Terça
13 de Junho de 2000

Perto do coração do fotógrafo

Imagens da Fotografia Brasileira 2 reúne depoimentos em livro

Adriana Dória Matos
Da equipe do DIARIO

“Q uando comecei a fotografar, não podia fotografar por gosto, mas aprendi a ter gosto em tudo que fotografava. Em seguida, comecei a dar aula de fotografia na ECA. Percebi que não conseguia motivar meus alunos. Eles só se interessavam se estivessem frente a um grande tema. Como eu não tinha nenhuma guerra para oferecer, só banalidades, eles não fotografavam nada”. Esta era a impressão da paulista Ella Dürst, que trabalha com foto publicitária, diante do desafio de orientar novatos no ofício.
  
“Mas tive um aluno que percebi que tinha substância. E um dia cheguei para ele e disse para parar de procurar grandes temas, abrir a geladeira da casa dele e fotografar o que tinha dentro. Ele me trouxe a fotografia de uma couve-flor. Era uma imagem belíssima. Hoje ele é fotógrafo de comida”. Resolvido o problema.
  
De fato, nem todos tem vocação para grandes temas. E, afinal, assuntos aparentemente banais podem se tornar memoráveis. Uma foto de moda, de publicidade, fotojornalismo, retrato, natureza-morta. Eduardo Simões, editor de fotografia das revistas Bravo e República, vê a fotografia de forma diferente de Ella Dürst.
  
SEGUNDA VISÃO - “Desde o tempo que trabalhei na revista Goodyear, estou tentando sair do fotojornalismo, procurando desenvolver mais ensaios fotográficos”, defende Eduardo Simões. “Quando falamos em fotojornalista, lembramos imediatamente do fotógrafo de jornal, aquele que trabalha com hard news. Este está fadado a lidar com o fato no seu dia-a-dia mesmo. É muito difícil essas fotos perdurarem. Já a foto de uma revista dura uma semana ou um pouquinho mais. Minha trajetória profissional foi traçada nas revistas. Estou preocupado com o que podemos chamar de a segunda visão de um fato”.
  
Indo além, o veterano Luis Humberto, que levou o ensino do fotojornalismo para a UnB, busca uma definição mais abrangente para o seu ofício: “É algo extremamente misterioso e fascinante. Ela lida com o fragmento, com o tempo, reconstitui a memória, cria referências e trabalha, na verdade, com a poética do banal. Você não precisa construir nada para fotografar (exceto na publicidade). Posso fotografar qualquer coisa e dar a essa imagem um caráter expressivo, dependendo da forma como eu reorganizo a realidade. A fotografia tem a ver com o comum, o corriqueiro. Não é preciso esperar uma tragédia para começar a fotografar. Ela está no cotidiano, pulsando, esperando por um olhar revelador”.
  Sendo um bom leitor de imagens, o espectador é capaz de depreender das fotos o discurso de quem as faz. Mas, esta tarefa nem sempre é simples, sobretudo, para quem não tem intimidade com a linguagem.
  
DIÁLOGO - Uma maneira de familiarizar-se com as idéias e motivações de uma gama heterogênea de fotógrafos que estão produzindo trabalhos importantes no Brasil é a leitura da coletânea de reportagens Imagens da Fotografia Brasileira 2, da jornalista Simonetta Persichetti. O lançamento reedita o formato do primeiro livro, de título homônimo, que, em 1999, recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Reportagem.
  
A fórmula do livro de Persichetti é simples e eficaz. Como observadora da fotografia e ouvinte atenta — ela é mestre em Comunicação e Artes, doutoranda em Psicologia Social, estuda e trabalha com fotografia há 20 anos — Persichetti optou pela estrutura direta de entrevistas pergunta-e-resposta, dando possibilidade de o entrevistado alongar seu pensamento e, de outra parte, de o leitor perceber a visão de cada fotógrafo.
  
Os depoimentos acima, por exemplo, foram extraídos das entrevistas de Imagens da Fotografia Brasileira 2 que também traz reproduções cor e p&b de fotos feitas pelos entrevistados, escolhidas por eles em parceria com a autora. Uma conclusão básica: nada melhor que o autor para falar de sua obra. Sem devaneios, nem interpretações.