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Dicas de Português
Chavão Que medo! Mário Covas deu uma de valentão. Cara amarrada, dispensou os seguranças. Resolveu atravessar o acampamento dos professores na Praça da República. Não deu outra. Voaram laranjas, chinelos, pedras. Até uma cadeira resolveu dar uma voltinha. Alvo: a cabeça do governador. Resultado: um galo na testa e um machucado no lábio. Os telejornais não deixaram por menos. O gesto do governador foi temerário, disse a Bandeirante. Temeroso, frisou a Record. A pobre ouviu cantar o galo. Não sabe onde. Temerário e temeroso têm a mesma origem. É temor. Quer dizer medo, susto. Mas a semelhança pára aí. O significado de uma não tem nada a ver com o de outra. Temerário é arriscado, imprudente, perigoso. Temeroso, coitado, morre de medo. É medroso. O gesto do governador foi temerário sim, senhor. Feitiçarias amorosas Para viver um grande amor, valem todos os truques. Recorra aos jogos de sedução. Flores, telefonemas, olhares, chamegos pegam bem. Mas nem sempre são suficientes. Lance mão de outros feitiços. Faça agrados aos deuses. Dê rosas amarelas à vaidosa Oxum. Ofereça um perfuminho a Vênus. Acenda mil velas para Cupido. Sobretudo, lembre-se. O amor é cego, mas não é surdo. Capriche nos verbos do vocabulário amoroso. Eles têm uma marca. Rezam na cartilha do ‘um é pouco, dois é bom, três é demais’. São todos transitivos diretos (verbo + objeto). Nada de preposição. A intrusa funciona como vela. Xô! Paquerar, namorar, abraçar e beijar formam o bloco-do-só-dois. A gente paquera alguém (não ‘com alguém’), namora alguém (jamais ‘com alguém’), abraça alguém (nunca ‘a alguém’), beiiiiiiiiiiiiiija alguém (nem pensar em ‘a alguém). Eis na prática: Eu namoro Maria. Maria me namora. Luís paquera Beatriz. Beatriz o paquera. Itamar abraça a tenente. A soldada o abraça. A amada beija o amado. Ele a beija. No mais, vale o lembrete. Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje. “Eterno no amor”, cutuca Millôr Fernandes, “tem o mesmo sentido de permanente no cabelo.” Carpe diem. Jogo do abre-fecha Que rolo! Ora a palavra tem o o fechado no singular e aberto no plural. É o caso de porco, porcos. Ora, fechado nos dois números. Vale o exemplo de chachorro, cachorros. A mudança de timbre tem um nome pra lá de sofisticado. É metafonia. No jogo do abre-fecha, há um senão. A língua é cheia de caprichos. Não admite regra infalível. Todas têm exceções. Daí a baita dor de cabeça. O que fazer? Na dúvida, prefira o som fechado ao aberto quando a metafonia não for de uso corrente. De quebra, siga estas duas dicas: 1. Os vocábulos que, no feminino e masculino,
têm o o tônico fechado conservam-no fechado no
plural dos dois gêneros: 2. Os vocábulos que têm o o
fechado no masculino e aberto no feminino fazem o plural com o
aberto: Mesma gangue Micro joga no time de macro-, mini- e maxi-. Eles têm um denominador comum. São alérgicos ao hífen. Não aceitam o tracinho nem com reza braba: microempresa, macroeconomia, minissaia, maxissaia, microrregião. Às vezes, esses serezinhos versáteis mudam de papel. Resolvem dar o grito de independência ou morte. Aí, viram substantivo. E se comportam como gente grande. Com acento e tudo: Não gosto de míni nem de máxi. Prefiro a saia à altura do joelho. Carpe diem Jogo duplo Maiúscula ou minúscula? Sol e Lua fazem
jogo duplo. Os danados escrevem-se com a inicial grandona quando a referência
é ao corpo celeste (O Sol é estrela de quinta grandeza.
A Lua tem quatro fases.) Na indicação de claridade ou calor,
as bichinhas perdem a majestade. Grafam-se com minúscula: um dia
de sol, os raios da lua. Armadilha Virou moda. O Jornal Nacional não deixa por menos. Todos os dias aparecem denúncias de extorsão. Fiscais, guardas de trânsito, traficantes, todos dão seu jeitinho. A câmera escondida registra. O microfone denuncia. É um deus-nos-acuda. A maior vítima? É o verbo. No pega pra capar, os locutores não deixam por menos. Dizem: O fiscal extorquiu o comerciante. O guarda extorquiu o motorista. Socorro! Acuda-nos, Senhor! Extorquir o quê? O objeto da extorsão não é a vítima, mas o que tentam tirar dela. O fiscal extorquiu dinheiro do comerciante é a forma abençoada por Deus. Amém. Por falar nisso |
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