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| Recife, Domingo, 3 de Maio de 1998 |
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Seca: confisco de alimentos é visto como última alternativa para matar a fome Pesquisa mostra que os saques são defendidos por 68,4% dos trabalhadores rurais de Pernambuco, como forma de sobreviver à seca que atinge o Nordeste Erilene Araújo Enquanto o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e a igreja defendem os saques como alternativa para matar a fome dos flagelados da seca e o governo federal qualifica de irresponsável a atitude das duas instituições de estimular os famintos aos ataques, o povo do Sertão continua com fome. A polêmica alimentada, também, por interesses políticos (mais latentes, em ano eleitoral) deixou de lado a opinião dos principais interessados no assunto: os trabalhadores rurais. Pesquisa realizada pelo diretor regional da Cáritas Brasileira Nordeste 2 (entidade vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB), Ângelo Zanré, intitulada Às claras para todo mundo ver, mostra que os saques são defendidos por 68,4% dos trabalhadores rurais de Pernambuco. A pesquisa foi realizada nos municípios de Ouricuri, Afogados da Ingazeira e Serra Talhada, com 272 trabalhadores rurais alistados nas frentes de trabalho entre os anos de 93 e 94. O material serviu de base para a tese de mestrado de Zanré, defendida no ano passado. Do total de entrevistados, 67,7% dizem que a ação só deve ser cometida quando for a única alternativa para matar a fome da família. Mais de 87% acreditam que o ato é uma maneira de sobreviver à seca. Cerca de 55% praticam por estarem de barriga vazia ou desesperados. Os principais alvos dos saqueadores são as feiras livres (52,1%). Motivo: dificilmente tem policiamento. Depois, eles preferem os armazéns (16,3%) e mercados públicos (13%). Além de matar a fome, os saques são instrumentos de pressão. Segundo 19,9% dos trabalhadores, o que eles querem é forçar a criação de programas emergenciais. A idéia de 6% é protestar contra o descaso do governo e 2,8% pretendem provocar mudanças no poder público e sociedade. De acordo com Zanré, logo que é realizado um ataque às feiras ou depósitos, 29,1% dos municípios iniciam a distribuição de cestas básicas. Cerca de 4% criam vagas para conter a situação e outros 4% decretam estado de calamidade pública. Dessa maneira, o problema da fome é temporariamente resolvido, segundo 70,9% dos agricultores. OPORTUNISTA Somente os alimentos devem ser levados. É o que defendem 88,5% dos trabalhadores. Quem saqueia roupas e calçados (2,6%) é chamado de oportunista. Roubam para vender depois. Os atos são considerados violentos, segundo 62% dos agricultores. Apesar de pouco mais de 27,9% dos saqueadores carregarem, apenas, um saco vazio para colocar comida, eles dizem que as pessoas que participam estão dispostas a tudo. O saque é considerado injusto para 53,6% das pessoas. Segundo 56,7%, é roubo. Tira o que é do outro e à força. Em geral, são os próprios trabalhadores rurais que organizam os saques. Mais de 49% dos participantes são camponeses e 34% moradores da periferia. Os sindicatos rurais, federação de agricultores, igreja, organizações não governamentais (ONG's) e alguns políticos apóiam o movimento. Apesar de todas as críticas e defesas aos saques realizados, apenas 4% admitem o próprio envolvimento. No interior, vale tudo para matar a fome das famílias flageladas. Depois da perda da safra, o sertanejo não tem outra saída a não ser vender os animais que possui - quando possui. Ao acabar o dinheiro, o jeito é sair pela rua pedindo comida aos vizinhos, ou acampar na frente das prefeituras pedindo ajuda. A última alternativa, quando a ajuda do governo não vem, é justamente saquear feiras livres, mercados públicos ou depósito de alimentos das escolas. |
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