Recife, Domingo, 3 de Maio de 1998

O sonho pós-sionista

Caio Blinder

Parabéns, Israel, pelos 50 anos de vida. Velinhas apagadas, é hora de iluminar o caminho com reflexões sobre os próximos 50 anos. No seu centenário, Israel terá a obrigação de estar celebrando a normalidade. Até agora, todos esperavam o excepcional deste naco de terra povoado em sua maioria por um bando de judeus idealistas e truculentos que não conseguem acertar as contas entre eles.

Israel precisa de normalidade. Os árabes devem aceitar de vez que o sonho sionista é uma realidade que veio para ficar e os sionistas precisam admitir que o pesadelo de serem varridos para o mar nunca será uma realidade. Israel sobreviveu e viverá, apesar de Saddam Hussein e de alguns terroristas fanáticos. Deve ser apenas mais um Estado, onde não se aguarda a chegada do Messias ou a construção de um paraíso socialista.

Não é fácil abandonar este caráter de excepcionalidade. O escritor israelense Amos Oz escreveu por estes dias que o excepcional é fruto de esperanças exageradas. Para uns, Israel deveria se comportar como umcompasso moral para a humanidade, um oásis no meio daquele deserto do Oriente Médio. Para outros, era a expectativa de um sistemático show de machismo - um resgate de Entebbe por semana. E como poderia ser diferente? Israel é um país com um Parlamento recheado de rabinos e generais.

Mas foram alguns generais como Yitzhak Rabin que deram passos importantes rumo à normalidade. Tiveram a coragem cívica de estender a mão para os palestinos. Rabin reconheceu que Israel não poderia depender de uma constante e heróica batalha para se autoafirmar. Só a normalidade traz segurança.

Não temos mais Rabin. Eu pessoalmente espero que um outro general trabalhista, Ehud Barak, um dia chegue ao poder, mas quem não tem cão às vezes caça com rato. E vamos por uns tempos de Netanyahu. Não ponho fé no homem. Acho que ele está aí para destruir as precárias bases da paz. O escritor Amos Oz entende mais do seu povo e tem uma visão mais otimista. Ele acha que no fundo a direita israelense sabe que virá a partilha do território eprecisará engolir um Estado palestino. A briga é mais pela delimitação das fronteiras.

Com os rabinos é mais complicado. Nem falo dos ensandecidos que saudaram o assassinato de Rabin, mas daqueles que insistem que uns são mais cidadãos do que os outros em função de sua religião. Rabinos, pelo amor de Deus, aceitem que Israel não pode existir como o Estado judaico, mas como um estado de maioria judaica. Já é lucro um país em que os judeus não são minoria. Um estado liberal, não teocrático e vivendo em paz com seus vizinhos será o melhor presente no centenário de Israel. Shalom.


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