprei o livro. O livro custa R$ 100,00.

Para não dizer outra vez 'livro", o relativo entra em ação: Comprei o livro que custa R$ 100,00.

Moro na cidade. A cidade tem um milhão de habitantes.

O termo teimoso é 'cidade#. Azar dele. Está condenado à morte: A cidade onde moro tem um milhão de habitantes.

E a preposição? Quando tem vez? Sóquando o nome pedir companhia. Trocando em miúdos: se o nome dose dupla estiver antecedido de preposição, o pronome manterá a companhia:

A Intelig tem a tarifa mais barata no momento. 'No" momento, você precisa mais (da tarifa). (A Intelig tem a tarifa mais barata no momento 'em' que você mais precisa.)

O livro custa R$ 100,00. Gosto 'do" livro. (O livro 'de' que gosto custa R$ 100,00). Fui ao restaurante. Falei 'do' restaurante (Fui ao restaurante 'de' que falei). O show foi aplaudido pela crítica. Assisti 'ao' show. (O show 'a' que assisti foi aplaudido pela crítica).

É isso. Na dúvida, desmembre a frase. Você acertará sempre.

Saravá, meu Pai

A eleição americana fez estragos. As tevês anunciaram Bush vencedor. Jornais da Europa e dos States foram atrás. No dia seguinte, rabinho entre as pernas, reconheceram o erro. Desmentidos pipocaram por todos os lados. O Orlando Sentinel chegou a publicar quatro edições. A manchete da primeira era "Oh, tão perto!" Da segunda, "É Bush". Da terceira, "É Bush?". Da última, "Disputada". A precipitação levantou a lebre. Pintaram suspeitas de falcatruas. Cédulas confusas, sumiço de urnas, recontagem de votos, ações na Justiça. É um deus-nos-acuda. A confusão cresce como água morro abaixo ou fogo morro acima. Saravá, meu Pai! Quem ganhou? No salve-se quem puder, a língua venceu. Repórteres foram às gramáticas. Consultaram a concordância com a conjunção 'ou'. A lição era clara. A danada joga em dois times. Num, indica exclusão. Noutro, inclusão. Na corrida pela presidência, um é bom, dois é demais. A Casa Branca só comporta um mandachuva. O 'ou# exclui. O verbo vai para o singular: Ou Bush ou Gore será presidente. OuMário ou Hélio se casará com Isa Galvão. O pai ou a mãe ficará com a guarda do filho. O 'ou' também faz as vezes de mãezona. Soma. No caso, a ação cabe a todos os sujeitos. Aí, o verbo pede plural: A recontagem ou a anulação foram requeridos pelos americanos. Um ou outro compareceram às urnas. Moral da história: nas confusões, nada se perde. Tudo se aproveita.

Recado "A oração correta nunca é de súplica, mas de gratidão." Neale Donald Walsch

Charme do charme

Luíza Inês escreve: "Li, na charmosa revista Domingo, do JB, um não menos charmoso artigo do Apicus. A certa altura, ele escreveu: 'Como seria recomendável se fizéssemos o mesmo com os maus políticos ao ver o fruto das mil rapinagens com as quais nos arruínam!' O acento em 'arruínam' me deixou encucada. Ele existe?"

Existe. O verbo que causa estragos recebe grampinho uma vez ou outra. Quando? Só nas formas em que o acento tônico cai antes do n: arruíno, arruínas, arruína, arruínam, arruíne, arruínes, arruínem. Mas: arruinarei, arruinaria, arruinarmos. E por aí vai.

Lá e cá

Heber Ribeiro da Cruz esteve em Portugal. Nas terras lusas, descobriu diferenças entre o português de lá e o de cá. Certo dia, ele fazia compras em Lisboa. Um brasileiro entrou na loja e perguntou:

Quanto custa o suéter marrom que está na vitrine?

O vendedor não entendeu bulufas. Naquelas bandas, a frase seria esta:

Quanto custa a camisola castanha que está na montra?

Diferença

Atenção, moçada! Parecido não é igual. Cumprimento, com 'u', é saudação. Comprimento, com 'o', extensão, tamanho: O pai cumprimentou a filha pelo comprimento da saia. Gore cumprimentou Bush. Depois, voltou atrás.

Aqui não

"O ponto faz a diferença", concluiu a Célia Flores ao ler estas frases: 'Nos Estados Unidos, vota quem quer. O voto não é obrigatório. Como aqui.'

O 'como aqui', isolado, dá a entender que, no Brasil, o voto é facultativo. É falso. Sem o ponto, o recado ganharia nota 10: O voto não é obrigatório como aqui."

Forde-de-bigode

O nome do carrinho Ford, modelo T, de 1919? É forde-de-bigode.

Explica-se

"Sóemagreci quatrocentas gramas", queixou-se ela ao deixar o SPA. "Pudera! Com grama no feminino, é difícil emagrecer", respondeu o parceiro. Por quê? A grama é o verdinho que cobre o jardim. O grama, a medida de peso. Ela perdeu quatrocentos gramas.

Deu tilt

"Nem Gore nem Bush. Deu Tilt", foi a manchete do Correio Braziliense de quinta. O operador de áudio da Rádio Nacional se surpreendeu:

Que caboclo é este? Não tinha ouvido falar no tal Tild.

A Mara Régia explicou:

Tilt é palavra inglesa. Substantivo, quer dizer inclinação e gangorra. Verbo, significa inclinar. 'Dar tilt' virou moda lá pelos anos 60.

O termo saiu das antigas máquinas de fliperamas. Quando muito sacudidas, as coitadas desligavam-se na hora. Na tela, piscando sem parar, aparecia a palavra tilt. Aí, pronto. Acabou-se o que era doce. "Ih, deu tilt", exclamavam os jogadores. Hoje, diriam 'deu pane'. Ou 'deu pau'.

Primário malfeito

Duvida? Está na página 156 da Veja: "Faz tempo que não leio nada em brasileiro", disse Carmen Mayring Veiga. A socialite nem ficou vermelha. Até hoje, ela não aprendeu liçãozinha elementar. No Brasil se fala português. Eta, primário malfeito!

Leitor pergunta I

Descobri, outro dia, que existem as formas acerca, a cerca e há cerca. Fiquei confuso. Qual é a deles? Lúcio Abreu, Imperatriz

Parece tudo igual. Mas os três têm a própria individualidade. Quer ver?

Acerca = sobre: Falei acerca das eleições.

A cerca = aproximadamente (tempo futuro): Termino o curso daqui a cerca de dois anos.

Há cerca = aproximadamente (tempo passado): Cheguei há cerca de meia hora.

Fala, leitor

"Estou maravilhado", brinca Fernando Maciel. "Jornalistas há muito inventaram a máquina do tempo. Sobretudo no anúncio de eventos esportivos, eles abusam de frases como esta: 'Assista à corrida na madrugada de sábado para domingo'. Não é sensacional? Podem-se saltar as horas chatas das tardes de sábado e as horas noturnas do mesmo dia. E, aí, se deliciar com as proezas do domingo. Sem mágica, o correto seria dizer 'assista à corrida na madrugada de domingo". Ou: "A corrida será no domingo, às 5h da madrugada."

Leitor pergunta II

Rumo a 2002. O a pede o acento indicativo de crase?

Danilo Moreno Nunes, Pelotas

Não. Crase é como aliança no anular esquerdo. Indica que há casamento de dois aa. Um é a preposição. O outro, geralmente, o artigo. Ora, 2002 é numeral. Não pede artigo. Não pode, pois, haver crase.

Oração

Um colega afirma que a seguinte frase está certinha da silva: "Estas seis coisas aborrece o Senhor". Para mim, há tropeço na concordância. Ou não?

Cláudia de Assis, João Pessoa

O sujeito é amo e senhor da oração. Aonde ele vai, o verbo vai atrás. No caso, o sujeito é plural (estas seis coisas). O verbo não tem saída. Tem que concordar com ele (aborrecem). Sem tugir nem mugir.

Penetra

Ouvi no Bom Dia, Brasil: "Amanhã, mesmo com Finados, há opções de lazer". Fiquei na dúvida. 'Com finados' é cacófato?

Márcio Carlos dos Santos, Taguatinga

É. As duas palavras formam uma terceira (confinados). A danada é penetra. Entrou sem convite. Xô!