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| Recife, Domingo, 3 de Maio de 1998 |
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Dois homens altos Lúcia Guimarães "Madame, só uma advertência", disse o funcionário do Ticket Charge, depois de vender ingressos para The Judas kiss, que estreou esta semana. "Há nudez masculina na peça." A frase saiu num fio de voz, como se ele esperasse que eu fosse pedir meu dinheiro de volta. "Ainda bem", reagi, não resistindo à tentação de desarmar o sujeito do outro lado da linha. Há nudez feminina também, frontal e gratuita, logo na primeira cena, um momento de breve cunnilingulus. Tom Hollander deve ser o homem mais invejado pelas mulheres na Broadway. Ele beija Liam Neeson na boca nesta nova peça de David Hare. A ação se passa em dois momentos decisivos da vida de Oscar Wilde e do amante Lord Alfred Douglas, o Bosie. Foi num teatro da Broadway que Neeson eletrizou uma romaria de diretores, há seis anos, e pulou para o primeiro lugar da lista de Steven Spielberg entre os candidatos a Oskar Schindler. Como o marinheiro criado por Eugene O€Neill em "Anna Christie", Neeson era um compêndio de virilidade. O irlandês Oscar Wilde tinha um metro e noventa e quatro de altura e o irlandês Liam Neeson também. As semelhanças entre os dois parecem ficar por aí. Wilde era perspicaz, sardônico, promíscuo e não perdoava o sentimentalismo. Neeson é caloroso e sincero. A inteligência dele vem com a promessa de boas intenções. Ele não sugere perigo sexual como o escritor, poeta e dramaturgo destruído pelos julgamentos e a prisão. Bons atores, e Neeson merece o adjetivo, podem se transformar em qualquer pessoa? Como acreditar na paixão entre Oscar e Basie, quando o diminuto Tom Hollander mergulha o rosto na altura dos botões do colete de Neeson cada vez que eles se abraçam? A receita de "The Judas kiss" tinha tudo para se transformar numa dessas experiências que só o teatro proporciona. Um grande autor, David Hare, um diretor consagrado, Richard Eyre, e um ator cuja presença no palco desregula marcapassos. A peça chega de uma temporada curta em Londres, chamuscada por críticas negativas. Um Wilde chato e dois atores incompatíveis, foram os comentários mais comuns. Os nova-iorquinos devem estar mais dispostos a descobrir as qualidades nesta produção e elas existem. Liam Neeson, mesmo tentando amenizar a própria masculinidade, tem bons momentos, principalmente quando está indignado. Tom Hollander é divertido como a caricatura do nobre inglês. Oscar Wilde era inimigo do realismo e considerava a vida um obstáculo à arte. Mas a vida real de Wilde nos deixou muitos prazeres estéticos - no humor, na tragédia e na inteligência com que enfrentou a hipocrisia. No caso da peça de David Hare, a arte é que parece estar atrapalhando. |
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