Terça
13 de Junho de 2000

Salada de longas e curtas no Cine Ceará

Festival chega à 10ª edição exibindo Estorvo, dirigido por Ruy Guerra, e O Pedido, de Adelina Pontual

Rodrigo Salem
Enviado Especial


S e faltou novidade no último Festival de Cinema do Recife, o Cine Ceará chega a sua décima edição trazendo um bom número de atrações diferentes para o público presente ao belo e bem-cuidado cinema São Luiz de Fortaleza. A abertura do evento aconteceu na última sexta-feira, com a exibição de Eu Não Conhecia Tururu, estréia da atriz Florinda Bolkan na cadeira de diretora, atraindo cerca de 1,2 mil pessoas à sala de exibição. Mas as duas mostras competitivas (Festival Nacional de Cinema e Vídeo e Mostra Internacional de Novos Talentos), o verdadeiro peso do Cine Ceará, só iniciaram no dia seguinte, destacando o pesado Garagem Olimpo, da Argentina.

A abertura do festival começou meio tensa por causa dos protestos dos professores da rede pública, que aproveitaram a presença maciça da mídia nacional para decretar uma greve de fome exatamente na praça em frente ao São Luiz. Isso não impediu a lotação máxima do cinema, nem a exibição em hors-concours de Eu Não Conhecia Tururu, filmado totalmente no Ceará — mais precisamente em Fortaleza, praia de Canoa Quebrada e Serra de Guaramiranga. Ajudado pela Lei do Incentivo do Estado do Ceará, o filme não é nada mais que um longa semi-institucional do Governo.
  
O que dizer de um filme onde o principal destaque é a interpretação de Maria Zilda Bethlem? Pois é. Florinda Bolkan mostrou que os anos diante da câmera não a deixaram preparada para dirigir atores e as únicas sobreviventes foram a atriz Ingra Liberato e uma garotinha local, no papel de uma aprendiz de serviçal. Quase não há história: três irmãs (Maria Zilda, Liberato e Bolkan) voltam a se reunir na terral natal para o casamento de uma quarta (Suzana Gonçalves) e começam a tagarelar sobre a vida, amores, felicidade sempre em algum cenário típico cearense ou com algum grupo de música local. Quando a trama apresenta alguma mudança, mostrando um possível romance da mãe, já é tarde demais. O filme deve estrear em circuito nacional nos próximos meses.
  
O segundo dia do Cine Ceará exalava expectativa: era a primeira exibição de Estorvo, adaptação do livro de Chico Buarque por Ruy Guerra, no Brasil depois de uma péssima recepção no Festival de Cannes. Fora da mostra competitiva, o filme mostrou porque foi vaiado na Riviera: bem-realizado tecnicamente, Estorvo não tem estrutura narrativa, se perde no portunhol indecifrável do ator principal, o cubano Jorge Perrugorria e no clima onírico injetado pelo diretor. A fotografia de Marcelo Durst é algo de destaque, aumentando ainda mais o sentido meio clip do Marylin Manson, que os personagens do freak-show do filme viraram.
  
Estorvo é um daqueles filmes que os realizadores vão adorar dizer que foi incompreendido, que não é fácil, anti-comercial. Em suma: chato. A atriz Leonor Arrocha, única representante do filme em Fortaleza, resumiu até melhor, no discurso de apresentação. “Não é um filme fácil, não é um filme espetacular, nem comercial”, disse, simpaticamente, antes de completar. “Mas é tudo isso”. Talvez por causa dela que o filme ainda arrancou esparsos aplausos de um platéia que não sabia o que havia acontecido.

COMPETIÇÃO — O Festival realmente subiu de nível com a entrada da mostra competitiva de cinema e vídeo. Organizado de forma a não cansar o espectador, o evento trouxe seis curtas leves, antes da mostra de longas. O grande destaque da primeira noite de competição, claro, não pôde deixar de ser a animação De Janela Pro Cinema, que já entra como favorito depois de ganhar o Festival do Recife e ser apresentado em Cannes. O curta do carioca Quiá Rodrigues foi ovacionado. O Pedido, da pernambucana Adelina Pontual, também foi bem recebido.
  
Mas foi o argentino Garagem Olimpo que teve a recepção mais calorosa. O diretor Marco Bechis constrói um filme eletrizante sobre os porões da ditadura Argentina, colocando em pauta as torturas dos militares, o desespero das mães da Praça Del Plata, a frieza angustiante dos soldados. É dífícil de acreditar que o roteiro funcione em pleno ano 2000, mas fica a lição para os cineastas brasileiros. Garagem Olympo já se credenciou para levar o prêmio de R$ 10 mil e o troféu Eusélio Oliveira.
  
O segundo dia da mostra competitiva manteve o nível nos curtas. Recife esteve presente com Cláudio Assis e seu Texas Hotel que, antes que alguém pergunte, foi apresentado sem maiores problemas pelo cineasta pernambucano, e pelo Ciclo do Caranguejo, vídeo com textos de Josué de Castro feito pelo carioca Adolfo Lachtermacher. Mas o grande destaque mesmo foi o curta Outros, do gaúcho Gustavo Spolidoro: contando várias histórias em plano seqüencial no melhor estilo Paul Thomas Anderson (Magnólia) e fazendo referências a Woody Allen. Os diálogos foram feitos pelo cineasta recifense Camilo Cavalcante, também presente no Ceará. A seleção foi tão boa que poucos ousaram ficar para assistir o filme português Glória. Mas já era pedir demais.