Recife, Terça-Feira, 5 de Maio de 1998

Kofi Annan acusado de omissão em massacre

Secretário-geral da ONU soube de plano de genocídio e nada fez

NOVA IORQUE - O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, foi informado dos preparativos das matanças que iam ser cometidas contra a minoria tutsie em Ruanda, em 1994, mas não tomou qualquer atitude, afirmou a revista New Yorker. Segundo a revista, o departamento encarregado das operações de manutenção de paz da ONU, que então era dirigido por Kofi Annan, ordenou aos capacetes azuis presentes em Ruanda que não interviessem na questão. Entre 500 mil e 800 mil tutsis e hutus moderados foram assassinados por extremistas hutus de abril a julho de 1994.

O general canadense Romeo Dallaire, no comando de 5 mil capacetes azuis posicionados em Ruanda, avisou, através de um fax datado de 11 de janeiro de 1994, que os extremistas hutus estavam se preparando para massacrar a minoria tutsi. Dallaire pediu autorização para desmantelar os esconderijos de armas, o que foi negado sob pretexto de que essa operação não estava incluída no mandato da ONU em Ruanda. O general compartilhou a informação com os embaixadores da Bélgica,França e Estados Unidos em Ruanda, países que também não reagiram.

O atual chefe de gabinete de Annan, Iqbal Riza, que em 1994 era seu adjunto no departamento encarregado das operações de manutenção da paz, declarou à revista New Yorker que ele foi o responsável pela resposta. A revista afirmou possuir uma cópia dessa resposta enviada também por fax no mesmo dia. Riza declarou que Annan pode ter visto este documento, dois ou três dias mais tarde, ao folhear as cópias.

VONTADE POLÍTICA

Essas informações surgem num momento muito delicado, já que Kofi Annan viajará, na próxima quinta-feira, a Ruanda. Ontem, em Nairóbi, no Quênia, Kofi Annan afirmou que o mandato e as capacidades dos capacetes azuis eram uma decisão política. Ele disse que faltou vontade política a nível local, nacional e internacional, até mesmo de Estados membros com capacidade para evitar o massacre. A não-intervenção da ONU, segundo Annan, "não foi por falta de informação, mas de decisão, e ninguém pode negar que o mundo falhou com o povo ruandês".

O secretário-geral destacou que o mais importante agora não é discorrer sobre o que poderia ter sido feito para que as matanças não ocorressem, mas impedir que se repita uma tragédia similar. Para Annan, é fundamental que a comunidade internacional determine a melhor forma de ajudar ao povo e ao governo de Ruanda na tarefa de reconstruir uma sociedade unida e curar as feridas do passado. Um responsável da ONU que viaja com Annan declarou que não há nada de novo nas informações, e recordou que os governos também estavam a par delas.

ATUAÇÃO TARDIA

O massacre de Ruanda foi um dos mais cruentos genocídios dos últimos anos. Os assassinatos só foram interrompidos em julho de 1994, depois que a Frente Patriótica Ruandesa (FPR, dominada pela etnia tutsi), chegou ao poder em Ruanda.

A intervenção da ONU aconteceu tardiamente. Só em novembro de 1994 o Conselho de Segurança da ONU criou um tribunal penal internacional para Ruanda (TPR), com sede em Arusha, norte da Tanzânia. O tribunal da ONU,que pode pronunciar no máximo penas de prisão perpétua, ainda não proferiu nenhuma sentença. Agora está julgando o ex-primeiro-ministro ruandês Jean Kambanda, que dirigiu um governo interino entre 8 de abril e 17 de junho de 1994.

  Enquanto isso, a justiça ruandesa já começou a julgar, condenar e executar as sentenças. No dia 24 de abril, 22 pessoas foram executadas em praça pública em várias cidades do país, em espetáculos macabros que atraíram milhares de pessoas. Há 130 mil presos à espera de julgamento e outras 114 pessoas já condenadas à morte no país. Entre elas está o ex-vice-presidente do Movimento Democrático Republicano (MDR), Froduald Karamira, considerado o principal idealizador do poder hutu, a tendência extremista partidária do genocídio.


Atuação da Imprensa recebeu elogios do secretário-geral

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