Recife, Domingo, 3 de Maio de 1998

Câmbio mudou três vezes

BC sinaliza que sistema brasileiro pode ficar parecido com o flutuante

BRASÍLIA - Desde o lançamento do Plano Real, o principal debate econômico é a necessidade ou não de mudança na política cambial. Mas pouco se observa que o governo já alterou três vezes a condução dessa política, embora sempre reafirme que não há nem haverá mudanças. Na última alteração, anunciada na quinta-feira, o Banco Central sinalizou que pretende, a longo prazo, tornar o sistema brasileiro mais parecido com um regime de câmbio flutuante, em que o mercado é o principal responsável pela fixação das cotações do dólar.

Curiosamente, foi esse o mecanismo utilizado nos primeiros meses do real, quando o BC deixou de intervir no mercado de dólar. Ao longo do tempo, a política cambial veio sendo alterada conforme as necessidades: - julho de 94 - no lançamento do real, o BC surpreendeu ao retirar-se do mercado de câmbio, garantindo apenas que US$ 1 não superaria R$ 1. Como o país atraía dólares e o BC deixou de comprar o excesso, as cotações, em vez de se manterem fixas, despencaram. Nessa época, o então diretor de Assuntos Internacionais do BC, Gustavo Franco, firmou-se como o principal defensor da política cambial. Diante das queixas dos exportadores, prejudicados pela valorização do real, Franco dizia que não fazia sentido falar em defasagem cambial. Franco, hoje presidente do BC, argumentava que, se o preço da banana caísse por causa de uma supersafra, ninguém falaria em "defasagem bananal".

QUEDA LIVRE

Setembro de 94 - apesar de a equipe econômica fazer a defesa teórica do regime de livre flutuação, o governo decidiu interromper a queda livre das cotações do dólar. O BC voltou a atuar no mercado e foi fixado um piso informal de R$ 0,83 e um teto de R$ 0,86 para o dólar. Nesse período se praticou um sistema de bandas -limites mínimo e máximo para as cotações-clássico (embora informal), no qual o BC só intervinha no mercado quando as cotações ameaçavam ultrapassar as barreiras determinadas.

Março de 95 - com a crise do México, que passou a sofrer ameaça de escassez de dólares em função de elevados déficits comerciais, o BC decidiu desvalorizar o real em relação ao dólar; As bandas cambiais foram oficializadas, mas na prática o BC não utilizou o sistema. Em vez disso, permitiu a variação das cotações do dólar em intervalos mínimos (inferiores a R$ 0,01) chamados minibandas, corrigidos semanalmente; Desde então, o real tem sido desvalorizado acima da variação da inflação por uma ação constante do BC.

A banda formal, ou banda larga, hoje entre R$ 1,12 e R$ 1,22, só funciona como uma sinalização de longo prazo ao mercado: a de que o dólar estará batendo no teto da banda no primeiro trimestre de 99.


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