Terça
13 de Junho de 2000

Dicas de Português

Chavão

Vicente Limongi não se cansa de reclamar. “Visita de cortesia”, diz ele, “é baita chavão’. Todas as visitas são, em princípio, de cortesia. Se não forem, têm outro nome. Pode ser audiência. Talvez despacho. Serve reunião de trabalho. Uma coisa é certa. De cortesia não é.”
Coisas do Senhor
Eduardo Nelson viu um decalque no vidro do carro. No texto, lá estava: “Deus é bom para com seus seguidores”. Ele estranhou. “Há alguma coisa sobrando. É necessária a preposição em dose dupla (para com)? Ou basta uma? Basta uma. O Senhor é econômico. Dispensa excessos: Deus é bom com seus seguidores. Deus é bom para seus seguidores
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Que medo!

Mário Covas deu uma de valentão. Cara amarrada, dispensou os seguranças. Resolveu atravessar o acampamento dos professores na Praça da República. Não deu outra. Voaram laranjas, chinelos, pedras. Até uma cadeira resolveu dar uma voltinha. Alvo: a cabeça do governador. Resultado: um galo na testa e um machucado no lábio. Os telejornais não deixaram por menos. O gesto do governador foi ‘temerário’, disse a Bandeirante. ‘Temeroso’, frisou a Record. A pobre ouviu cantar o galo. Não sabe onde. Temerário e temeroso têm a mesma origem. É temor. Quer dizer medo, susto. Mas a semelhança pára aí. O significado de uma não tem nada a ver com o de outra. Temerário é arriscado, imprudente, perigoso. Temeroso, coitado, morre de medo. É medroso. O gesto do governador foi temerário sim, senhor.

Feitiçarias amorosas

Para viver um grande amor, valem todos os truques. Recorra aos jogos de sedução. Flores, telefonemas, olhares, chamegos pegam bem. Mas nem sempre são suficientes. Lance mão de outros feitiços. Faça agrados aos deuses. Dê rosas amarelas à vaidosa Oxum. Ofereça um perfuminho a Vênus. Acenda mil velas para Cupido. Sobretudo, lembre-se. O amor é cego, mas não é surdo. Capriche nos verbos do vocabulário amoroso. Eles têm uma marca. Rezam na cartilha do ‘um é pouco, dois é bom, três é demais’. São todos transitivos diretos (verbo + objeto). Nada de preposição. A intrusa funciona como vela. Xô! Paquerar, namorar, abraçar e beijar formam o bloco-do-só-dois. A gente paquera alguém (não ‘com alguém’), namora alguém (jamais ‘com alguém’), abraça alguém (nunca ‘a alguém’), beiiiiiiiiiiiiiija alguém (nem pensar em ‘a alguém). Eis na prática: Eu namoro Maria. Maria me namora. Luís paquera Beatriz. Beatriz o paquera. Itamar abraça a tenente. A soldada o abraça. A amada beija o amado. Ele a beija. No mais, vale o lembrete. Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje. “Eterno no amor”, cutuca Millôr Fernandes, “tem o mesmo sentido de permanente no cabelo.” Carpe diem.

Jogo do abre-fecha

Que rolo! Ora a palavra tem o ‘o’ fechado no singular e aberto no plural. É o caso de porco, porcos. Ora, fechado nos dois números. Vale o exemplo de chachorro, cachorros. A mudança de timbre tem um nome pra lá de sofisticado. É metafonia. No jogo do abre-fecha, há um senão. A língua é cheia de caprichos. Não admite regra infalível. Todas têm exceções. Daí a baita dor de cabeça. O que fazer? Na dúvida, prefira o som fechado ao aberto quando a metafonia não for de uso corrente. De quebra, siga estas duas dicas:

1. Os vocábulos que, no feminino e masculino, têm o ‘o’ tônico fechado conservam-no fechado no plural dos dois gêneros:
cachorro, cachorra cachorros, cachorras
coxo, coxa coxos, coxas
bolso, bolsa bolsos, bolsas
fofo, fofa fofos, fofas
balofo, balofa balofos, balofas
oco, oca ocos, ocas
lobo, loba lobos, lobas
poço, poça poços, poças
tolo, tola tolos, tolas

2. Os vocábulos que têm o ‘o’ fechado no masculino e aberto no feminino fazem o plural com ‘o’ aberto:
novo, nova novos, novas
grosso, grossa grossos, grossas
ovo, ova ovos, ovas
porco, porca porcos, porcas
É isso.

Mesma gangue

Micro joga no time de macro-, mini- e maxi-. Eles têm um denominador comum. São alérgicos ao hífen. Não aceitam o tracinho nem com reza braba: microempresa, macroeconomia, minissaia, maxissaia, microrregião. Às vezes, esses serezinhos versáteis mudam de papel. Resolvem dar o grito de independência ou morte. Aí, viram substantivo. E se comportam como gente grande. Com acento e tudo: Não gosto de míni nem de máxi. Prefiro a saia à altura do joelho.

Carpe diem

Carpe diem vem do latim. Quer dizer ‘aproveite o dia’. A expressão lembra: a vida é breve como a chama. Não perca tempo. Aproveite todos os momentos como se fossem únicos. E os últimos.

Jogo duplo

Maiúscula ou minúscula? Sol e Lua fazem jogo duplo. Os danados escrevem-se com a inicial grandona quando a referência é ao corpo celeste (O Sol é estrela de quinta grandeza. A Lua tem quatro fases.) Na indicação de claridade ou calor, as bichinhas perdem a majestade. Grafam-se com minúscula: um dia de sol, os raios da lua.

Humilhação
“A crase não foi feita pra humilhar ninguém”, escreveu Ferreira Goulart. “Mas humilha”, completa José Dias. Outro dia, ele afixou um cartaz no guichê em que trabalha: “Tenha a mão a carteira de identidade”. Os usuários perguntaram: “Cadê a crase?” Ele duvidou. Não pôs. Teve que agüentar a gozação. Crase é o encontro de dois aa. Na dúvida, recorra ao macete. Substitua a palavra feminina por uma masculina. Qualquer uma, não precisa ser sinônima. Se no troca-troca der ao, sinal de crase. Caso contrário, nada feito: Tenha a carteira à mão (tenha-a ao lado). Falou à diretora (falou ao diretor). Foi à piscina (foi ao clube). Cumprimentou a diretora (cumprimentou o diretor). É isso.

Armadilha

“Cuidado!”, adverte Ivo Cardoso. “A língua é uma armadilha. Bobeou? Levou.” Outro dia, o Correio Braziliense entrou bem. Escreveu com a maior sem-vergonhice: ‘União avalisa o senador’. Cruzes! É primário malfeito”. -Isar ou -izar? Alto lá! Não existe a partícula isar. A terminação é conseqüência do chega-pra-cá. A partícula ‘ar’ se gruda a nomes que terminam em is, isa, ise, iso: bisar (bis + ar), pesquisar (pesquisa + ar), avisar (aviso + ar), analisar (análise + ar), atrasar (atraso + ar). A regra é simples como tirar doce de criança. Preste atenção à palavra mãe. Nela aparece o s? A terminação -ar está coladinha nele? Não duvide. Mantenha a letrinha. -Izar joga em outro time. Pertence à equipe que morre de paixão por substantivos e adjetivos. O sufixo junta-se a eles. Da união, nasce um verbo: aval (avalizar), ameno (amenizar), capital (capitalizar), civil (civilizar), canal (canalizar).

Bênção, Senhor

Virou moda. O Jornal Nacional não deixa por menos. Todos os dias aparecem denúncias de extorsão. Fiscais, guardas de trânsito, traficantes, todos dão seu jeitinho. A câmera escondida registra. O microfone denuncia. É um deus-nos-acuda. A maior vítima? É o verbo. No pega pra capar, os locutores não deixam por menos. Dizem: ‘O fiscal extorquiu o comerciante.’ ‘O guarda extorquiu o motorista’. Socorro! Acuda-nos, Senhor! Extorquir o quê? O objeto da extorsão não é a vítima, mas o que tentam tirar dela. ‘O fiscal extorquiu dinheiro do comerciante’ é a forma abençoada por Deus. Amém.

Por falar nisso

Extorquir é manhoso. Faz exigências. O mimado só se conjuga nas formas em que, depois do qu, aparece e ou i. No presente do indicativo, o ‘eu’ não tem vez. O presente do subjuntivo é filhote do eu. Não existe. Os demais tempos esnobam saúde: extorque, extorquimos, extorquem, extorqui, extorquia, extorquiremos, extorquiriam, extorquisse, extorquíssemos.