Segunda
12 de Junho de 2000

Português

DICAS DE PORTUGUÊS
Dad Squarisi

Os casadinhos

"A crase não foi feita pra humilhar ninguém", escreveu Ferreira Gullar. O poeta tem razão. O sinalzinho não humilha. Mas maltrata. As dúvidas cutucam sem parar. Um dos algozes são os casadinhos. Ora os danados pedem crase. Ora esnobam-na. Como entender tanto capricho? Basta lembrar: quando um não quer, dois não brigam. Se um dos parceiros tiver a companhia do artigo, o outro também terá. Caso contrário, nada feito. Quer ver?

Trabalho das 8h às 18h. O das é casadinho. A preposição de combina-se com o artigo a. Aí, não dá outra. O às também vem acompanhado. A preposição a cola-se ao artigo a. Daí a crase. Mais exemplos: A novela vai das 20h30 às 21h15. O banco fica aberto das 12h às 17h. Viajei da Suíça à Bélgica. Casado com casado. Solteiro com solteiro. Se o primeiro elemento for de, não duvide. O segundo será a: Estudo de segunda a sexta. Trabalho de quinta a domingo. Viajei de Belo Horizonte a Recife. É isso. Lé com lé, cré com cré. Cada sapato no seu pé.

As três peneiras

A Mônica Silveira leu e gostou. Guardou o texto."Não seja egoísta", disse-lhe o anjo-da-guarda. "Passe o recado pra frente." Ela não pensou duas vezes. Mandou a historinha para as Dicas. Ei-la: Um rapaz disse a Sócrates que precisava contar-lhe algo sobre alguém. O filósofo perguntou: O que você vai me contar já passou pelo teste das três peneiras? Três peneiras? Sim. A primeira é a verdade. O que você quer contar é um fato? Caso tenha ouvido falar, nada feito. A coisa deve morrer por aí mesmo. É verdade. Então deve passar pela segunda peneira. É a bondade. O que você vai contar é coisa boa? Ajuda a construir o caminho, a fama do próximo? Sim. É coisa boa. Se o que você quer contar é verdade e coisa boa, deve passar pela terceira peneira a necessidade. Convém contar? Resolve alguma coisa? Ajuda a comunidade? Pode melhorar o planeta? Sério, Sócrates arremata: Se passar pelas três peneiras, conte. Eu, você e seu irmão iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça.

Será uma fofoca a menos a envenenar o ambientee a fomentar a discórdia entre os homens. Pense nisso. As palavras têm mais força do que imaginamos.

Jura?

"É fato?", perguntou Sócrates. Acertou na mosca. O filósofo freqüentou boa escola. Não caiu na esparrela de dizer 'fato verídico'. Seria redundannnnnnnnnnte. Nem falou em 'fato inverídico'. Seria impropriedade. 'Fato inverídico' tem outro nome. É mentira.

Fala, leitor

"Até tu, Elio Gaspari?", pergunta Uverlam Primo. "No artigo do dia 28, estava escrito com todas as letras: 'A choldra que paga imposto prefere dar de comer às crianças do que banquetear banqueiros'. Cruuuuuuzes! Alguém prefere uma coisa 'a' outra. Nunca 'do que' outra (A choldra prefere dar de comer às crianças a banquetear banqueiros). O colunista jogou ovo na língua". Explica-se. Ele anda conversando com Vera Fischer. A loura sempre prefere uma coisa do que outra. Dá no que dá. Beleza não põe mesa.

O maioral

A Maria Luíza Vasconcelos sabe das coisas. Na escola, aprendeu uma lição. O verbo é o senhor da frase. Manda e desmanda. Duvida? Existem orações sem sujeito. Nunca sem predicado. Outro dia, ela ouviu na RedeTV!: "Fernando Henrique preside ao país". Estranhou. Presidir exige a preposição a? O Dicionário de Verbos e Regimes, de Francisco Fernandes, é o melhor da praça. Nele, aparecem as duas regências. Na acepção de dirigir como presidente, o autoritário aceita as duas regências: ACM preside o Senado. ACM preside ao Senado. É a velha história da mulher de César. Ela não só tem que ser honesta, mas parecer honesta. No caso, presidir 'ao' dá a impressão de erro. Mande o 'a# pras cucuias. Ele não faz falta.

Dentro e fora

A dúvida vem de Belo Horizonte. A Clara Cantanhede arranca os cabelos de desespero. "Há frases em que aparece 'ao norte#. Em outras, 'no norte'. Qual é a deles? Estão inventando modas?" Nada disso, companheira. As preposições fazem a diferença. Use 'ao norte' quando um objeto estiver fora do outro (A Venezuela fica ao norte do Brasil.) 'No norte', quando estiver dentro (Os maiores estados brasileiros estão localizados no norte do país. Moro no norte da cidade.) A regra vale para as demais direções: A leste, o Brasil limita com o Oceano Atlântico. O Uruguai fica ao sul do Brasil. Torres está localizada no norte do Rio Grande do Sul. É isso.

Recado

"Escrevo porque é uma das raras coisas que sei fazer."
Carlos Fuentes

Xô, preguiça

"Chega de preguiça", bateu pé o senhor Malvadeza. "Ponham o Exército nas ruas. O povo quer segurança". A milicada chiou. Os jornais noticiaram. Mas confundiram alhos com bugalhos. Chamaram Exército, Marinha e Aeronáutica de Três Armas. Nada feito. Armas são as subdivisões do Exército (cavalaria, infantaria, artilharia). O verde-oliva, o azul e o branco formam as Forças Armadas.

Nota 10

O substantivo personagem não está nem aí pra sexo. Tolerante, aceita ser feminino. Aí, vira a personagem. Topa, com a mesma indiferença, ser masculino. Torna-se o personagem. Um e outro merecem nota dez.

Bem-vindo, Benvindo

Bem-vindo, no sentido de boas-vindas, se escreve assim. Separadinho da silva. Não confunda Germano com gênero humano. Benvindo é nome próprio.

Redundâncias

Há pleonasmos e pleonasmos. Uns são vira-latas. Estão na cara. É o caso de subir pra cima, descer pra baixo, elo de ligação, monopólio exclusivo. Outros são mais sofisticados. Têm pedigree. Neles tromba gente boa. FHC foi um. Ele aceitou o desafio de assumir o combate à violência, que está "em escalada crescente". Ganha uma viagem a Honnover quem descobrir a escalada para baixo.

Mais. Em entrevista, Aécio Neves não deixou por menos. Disse "Não posso fazer previsões para o futuro". Virgem Maria! Fazer previsões para o futuro é tão redundante quanto experiência passada. Ou experiência anterior. Deus nos proteja! Amém.

Para quê?

Fujimori fez e aconteceu. Pisou a Constituição. Criou eleitores fantasmas. Fraudou as urnas. No fim, não deu outra. Ganhou a eleição. A resposta não tardou. Os Estados Unidos não reconheceram o resultado. A oposição comemorou. "Foi vitória de Pirro", gritaram os peruanos. Eles buscaram no baú da língua expressão mais antiga que o rascunho da Bíblia. Pirro, rei do Épiro, lutava contra os romanos. Em 279 a.C., travou-se a batalha de Asculum. A façanha custou caro. No pega pra capar, foi-se a fina flor do exército. Ao ver os estragos, Sua Majestade exclamou: "Com mais uma dessas vitórias, estarei perdido". Fiat lux! Vitória de Pirro passou a caracterizar todas as conquistas custosas, alcançadas à custa de imensos sacrifícios. Em outras palavras: o resultado não compensa o investimento.

Tio Patinhas

Pão-duro tem um nome chique. É avaro. Como bom mão-fechada, com ele não há desperdício. Nada de acento (ávaro). A palavra é paroxítona sim, senhor.

Silabada

Antônio Kandir é caso perdido. O homem não dá uma dentro. É uma silabada atrás da outra. Primeiro foi 'rubrica'. Ele tornou proparoxítona a humilde 'rubrica', paroxítona desde que se conhece por gente. Ninguém apronta uma só vez. Nem com uma só pessoa. Na segunda, novo chute na língua. Em entrevista à TV Cultura, o deputado pisou o 'ruim'. Sem cerimônia, acentuou o u (rú-im). Nada feito. Esqueceu-se de que a sílaba tônica cai no i (ru-ím). Conclusão: é primário malfeito. Xô!

Ocasião

Em língua de terno e gravata, o latim causa mortis faz a festa. Na hora da bermuda e camiseta, tem vez a brasileirinha causa da morte.