Domingo
19 de Novembro de 2000

Sinal do prefeito eleito

OPINIÃO
E-mail: diario@dpnet.com.br

O prefeito eleito do Recife, João Paulo, fez, na edição de sexta-feira passada do DIARIO DE PERNAMBUCO, declaração de oportuna clareza. Segundo suas palavras, a propósito da sua base de apoio partidária, "serei radicalmente democrático, mas a decisão final da administração caberá a mim".

O PT teve, há alguns anos, na cidade de São Paulo e no Distrito Federal, exemplos de dispersão administrativa causada por falta de unidade no comando político. Com efeito, a ex-prefeita paulista, Luiza Erundina, na metade de sua gestão, foi obrigada a alterar sua equipe por conta de dificuldades na formulação e execução de programas. E o ex-governador brasiliense, Cristovam Buarque, declarou-se igualmente impedido de governar, com a liberdade gerencial desejada, em face do desentendimento político reinante em seu suporte partidário.

Por essas razões, a fala do prefeito eleito tem reconhecida oportunidade. Aliás, o autor francês Maurice Duverger, no livro clássico Partidos Políticos, distingue os partidos de quadros, cujaatuação se caracteriza por lideranças regionais e nacionais, de centro e de direita. E os partidos de massa, cuja ação é acentuada pelos movimentos sociais, obreiros e comunitários, de esquerda. Mas tal conceituação não dispensa, quando os partidos de esquerda se encontram no exercício do poder, a existência de líderes capazes de aglutinar, com coerência e firmeza, as ações do Governo. Até para concretizar, com eficácia e rapidez, os pontos programáticos do partido.

A afirmativa do prefeito eleito obteve imediato eco no entendimento do vice-prefeito, Luciano Siqueira, do Partido Comunista do Brasil, bem assim no do vereador mais votado do Recife, Humberto Costa, do mesmo partido de João Paulo. E no de representantes de outras agremiações que integram o arco político que assume os destinos da Capital no dia 1º de janeiro próximo. Melhor assim. A manifestação de unidade política em torno do prefeito que acaba de se eleger, com o respaldo daquelas forças, é importante. Não só para ressaltar uma legitimidade, que ele recolheu nas urnas. Como para acentuar o reconhecimento ao líder que tem sobre si a imensa responsabilidade de administrar os graves problemas que afetam a população recifense.

Nesse contexto, a participação, no secretariado que será empossado em janeiro, de profissionais com reconhecida experiência e perfil moral será fator contribuinte para o êxito da gestão do PT. É o caso da professora Edla Soares, que compôs o Conselho Estadual de Educação. Ela já exerceu, com eficiente desempenho, a secretaria municipal de Educação, é estudiosa das questões do setor e se identifica com as propostas da esquerda. Exibe, portanto, qualificada aptidão para ocupar, mais uma vez, a função que honrou.

O sinal dado pelo prefeito eleito é a senha de quem sabe o nível dos encargos que o aguardam. E certifica a confiança de que ele, com a autoridade que lhe conferiu o eleitorado, não pretende transferir suas atribuições para ninguém.

A televisão e seu labirinto

Ricardo Leitão

Diretor de Redação

A decisâo do juiz da 1ª Vara da Infância e Adolescência do Rio de Janeiro, Siro Darlan, determinando que a telenovela Laços de Família passasse a ser exibida após as 21 horas, reacendeu o debate sobre os limites da televisão no Brasil. Ao longo da semana, o DIARIO acompanhou os desdobramentos do tema. Entendeu o juiz que as tertúlias sexuais da enlaçada comunidade eram incompatíveis com o horário do jantar e desaconselhável a participação, na telenovela, de atores menores de 18 anos.

Não é a primeira vez que polêmica desta natureza se instala em torno da TV. A novidade é o destaque que recebe, por envolver a poderosa Rede Globo e um de seus produtos mais rentáveis, a "novela das oito".

A televisão aberta no Brasil move-se em um labirinto. Tem qualidade técnica e nível artístico e de produção que a igualam às melhores do Mundo. Mas a luta pela audiência a qualquer preço está levando sua programação a uma escalada de vulgaridade, de violência gratuita e de degradação da pessoa humana sem paralelo em outros países. Tramas como o de Laços de Família servem de prato de entrada para um cardápio que já incluiu vaginas e ânus que expelem fumaça e cenas de uma criança sendo torturada até defecar e depois obrigada a comer as fezes.

A conquista da audiência justifica tudo. Em nome dela é tecido um círculo vicioso, no qual a televisão nivela-se por baixo, ganha pontos no Ibope e termina por se render à apelação, absolutamente descomprometida de seu papel social como o mais influente formador de opinião pública. Ofuscados pelo sucesso a curto prazo, os responsáveis pelas programações ditas "populares" (como se o gosto do povo fosse lixo) não percebem que estão dando um tiro no pé. Excesso de vulgaridade também cansa - como demonstram os índices crescentes de audiência dos canais a cabo. E quando isto for constatado talvez a TV brasileira já tenha perdido o principal capital de qualquer veículo de comunicação - a credibilidade.

Em novembro de 1998 oGoverno federal decidiu intervir na polêmica, sugerindo que as emissoras adotassem "manuais de qualidade", espécie de códigos de ética internos. Não funcionou. Em julho passado, o ministro da Justiça, José Gregori, defendeu que as redes se auto-regulamentassem, a exemplo das agências de publicidade. Novo fracasso. Em setembro, Gregori assinou a Portaria 796, alterando a classificação por faixa de idade dos programas, na qual se baseou o juiz Siro Darlan para tardar as façanhas de Laços de Família.

A polêmica promete se estender, até porque a televisão está longe de escapar de seu labirinto. Ela não transformará seu conteúdo sob o paternalismo da censura, nem por pressão do discurso moralista. Mudará quando o telespectador reagir e apertar o botão do controle remoto em busca de programação de melhor qualidade. Esta decisão exige senso crítico, raro nas maiorias. Mas, como se constatou em outubro, também a consciência das maiorias está mudando no Brasil.

Até o próximo domingo.

Ruína de uma cidade

Clóvis

Cavalcanti

Importante patrimônio nacional, a casa em que viveu Cao Xueqin (ou Tsao Hsueh-chin), reverenciado escritor chinês do Século XVIII e autor da mais significativa novela da literatura do país, O Sonho no Pavilhão Vermelho, talvez mais importante do que Anna Karenina para os russos ou Madame Bovary para os franceses, foi derrubada no último mês de setembro em Beijing (Pequim) - "em nome do moderno". Só não parece que foi no Recife porque aqui ainda ninguém falou em pôr abaixo a bela mansão de arrabalde onde morou Gilberto Freyre em Apipucos.

Mas, na verdade, o que está acontecendo em Casa Forte, Rosarinho e imediações, onde a voracidade econômica dos especuladores imobiliários se alastra sem medir a dimensão da agressão que cometem, com o consentimento das pessoas de recursos que ali viviam e das que se habilitam a comprar os apartamentos que se oferecem nos edifícios em profusa construção na área, não difere muito da ação em Pequim. Lá, com efeito, não é apenas a casa de um ilustre e venerado romancista que se derruba impiedosamente, contra toda oposição de pessoas preocupadas com tal destruição. Há em marcha um "processo de modernização" na capital chinesa - representado pela substituição do antigo pela novidade dos edifícios gigantescos e avenidas de muitas faixas - que choca pela brutalidade, pela cegueira cultural que embute e pela total ausência de satisfação das autoridades à população que ainda ouse protestar.

Pequim sempre foi motivo de admiração por todos aqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-la antes da chegada dos comunistas ao poder em 1949. Para muitos, tratava-se de uma verdadeira oitava maravilha do mundo, praticamente inalterada desde tempos medievais, quando seus construtores seguiram o plano original do grande arquiteto Kublai Khan, ao longo das dinastias Ming (1368-1644) e Qing (1644-1912). Um mato-grossense de Corumbá que conheci no Pantanal, Ruy de Barros Maciel, pai de um colega meu de colégio, contou-me certa vez o deslumbramento que sentira ao chegar - vindo desde Moscou, pela Ferrovia Transiberiana - em Pequim. Foi antes da II Guerra Mundial, numa época em que aventurar-se por ali constituía verdadeira epopéia. A cidade era, de fato, uma maravilha, cheia de beleza urbana e arquitetônica, além de muitos mistérios. Ruazinhas apertadas, mais ainda e em maior quantidade do que as de Veneza, formavam zonas (que subsistiram até há pouco tempo), chamadas de "hutong" no dialeto da cidade, fascinando os turistas. Acontece que, curvando-se à primazia dos princípios da modernização comunista, que hoje atribui importância básica ao automóvel, os planejadores do regime dizem que essas zonas atravancadas de casas de belo estilo chinês - algumas, é certo, muito mal conservadas (como várias do que resta do bairro de São José, no Recife, que o prefeito Augusto Lucena achou por bem destruir para erguer a avenida Dantas Barreto) - colocam-se como obstáculos para as grandes vias de comunicação que é propósito estender por toda parte. Derrubam-se então os prédios, implantam-se avenidas e, no novo espaço construído, sobem edifícios monumentais. A isso chamam de modernização (aqui também há quem chame).

Essa é a realidade de uma ação que dói, que causa pavor, que agride toda uma herança histórico-cultural valiosíssima. A respeito, comenta a revista britânica The Economist de 9 de setembro de 2000: "Nos últimos anos, muito do que restava para dar à capital da China os ares de uma cidade extraordinária tem sido sistematicamente destruído em favor de boulevards sem personalidade e de uma arquitetura brutalizadora, revestida de azulejos de banheiro". Tudo isso em nome da vanguarda anunciada pelo Partido Comunista chinês de uma "civilização espiritual" e de uma "cultura socialista", cujos inimigos recebem o epíteto de "elitistas". Inexistindo oposição de qualquer espécie no país, não há outra saída a não ser testemunhar a brutalidade que se comete debaixo do maior sentimento de impotência, algo muito bem sintetizado por Liang Congjie, filho do maior arquiteto chinês do Século XX, recentemente,ao dizer que tudo o que bastava para deter tal tragédia seria uma palavra apenas de alguma autoridade. Mas essa palavra não sai; a burocracia quer é modernizar o país de toda maneira, sacrificando sua capital e tudo o que signifique a impressão de "arcaico", com "a substituição do antigo pelo horrendo" - opinião de The Economist que subscrevo.

Tal também é a sensação que me acode quando ando - o que faço diariamente, quando estou na cidade - pelos bairros de Casa Forte, Rosarinho, Aflitos e adjacências. O que acontece ali, sem nenhuma resistência oficial visível ou audível de quem poderia deter o processo de ruína do Recife ("uma palavra apenas"), é algo trágico, de que, em não muito tempo, por certo, todos irão se arrepender amargamente, à exceção dos donos de imobiliárias e construtoras, que terão faturado substancialmente à custa de um processo de morte da cidade. No caso de Pequim, destrói-se a arquitetura e substitui-se simultaneamente o desenho urbano, com ruas largas - tal como em Los Angeles ou Miami -, postas no lugar que era dos becos e vias estreitas dos antigos hutong. Pelo menos, se isso consola, o agente da transformação cirúrgica imposta, o carro, ganha espaço para sua movimentação e estacionamento. Não é o que ocorre no Recife, onde as mesmas ruas confortáveis de Casa Forte, que serviam muito bem a suas casas amplas, distantes umas das outras, e seus moradores, estão sendo hoje destinadas a uma população muito maior de gente e de autos, que as estão atravancando. Não é preciso muita argúcia para avaliar que tudo isso levará apenas ao caos - além, é claro, da irreversível e ominosa ruína de uma cidade. João Paulo, João Braga, Tânia Bacelar - e também Luciana -, por favor, não deixem que tal aconteça!

Bom-dia, Recife

Ronildo Maia Leite

A convite de Marcelo Abreu, quinta passada, fui bater um papo com estudantes de jornalismo da Católica. Perguntou-me uma delas qual a diferença entre a redação de antigamente com as de hoje. O que seria uma máquina de escrever em vez do computador. Contei-lhe essa velha história:

Perguntou-me uma garota jornalista o que seria o computador nos entrantes que nem eu na chamada terceira idade.

Aqui, ó... Tasquei-lhe um beijo nos peitos, quase arranco um pedaço.

Ouriçou-se a menina, eu ouricei. Ouriçamo-nos, eu e ela, no teclado de um sofá. Nas mulheres são, os seios, uma espécie de mouse a conduzir-nos a nós, os internautas, através de seu corpo.

Navegar é preciso, eu lhe disse.

Navegamos.

Quando se foi, me disse dengo:

Até logo, meu velho capitão...

Vibrei. Sempre está se indo e voltando, viciou-se a danada.

Seria um vício o computador, seja qual seja a idade. Há quem diga, ele afasta as pessoas, separa os casais.

Mentira de quem disse. Mulher deixa o homem por causa de um micro é porque se esfriaram os lençóis de parte a parte. Ou então porque o cara está afim de estar.

Homem de primeiríssimas idades, fui de antimônio e de chumbo, fui até de madeira. Sou ainda de trapos e tiras, sou de tipos e telas. Aos 14, 15 anos, com Diogo Rego, ele me apresentou a Gutemberg. Eu disse a ele, ao inventor da Imprensa:

- Ô, Gutem você não acha uma chatice essa decompor jornal letra por letra? Um saco.

A gente escrevia na máquina, depois ia pra caixeta de tipos. Arrumava tudo numa prancha e enfiava tudo na impressora movida a pedal. Mais tarde, o arrumadinho ia pruma impressora mais rápida. Começava os funerais de Gutemberg, camaradas.

Vezes cinco nos 13, hoje seguro um Bill Gates no descambo da ladeira. Foi assim:

Minha primeira impressora foi uma Lady 80, me custou uma Olivetti portátil e uma Remington novinhas. Meu primeiro micro foi um Corisco de 8 bitis. Não podia dar certo o casamento. Arengavam os dois - na primeira noite, a nobreza da Lady de menina embirrou com o cangaceiro por causa de que ele só tinha brabeza, se esquecia de tudo e era muito lerdo. Por cima, falava uma linguagem matuta. E ela, a minha Lady, uma matricial. Lady começou, então, a lhe cutucar com nove agulhas. O monitor do tal Corisco tinha o verde dos casquetes, onde brilhavam espelhos de um tal de WS-5. WS é a sigla do WordStar, todos sabem, um processador de texto. O 4, é a data. Do tempo do ronca ele já era na época. Onde já se viu uma lady casar com um corisco, camaradas. Depois, fui pro 5, pro 6, depois pro 7, esbarrei num for Windows. No Word 6, 7, 8, no Ventura, PageMaker e escambais. Enjoei mais dele, do Corisco, do que dela. Tanto que a Lady eu guardo como a um retrato de primeiro namoro.

O mesmo deveria ter feito com o Corisco - encarcerá-lo num pedaço de corredor do apartamento, onde está uma pequeno museu de minhas aventuras tipográficas: uma velha impressora manual, herança de Jota Borges. Uma Smit Corona dos anos 40, pedras litográficas, talhas, telhas de chumbo, fotolitos.

Mudei prum XT, depobreza igual. Sem memória, desmiolado, esquecia de tudo no caminho. Placa-mãe? Não é de boa nascença os sem um RAM na placenta. RAM quer dizer Randon Acess Memory, ou memória de acesso involuntário. É doidona a placenta de um micro. Fecunda informações em milésimos de segundos.

Fui mudando, mudando, guaribando aqui, acolá. A cada oito minutos ocorre um fato novo na área da informática. O que foi, daqui a pouco não é mais. Tanto que, faz algum tempo, o meu ganancioso 486 entrou na terceira idade com um ano e meio de nascença.

Disse tudo isso, pra completar depois aos olhos da menina jornalista: você sabe porque os intelectuais são de uma vaidade imensa e o povo da informática de uma simplicidade tão simples?

A razão bem que poderia ser essa: o intelectual passa um ano inteiro escrevendo um livro. Quando acaba, noite de autógrafos, matéria em jornal, possibilidade de ser imortal, imortal. O povo da informática não tem tempo pra isso.

Aí ela, ela me abraçou de novo como se fosse esse aqui que vos falaum homem de primeiríssimas idades.