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Perto do coração do fotógrafo
Imagens da Fotografia Brasileira 2 reúne depoimentos em livro
Adriana Dória Matos
Da equipe do DIARIO
Q uando comecei a fotografar, não podia fotografar por gosto,
mas aprendi a ter gosto em tudo que fotografava. Em seguida, comecei a
dar aula de fotografia na ECA. Percebi que não conseguia motivar
meus alunos. Eles só se interessavam se estivessem frente a um
grande tema. Como eu não tinha nenhuma guerra para oferecer, só
banalidades, eles não fotografavam nada. Esta era a impressão
da paulista Ella Dürst, que trabalha com foto publicitária,
diante do desafio de orientar novatos no ofício.
Mas tive um aluno que percebi que tinha substância. E um dia
cheguei para ele e disse para parar de procurar grandes temas, abrir a
geladeira da casa dele e fotografar o que tinha dentro. Ele me trouxe
a fotografia de uma couve-flor. Era uma imagem belíssima. Hoje
ele é fotógrafo de comida. Resolvido o problema.
De fato, nem todos tem vocação para grandes temas. E, afinal,
assuntos aparentemente banais podem se tornar memoráveis. Uma foto
de moda, de publicidade, fotojornalismo, retrato, natureza-morta. Eduardo
Simões, editor de fotografia das revistas Bravo e República,
vê a fotografia de forma diferente de Ella Dürst.
SEGUNDA VISÃO - Desde o tempo que trabalhei na revista Goodyear,
estou tentando sair do fotojornalismo, procurando desenvolver mais ensaios
fotográficos, defende Eduardo Simões. Quando
falamos em fotojornalista, lembramos imediatamente do fotógrafo
de jornal, aquele que trabalha com hard news. Este está fadado
a lidar com o fato no seu dia-a-dia mesmo. É muito difícil
essas fotos perdurarem. Já a foto de uma revista dura uma semana
ou um pouquinho mais. Minha trajetória profissional foi traçada
nas revistas. Estou preocupado com o que podemos chamar de a segunda visão
de um fato.
Indo além, o veterano Luis Humberto, que levou o ensino do fotojornalismo
para a UnB, busca uma definição mais abrangente para o seu
ofício: É algo extremamente misterioso e fascinante.
Ela lida com o fragmento, com o tempo, reconstitui a memória, cria
referências e trabalha, na verdade, com a poética do banal.
Você não precisa construir nada para fotografar (exceto na
publicidade). Posso fotografar qualquer coisa e dar a essa imagem um caráter
expressivo, dependendo da forma como eu reorganizo a realidade. A fotografia
tem a ver com o comum, o corriqueiro. Não é preciso esperar
uma tragédia para começar a fotografar. Ela está
no cotidiano, pulsando, esperando por um olhar revelador.
Sendo um bom leitor de imagens, o espectador é capaz
de depreender das fotos o discurso de quem as faz. Mas, esta tarefa nem
sempre é simples, sobretudo, para quem não tem intimidade
com a linguagem.
DIÁLOGO - Uma maneira de familiarizar-se com as idéias e
motivações de uma gama heterogênea de fotógrafos
que estão produzindo trabalhos importantes no Brasil é a
leitura da coletânea de reportagens Imagens da Fotografia Brasileira
2, da jornalista Simonetta Persichetti. O lançamento reedita o
formato do primeiro livro, de título homônimo, que, em 1999,
recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Reportagem.
A fórmula do livro de Persichetti é simples e eficaz. Como
observadora da fotografia e ouvinte atenta ela é mestre
em Comunicação e Artes, doutoranda em Psicologia Social,
estuda e trabalha com fotografia há 20 anos Persichetti
optou pela estrutura direta de entrevistas pergunta-e-resposta, dando
possibilidade de o entrevistado alongar seu pensamento e, de outra parte,
de o leitor perceber a visão de cada fotógrafo.
Os depoimentos acima, por exemplo, foram extraídos das entrevistas
de Imagens da Fotografia Brasileira 2 que também traz reproduções
cor e p&b de fotos feitas pelos entrevistados, escolhidas por eles
em parceria com a autora. Uma conclusão básica: nada melhor
que o autor para falar de sua obra. Sem devaneios, nem interpretações.
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