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| (Atualizado no dia 29/4/1998) |
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Tomara que a lama não vire pedra Com investimentos, o Brasil pode participar da criação de softwares para atender à demanda internacional Silvio Lemos Meira O maior empecilho ao desenvolvimento brasileiro não é a baixa capacidade de investimento, mas a gigantesca deficiência de capital humano de qualidade internacional. O mercado de produtos de baixo custo e preço (e possivelmente de baixa qualidade) é suprido por nações onde a mão de obra custa muito menos que no Brasil e as alternativas de mercado, ou nichos de, internacionais em que teremos que negociar estão associadas ao conjunto de fatores conhecido como classe mundial. Já se falou disso aqui, mas vamos lá de novo: ser de classe mundial é dominar conceitos -os melhores e mais avançados conhecimentos e idéias, alicerçados por uma educação sólida; é ter competência -operar nos mais altos padrões mundiais e ter conexões, isto é, relacionamentos e ligações que levam ao acesso a pessoas e organizações no mundo inteiro. Os três Cs, aliados aos ativos locais, são capazes de gerar ecologias cosmopolitas de negócios baseadas em qualquer parte, habilitando boa parte da economia local a participar do cenário internacional. Uma economia moderna depende fundamentalmente de idéias e gente capaz de transformá-las em riqueza. Competência, capacidade e conexões são as três chaves do futuro. Isso vale ainda mais se estivermos pensando em áreas onde o conhecimento for o motor primeiro, essencial. Ainda mais, dados econômicos mostram que ecologias baseadas em conhecimento são menos suscetíveis às depressões econômicas e se recuperam mais rápido das mesmas, quando comparadas às economias clássicas. Software é exatamente uma das áreas movidas a conhecimento e totalmente globalizada. É inevitável pensar que, sem uma forte associação entre os sistemas de formação de capital humano, pesquisa e desenvolvimento e a indústria de software, a última será, possivelmente, uma economia de subsistência, onde empresas de base local estarão sempre resistindo a ataques externos e/ou se refugiando em nichos de mercado ainda inacessíveis à competição internacional. Há evidências cada vez mais fortes de que a percentagem de pesquisa e desenvolvimento(P&D) em software, em relação ao total que é gasto nestas atividades, em todo o mundo, está crescendo. Os dados disponíveis mostram um aumento considerável da componente de P&D como parte dos serviços associados ao desenvolvimento de software. Dados do Canadá, Holanda e Irlanda, em particular, mostram uma forte tendência de aumento, inclusive pela terceirização de esforços de P&D do setor de software para estes países. No caso brasileiro, por razões históricas, quase toda a pesquisa e desenvolvimento é realizada no setor acadêmico, nas instituições de Ensino Superior, Ciência e Tecnologia (ESCT). Aliadas naturais de programas como o SOFTEX (www.softex.br), o programa brasileiro para exportação de software, tais instituições sofrem de problemas estruturais e conjunturais muito graves. Uma das traduções de tal estado de coisas em números é a porcentagem da população em idade universitária (18 a 22 anos) efetivamente matriculada na universidade. Nas principais economias do mundo, os números cresceram nos últimos 10 anos. Para ser ter uma idéia, a taxa foi de 25% para 40% no Canadá e saiu de 14% para 25% na Espanha, entre 1985 e 1995. No Brasil, os números absolutos subiram de 1.3 para 1.6 milhão de matrículas no mesmo período. Não há dados oficiais para as matrículas nas engenharias e muito menos em informática ou computação. Infelizmente, os números apontam para uma retração percentual no número de matrículas: menos de 12% dos brasileiros em idade universitária freqüentam a universidade, contra 20% de chilenos e quase 40% de argentinos. Dados do MEC... e o governo cortando verbas do ensino superior... Por outro lado, a exportação de software de grandes fornecedores, como os Estados Unidos, para países como o Brasil, está aumentando como porcentagem do total de exportações, segundo dados da OECD (www.oecd.org). Entre 1990 e 1994, o Brasil importou, legalmente, 12 vezes mais software em volume de recursos, somente dos EUA. O número da OECD é 70 milhões de dólares, uma pequena fração do mercado brasileiro, estimadoem 1.2 bilhões de dólares em 1994. Deve ter muito mais coisa, só que não está sendo medida. Tal tendência, associada ao surgimento da Internet e a um processo negocial cada vez mais automático e rápido para software, combinado com o elevado componente tecnológico do produto, mostra que o desafio que o software brasileiro enfrenta, do ponto de vista tecnológico, é o da manutenção de uma base ESCT de classe mundial, sem o que não há chances para o produto nacional no mercado mundial. Dando alguma perspectiva aos dados, o IDC Research (www.idcresearch.com) estima os gastos com tecnologias da informação no país, em 97, em US$ 10,6 bilhões; a SEPIN fala em US$14.2 bi, em www.mct.gov.br/sepin. Segundo o IDC, o mercado será de US$ 16,7 bi no ano 2000 e US$ 19,2 bi em 2001. Para o IDC, o mercado de brasileiro de software, por volta do ano 2000, deve alcançar a marca dos US$ 2 bilhões, enquanto que os segmentos de serviços e de hardware triplicarão de tamanho. Em 1997, por exemplo, o faturamento da Microsoft, no Brasil, ultrapassou os US$ 100 milhões e, segundo a companhia, será de US$300 milhões em 1998. Os negócios de exportação de empresas brasileiras associadas ao SOFTEX quase dobraram entre 1994 e 1996, saltando de US$7.9 para US$14.3 milhão de dólares, considerado um universo de 797 empresas em vinte cidades. Segundo o SOFTEX, há razões suficientemente boas para esperar que este número tenha dobrado novamente entre 1996 e 1997. É possível que as exportações brasileiras totais, no setor, sejam até dez vezes maiores, mas não há dados para se confirmar tal especulação. Inovação e tecnologia são fundamentais para o sucesso do negócio de software e, ao contrário do que se costuma pensar, os problemas tecnológicos associados ao desenvolvimento de software de qualidade internacional não são plenamente dominados pela média e pequena empresa de software, que são justamente a base da economia brasileira e internacional do setor. Por outro lado, o momento é de alto risco, com um número de paradigmas mudando muito e rapidamente, criando grandes oportunidades e chances reais de inovação nas plataformas tecnológicas do setor de software. O Brasil pode participar da festa se, efetivamente, agir com rapidez e eficácia e tiver os insumos tecnológicos para criar software que atenda à demanda internacional. Isso depende, e não só em software, do setor de ESCT, para o qual, no fundo, não há projeto e nem recursos. Em todo o mundo, o grosso da conta de ESCT é pago pelo Estado. O Brasil pode até achar outro caminho mas, hoje, está gerando uma seca nas instituições públicas de ESCT e não tem nem projeto de irrigação para nenhum outro lugar. Aí, ao invés de exportar software, vamos exportar gente, como o sertão sempre fez. |
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