Terça
13 de Junho de 2000

Cabral abre Congresso Mundial de Jornais

Presidente da ANJ destacou importância do livre fluxo de informações para a estabilidade da democracia

Arlete Salvador
Enviada especial


RIO - A defesa da liberdade de expressão e de Imprensa, em nome do que representa para as nações e para a humanidade, marcou a abertura oficial do 53º Congresso Mundial de Jornais e o 7º Fórum Mundial de Editores, no Rio de Janeiro. “A liberdade de Imprensa é a luz dos povos, iluminando o caminho das sociedades rumo à democracia estável, à liberdade plena, à justiça ampla, à economia social de mercado”, afirmou o presidente da Associação Nacional de Jornais, Paulo Cabral.

“Somente o fluxo de informações sem censura e sem interferência de interesses que não os da sociedade como um todo, garante a manifestação do pensamento na sua plenitude; a criatividade; a pluralidade; a igualdade de oportunidades. Enfim, somente a liberdade de Imprensa é capaz de assegurar a liberdade humana, sem a qual, talvez, nem valha a pena viver” (leia íntegra do discurso abaixo).

 Um jornalista simbolizou, ontem, toda essa defesa pela liberdade de expressão. A foto do sírio Nizar Nayouf, ex-editor-chefe do jornal A voz da Democracia, de Damasco, permaneceu projetada no fundo do Theatro Municipal do Rio, enquanto, no palco a jornalista brasileira Ruth de Aquino descreveu, em detalhes, as torturas a ele vem sendo submetido na prisão.

 Aos 52 anos, Nizar está preso desde 1992. Foi massacrado várias vezes, torturado com pontas de cigarro, amarrado pelos pés e pendurado no teto por horas. Está doente e sem cuidados médicos. Mal consegue caminhar. Nas poucas cartas que seus algozes permitiram que escrevesse, comparou a prisão a um cemitério de viventes.

A Nizar, que se tornou símbolo da liberdade de expressão no mundo, o 53º Congresso Mundial de Jornais e o 7º Fórum Mundial de Editores dedicou ontem o Prêmio Pena de Ouro da Liberdade de Imprensa 2000, uma pequena estatueta dourada.

 O jornalista sírio seria representado na cerimônia por seu irmão, Sarah, que também foi preso dois dias antes de embarcar para o Rio e ficou quatro dias detido. Não pôde comparecer à cerimônia. Ruth permaneceu com o prêmio nas mãos por alguns minutos, porque não havia ninguém lá para recebê-lo. “Quem sabe, um dia”, disse Ruth Nazir recusou-se a conquistar sua liberdade, como havia sido oferecido pelas autoridades sírias, em troca da recusa aos prêmios internacionais que já lhe foram concedidos.

 A Orquestra Sinfônica e Coro do Theatro Municipal do Rio apresentaram obras de Carlos Gomes e Heitor Vilas-Lobos. De uma forma ou de outra, todos os convidados - entre eles o governador do estado Anthony Garotinho e o prefeito Luiz Paulo Conde - ressaltaram a importância da existência de uma Imprensa livre e responsável para a construção e fortalecimento da democracia no mundo.

 O presidente da Associação Mundial de Jornais, Bengt Braun, lembrou que hoje existem 124 jornalistas cumprindo longas penas de prisão em 24 países. Somente na América Latina, nove jornalistas foram assassinados este ano. “Esses assassinatos selvagens estão, na maioria dos casos, relacionados à investigações que esses repórteres faziam sobre crime e corrupção”, ressaltou.

 Segundo ele, a entidade que dirige tem a responsabilidade de divulgar e protestar contra a violência e contra o direito básico humano à liberdade de informação.

 O prefeito do Rio Luiz Paulo Conde, por sua vez, defendeu a existência de uma Imprensa capaz de dar voz às maiorias e próxima da população. Para ele, também é importante que a Imprensa seja capaz de se auto-regulamentar, investigar e apurar eventuais abusos. “É preciso dar um não definitivo à arrogância”, afirmou o prefeito, numa crítica à conduta dos jornais e jornalistas.


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