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| Recife, Domingo, 3 de Maio de 1998 |
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Bola quadrada Nelson Motta Ponta direita avança livre de marcação, cruza rasteiro, o atacante vem na corrida, enche o pé e... fura gloriosamente. A bola bate na sua perna de apoio e se desvia para a esquerda. Um homem de meio campo vem de trás e fulmina... o ar. A bola caprichosa também se choca com o seu joelho esquerdo, diante dos zagueiros adversários, tontos, e finalmente sobra para o ponta esquerda, que, meio de barriga e meio de canela, empurra a redonda para as redes do Los Angeles Galaxy. O Giants Stadium lotado explode. A torcida do New York Metrostars delira como numa final de Copa do Mundo. Em casa, diante da televisão, não sei se acho graça ou se choro, mas grito tanto que minha filha vem correndo para ver o que aconteceu. Afinal, não é um jogo da seleção brasileira e nem sequer do Fluminense. É apenas mais um gol do campeonato da Major League Soccer, que faz parte de minha patética dieta futebolística junto com o, perdão da palavra, campeonato mexicano. É triste gostar de futebol e morar nos Estados Unidos. Apesar de meus 300 canais de televisão no satélite, na prática me considero um "sem-bola" e vejo com assombro que a Major League Soccer já tem cinco canais exclusivos que transmitem os seus jogos para um público que dobra a cada mês. Por outro lado, a eficiência profissional dos cartolas me impressiona: o campeonato que eles armaram, com esses times, jogando desse jeito, faz muito mais público e muito mais dinheiro do que o campeonato brasileiro. É triste jogar futebol no Brasil e ter que aturar os cartolas nacionais, suas mutretas, seus cambalachos e suas politicagens. Claro, os "cartolas" americanos não são políticos, nem comerciantes nem patronos e beneméritos dos clubes: são administradores esportivos profissionais, da mesma categoria dos que fazem a NBA ser o que é. Quando o Brasil se prepara para mais uma Copa do Mundo e já está tomado pela febre do futebol, penso com melancolia nos dirigentes do nosso esporte profissional, que se parecem tanto com os políticos e administradores brasileiros na sua incompetência e no seu despreparo para uma verdadeira profissionalização do esporte. Imagino o que um campeonato brasileiro não poderia ser - em termos mundiais - caso tivesse uma pequena parcela da organização e da eficiência da Major League Soccer. Em pouco tempo, no mundo inteiro, ocuparia muito mais espaço nas televisões e geraria muito mais dinheiro e promoção do que a própria NBA. E certamente muito mais alegria e emoção. Mas como diziam os velhos locutores de rádio, não adianta chorar, a nega tá lá dentro, ou melhor: está fora. Falando em futebol, não riam, mas a seleção americana não vai fazer feio na França e agora que os primeiros negros começam a integrar os times, dentro em breve a coisa vai ficar preta: para os adversários. |
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