Recife, Domingo, 3 de Maio de 1998

Aventureiro do Jornalismo (entrevista com Francisco José)

Inácio França
Espeial para o DIÁRIO

Quem vê o repórter Francisco José concentrado, com cara de poucos amigos durante uma cobertura jornalística, não acredita que ele é considerado o funcionário mais bem humorado da Rede Globo Nordeste. Aos 53 anos e 31 de profissão, esse cearense do Crato que se tornou o mais consagrado repórter da TV nordestina adora passar horas conversando ou contando piadas para os motoristas e técnicos da emissora. A fama não subiu à cabeça de Chico, um homem caseiro, que dispensa a badalação dos lugares da moda e prefere curtir a mulher, a também jornalista Beatriz Castro, e a filha caçula Carla, de cinco anos. Francisco começou no Jornalismo em 1966, pouco antes da Copa da Inglaterra, a primeira que cobriu. Em seguida, foi editor de esportes e colunista do jornal. Seis anos depois, tentou fazer carreira numa agência de propaganda e como gerente de marketing de um banco. Ele revelou ao DIÁRIO como estreou na televisão meio por acaso. Por causa do forte sotaque nordestino e sua informalidade - contrário ao padrão global dequalidade -, ele tinha tudo para fazer uma carreira limitada como repórter esportivo, mas acabou vencendo os preconceitos.

DIÁRIO DE PERNAMBUCO - Como é que você deu os primeiros passos no Jornalismo?
Francisco José - Eu comecei num jornal popular da empresa do Jornal do Commércio chamado Diário da Noite, entrei para fazer esportes, mas logo depois esse jornal foi extinto e eu passei pro JC, pra fazer uma coluna que existe até hoje. Cheguei a dividir essa coluna com Givanildo Alves, depois com Lula Carlos. Depois que eu saí do JC, fui trabalhar numa agência de publicidade. Fiquei três anos lá e um dos clientes era o Banorte, então eu saí dessa agência e fui pro Banorte para trabalhar como gerente de marketing na área de captação de poupanças. Até que surgiu o convite da TV Globo, que ainda estava começando por aqui. Me convidaram para cobrir jogos de futebol...ah, e estava sendo criado também o Globo Esporte.

DIÁRIO - Até aí você não tinha nenhuma experiência em televisão?
Francisco José - Nenhuma. A minha primeira experiência foi chocante. No dia em que vim acertar se ficava ou não na Globo, o Wilson Emanoel, que era o diretor de programação... Bem, eu ainda nem sabia se ia ficar mesmo trabalhando lá, quando o Wilson me mandou pro estúdio para narrar um jogo de futebol. E pelo monitor! Lembro bem que o jogo foi um Santa Cruz x São Paulo... os dois times com camisas parecidas...eu nunca tinha feito aquilo na vida! Mas, como era tarde da noite, eu achava que não tinha ninguém assistindo, aí decidi enfrentar. Os jogadores do Santa eu consegui identificar porque eu acompanhava futebol, mas os outros... Pra piorar meu desespero, no meio da partida começou a cair um toró no estádio, ficou todo mundo melado de lama e eu não conseguia nem ver a bola. Deve ter sido um desastre!

DIÁRIO - E como é que, depois disso, você teve coragem de continuar a fazer TV?
Francisco José - Calma! Não acabou aí não: depois que acabou o jogo, me mandaram direto pro estúdio. Disseram: "Você vai chamar os gols da rodada". E eu fui lá,apresentar os gols dos outros estados. Lembro que tinha um gol de Rivelino pelo Fluminense...acho que o Fluminense tinha ido jogar em Minas Gerais. E eu no estúdio com os refletores em cima de mim, aquelas luzes todas... uma loucura! Aí entra um colega meu, que até hoje taí, mandando botar pó na minha cara: "Bota pó na cara dele que tá brilhando muito". Aí eu, com meu machismo nordestino, reagi dizendo "na minha cara não vai botar pó, p... nenhuma!" (risos) Foi um batismo louco.

DIÁRIO - E isso tudo aconteceu numa noite só?
Francisco José - Uma noite de horror! (risos). Quando acabei, fui procurar o cara que tinha me chamado, o Wilson Emanoel, e ele tinha ido embora (risos). No dia seguinte eu voltei para dizer a ele que não dava, falei que não dava para fazer aquilo, que eu tava fora. Ele respondeu assim: "Que nada! se não desse eu não tinha te chamado! Eu sei quando dá e quando não dá. Fica aí". Isso é que me estimulou a ficar.

DIÁRIO - E como é que a carreira de repórter de TV decolou de vez?
Francisco José - Eu estava fazendo uma coisa que sabia fazer, que era reportagem de esportes. Mas, já no segundo mês, eu ia pro estádio cobrir um treino do Náutico quando vi uma fumaceira danada. Daqui de cima do morro onde fica a Globo, dá pra ver Recife e Olinda inteirinhas, então vi aquela coluna de fumaça negra, incrível, lá pelo centro da cidade. "Aquilo deve ser um edifício pegando fogo", falei pros meus colegas da equipe. Então, a gente foi pra lá. Era na rua Corredor do Bispo: um incêndio num posto de gasolina e tinha um caminhão-tanque dentro do posto. Bem, essa matéria ficou muito forte porque mostrava o incêndio por dentro. Afinal, como chegamos primeiro do que os Bombeiros, entramos lá dentro. Eu saí puxando o cinegrafista pelo fio e, quando o Bombeiro chegou para cortar a mangueira do caminhão, eu perguntei pra ele "isso aqui vai explodir, tenente?". E ele respondeu, sem deixar de correr: "Vamos embora, vamos embora..." Isso entrou no Jornal Nacional e foi a primeira vez que o pessoal do Rio me viu.

DIÁRIO - E era uma matéria totalmente diferente daquilo que a Globo fazia, com a câmara em movimento?
Francisco José - Repercutiu muito exatamente por isso. Era completamente fora dos padrões da emissora. O repórter com a camisa quadriculada, quando só podia entrar no ar de paletó e gravata, e os meus cabelos eram bem grandes. No outro dia, a Alice Maria, que era diretora executiva, me chamou no Rio com o objetivo de me dar roupas mais adequadas, cortar o cabelo e ter uma aula com uma professora de dicção, uma fonoaudióloga excelente. Eles queriam tirar meu sotaque de pernambucano.

DIÁRIO - É verdade que durante a Copa da Argentina você teve uma briga séria com Armando Nogueira, na época diretor do jornalismo da emissora, por causa do seu sotaque?
Francisco José - É verdade sim. Na Copa de 78, é verdade. O Armando ameaçou me mandar de volta pro Recife, mas aí eu falei pra ele "Não seja por isso, tem um avião às 11 horas". Depois, ele se acalmou, me deixou ficar e reconheceu que não tinha nada que tentar mudar meu sotaque. Hoje, eles não implicam mais com sotaque, mas como na época eu era o primeiro repórter fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília, eles ficaram de marcação comigo. A própria professora de dicção me defendeu dizendo que não tinha de mudar, primeiro porque eu não queria e em segundo porque ela não tinha conseguido mudar nada. Ela passava horas dizendo na minha frente "Ôlinda", e eu repetia "Ólinda" (risos). Você acha que eu iria passar 40 dias na Argentina e voltaria falando carioca? No final, o próprio Armando admitiu que eu tinha vencido uma barreira e disse que já tava achando bonito meu modo de falar.

DIÁRIO - Depois da matéria do incêndio você se tornou um repórter especializado em coberturas arriscadas?
Francisco José - Eu entrei por acaso, pela janela e fui ficando. Teve uma seca forte, no final dos anos 70. Nessa seca, fiz muitas matérias pra rede, fui me tornando mais conhecido. Até que, no início da década de 80, os guerrilheiros do M-19 invadiram a embaixada da República Dominicana em Bogotá, na Colômbia, e prenderam 12 embaixadores, inclusive o do Brasil. Essa cobertura se tornou prioritária. Foi meu primeiro trabalho fora do Brasil.

DIÁRIO - Mas porque você foi escalado para essa cobertura? Eles queriam alguém que suportasse situações de tensão, de risco?
Francisco José - Até hoje não sei porque fui escolhido. No fim, a cobertura deu certo, acabou tudo bem. Só recebi um telefonema do Armando Nogueira, no qual ele me disse: "Apostei em você e ganhei. Parabéns". Isso abriu as portas definitivamente. A partir daí, tive participações em todas as coberturas nacionais. Fui pra Guerra das Malvinas, onde fui o repórter em posição mais avançada da emissora. O cinegrafista que trabalha há mais tempo comigo, o Eduardo Ricke, costuma dizer que há 22 anos eu estou tentando matá-lo e não consigo (risos).

DIÁRIO - Em alguma dessas coberturas de risco ou nessas matérias de aventura pro Globo Repórter, você chegou a correr algum risco de vida?
Francisco José - Olha, por incrível que pareça, os momentos mais arriscados aconteceram fora da matéria. Por exemplo: nós estávamos fazendo um Globo Repórter sobre o circo Orlando Orfei, que estava saindo do Brasil pela Amazônia, em direção à Venezuela. E o trecho entre Manaus e Boa Vista tinha de ser feito por rio, pois só tinha uma estrada de barro, com pontes precárias e na área dos índios uaimeri-tuairi, que não deixavam ninguém passar. O jeito foi ir pelo rio, numa viagem de quatro dias. Numa noite, a balsa imensa que levava 120 veículos foi levada pela correnteza para perto da margem, onde tinha uma árvore caída. Essa árvore bateu na carreta dos elefantes e provocou pânico no pessoal. Na correria, um funcionário do circo caiu no rio. Era um senhor, velho funcionário do circo, que não sabia nadar. Então eu pulei pro rio, puxei ele e tentei nadar contra a correnteza pro meio do rio, pra longe da floresta, pois quando os rios estão cheios a água entra floresta adentro. Se isso acontecesse seria o fim. Pensei que não ia mais voltar. E isso tudo segurando o cara, que pensei que tivesse já tivesse morrido. Até que me acharam.

DIÁRIO - E qual foi a grande matéria que você fez, aquela que você sente orgulho de ter feito?
Francisco José - Olha, eu citaria as mais recentes. Aquela em que eu subi o pico da Neblina, há seis meses. Afinal, eu alcancei o ponto mais alto do Brasil com 53 anos de idade, acho que se eu tivesse tentado com 22 anos, não teria conseguido por causa da juventude e da euforia. Nenhum outro jornalista de TV chegou lá. É uma subida muito difícil, tanto que outros repórteres da Globo haviam tentado, mas ninguém tinha conseguido. Eles chegavam perto e fechavam a matéria com a imagem onde apareciam apontando pro Pico: "É ali, é ali, o ponto mais alto" (risos). Eu botei na cabeça que tinha de chegar lá.

DIÁRIO - Você lembra de alguma matéria da qual se arrepende?
Francisco José - Arrepender mesmo, não, mas na cobertura da morte de PC Farias eu cometi um erro grave, bem desagradável. Eu disse ao vivo que a família Farias havia queimado as provas do crime. No diaseguinte, tive que entrevistar o irmão de PC, o Augusto Farias, e ele me disse que eu tinha errado, que eu havia colocado a opinião pública contra a família por causa de uma mentira. No outro dia, no mesmo horário, entrei ao vivo dizendo que havia conversado com o irmão de PC e ele me explicou que o colchão e as roupas ensaguentadas foram incineradas depois de terem sido devidamente liberadas pela Polícia Técnica.

DIÁRIO - O que aconteceu realmemte naquele caso do assalto ao Banco Econômico em que você foi levado como refém pelos bandidos?
Francisco José - Quando cheguei no local, atravessei a avenida Conselheiro Aguiar, os assaltantes me viram e passaram a gritar meu nome dizendo que queriam falar comigo. Então o delegado Djair me pediu para ir lá conversar com os bandidos. Eu disse que só iria se pudesse gravar matéria lá em cima, pois não iria servir de intermediário entre bandido e polícia. Só que na escadaria, na subida, os caras deram um tiro lá em cima dizendo que a gente subisse com a luz, levaríamos bala. O companheiro nosso escorregou e o material caiu, quebrando o VT. Eu continuei a subir pensando que o microfone ainda estivesse funcionando, eu queria garantir pelo menos o áudio. Lembro que eram seis bandidos e quatro reféns. Eles queriam levar o delegado, mas quando eu disse que não tinha jeito, o chefe dos bandidos engatilhou o revólver e ameaçou matar a mulher grávida. Aí eu tomei uma decisão e disse que ia no lugar dela. Os caras duvidaram e questionaram: "Tu vai no lugar dela, cara? Tu é famoso, se a polícia vier atrás tu é o primeiro a levar bala". Mas eu tava consciente que, se fosse, haveria menos chance de haver mortes. A partir daí, deixei de ser repórter. O que fiz é condenável se você analisar do ponto de vista jornalístico. Pois me tornei notícia. Mas se eu não tivesse tomado aquela iniciativa e qualquer uma daquelas pessoas tivesse morrido, eu teria sofrido muito. Minha consciência nunca me deixaria em paz. Suportei calado todas as críticas que recebi. Fui como cidadão, não como jornalista.


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