|
Salada de longas e curtas no Cine Ceará
Festival
chega à 10ª edição exibindo Estorvo, dirigido por Ruy Guerra, e O Pedido,
de Adelina Pontual
Rodrigo Salem
Enviado Especial
S e faltou novidade no último Festival de Cinema do Recife, o Cine
Ceará chega a sua décima edição trazendo um
bom número de atrações diferentes para o público
presente ao belo e bem-cuidado cinema São Luiz de Fortaleza. A
abertura do evento aconteceu na última sexta-feira, com a exibição
de Eu Não Conhecia Tururu, estréia da atriz Florinda Bolkan
na cadeira de diretora, atraindo cerca de 1,2 mil pessoas à sala
de exibição. Mas as duas mostras competitivas (Festival
Nacional de Cinema e Vídeo e Mostra Internacional de Novos Talentos),
o verdadeiro peso do Cine Ceará, só iniciaram no dia seguinte,
destacando o pesado Garagem Olimpo, da Argentina.
A abertura do festival começou meio tensa por causa dos protestos
dos professores da rede pública, que aproveitaram a presença
maciça da mídia nacional para decretar uma greve de fome
exatamente na praça em frente ao São Luiz. Isso não
impediu a lotação máxima do cinema, nem a exibição
em hors-concours de Eu Não Conhecia Tururu, filmado totalmente
no Ceará mais precisamente em Fortaleza, praia de Canoa
Quebrada e Serra de Guaramiranga. Ajudado pela Lei do Incentivo do Estado
do Ceará, o filme não é nada mais que um longa semi-institucional
do Governo.
O que dizer de um filme onde o principal destaque é a interpretação
de Maria Zilda Bethlem? Pois é. Florinda Bolkan mostrou que os
anos diante da câmera não a deixaram preparada para dirigir
atores e as únicas sobreviventes foram a atriz Ingra Liberato e
uma garotinha local, no papel de uma aprendiz de serviçal. Quase
não há história: três irmãs (Maria Zilda,
Liberato e Bolkan) voltam a se reunir na terral natal para o casamento
de uma quarta (Suzana Gonçalves) e começam a tagarelar sobre
a vida, amores, felicidade sempre em algum cenário típico
cearense ou com algum grupo de música local. Quando a trama apresenta
alguma mudança, mostrando um possível romance da mãe,
já é tarde demais. O filme deve estrear em circuito nacional
nos próximos meses.
O segundo dia do Cine Ceará exalava expectativa: era a primeira
exibição de Estorvo, adaptação do livro de
Chico Buarque por Ruy Guerra, no Brasil depois de uma péssima recepção
no Festival de Cannes. Fora da mostra competitiva, o filme mostrou porque
foi vaiado na Riviera: bem-realizado tecnicamente, Estorvo não
tem estrutura narrativa, se perde no portunhol indecifrável do
ator principal, o cubano Jorge Perrugorria e no clima onírico injetado
pelo diretor. A fotografia de Marcelo Durst é algo de destaque,
aumentando ainda mais o sentido meio clip do Marylin Manson, que os personagens
do freak-show do filme viraram.
Estorvo é um daqueles filmes que os realizadores vão adorar
dizer que foi incompreendido, que não é fácil, anti-comercial.
Em suma: chato. A atriz Leonor Arrocha, única representante do
filme em Fortaleza, resumiu até melhor, no discurso de apresentação.
Não é um filme fácil, não é um
filme espetacular, nem comercial, disse, simpaticamente, antes de
completar. Mas é tudo isso. Talvez por causa dela que
o filme ainda arrancou esparsos aplausos de um platéia que não
sabia o que havia acontecido.
COMPETIÇÃO O Festival realmente
subiu de nível com a entrada da mostra competitiva de cinema e
vídeo. Organizado de forma a não cansar o espectador, o
evento trouxe seis curtas leves, antes da mostra de longas. O grande destaque
da primeira noite de competição, claro, não pôde
deixar de ser a animação De Janela Pro Cinema, que já
entra como favorito depois de ganhar o Festival do Recife e ser apresentado
em Cannes. O curta do carioca Quiá Rodrigues foi ovacionado. O
Pedido, da pernambucana Adelina Pontual, também foi bem recebido.
Mas foi o argentino Garagem Olimpo que teve a recepção mais
calorosa. O diretor Marco Bechis constrói um filme eletrizante
sobre os porões da ditadura Argentina, colocando em pauta as torturas
dos militares, o desespero das mães da Praça Del Plata,
a frieza angustiante dos soldados. É dífícil de acreditar
que o roteiro funcione em pleno ano 2000, mas fica a lição
para os cineastas brasileiros. Garagem Olympo já se credenciou
para levar o prêmio de R$ 10 mil e o troféu Eusélio
Oliveira.
O segundo dia da mostra competitiva manteve o nível nos curtas.
Recife esteve presente com Cláudio Assis e seu Texas Hotel que,
antes que alguém pergunte, foi apresentado sem maiores problemas
pelo cineasta pernambucano, e pelo Ciclo do Caranguejo, vídeo com
textos de Josué de Castro feito pelo carioca Adolfo Lachtermacher.
Mas o grande destaque mesmo foi o curta Outros, do gaúcho Gustavo
Spolidoro: contando várias histórias em plano seqüencial
no melhor estilo Paul Thomas Anderson (Magnólia) e fazendo referências
a Woody Allen. Os diálogos foram feitos pelo cineasta recifense
Camilo Cavalcante, também presente no Ceará. A seleção
foi tão boa que poucos ousaram ficar para assistir o filme português
Glória. Mas já era pedir demais.
|
|