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| Recife, Domingo, 3 de Maio de 1998 |
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Dengue: epidemia contamina indústria e comércio Valentina Pinheiro O economista Décio Cavalcanti, 33 anos, toma conta das finanças de uma empresa. Assim como o seu chefe, Décio foi picado pelo mosquito transmissor da dengue e, por ter caído de cama por uma semana, acumulou os processos de prestação de contas do setor e deixou de receber horas-extras. O caso de Décio - um dos 24.641 atingidos pela doença no Nordeste, ou um dos 82.084 do Brasil - revela a dor de cabeça que a indústria e o comércio começam a sofrer por causa dos efeitos da dengue. No rastro do crescimento da epidemia, o aumento do índice de faltas ao trabalho tem provocado queda na produtividade da indústria, redução no ritmo das obras da construção civil e o comércio, que não tem sentido maiores efeitos em função da queda nas vendas, já se preocupa com as faltas por causa do Dia das Mães. A indústria e o comércio têm apresentado, nos últimos meses, elevada taxa de absenteísmo. Na indústria, o índice de faltas ao trabalho triplicou em abril, de 0,6% para 2,2%. A conseqüência foi queda em torno de 4% da produção. Na construção civil, de 20 a 25% dos trabalhadores nos canteiros de obras já tiveram dengue, o que tem provocado a diminuição do ritmo das obras. Os lojistas também sofrem a picada do mosquito. Neste setor a preocupação se acentua com a proximidade do segundo melhor movimento do ano, o dia das mães. A Fiação e Tecelagem São José, em Jaboatão dos Guararapes, com 400 funcionários, tem sido vítima do absenteísmo, em torno de 2%. Para o empresário Oscar Rache, presidente da Fiepe e dono da indústria têxtil, o pagamento dos dias parados é dos danos menor. "A desorganização na produção é que, realmente, gera prejuízos", diz. E acredita que o pior ainda está por vir com a chegada das chuvas nos próximos meses. Na indústria de borracha Petroflex, no Cabo, de um total de 160 funcionários efetivos, 15 tiveram dengue de março a abril. Os lojistas, apesar de sofrerem com as faltas, dizem que não têm maiores perdas por causa do fraco movimento no comércio nos últimos meses. Na Fortunato Russo, uma média de doisfuncionários (de 140) pegam dengue por mês, desde de janeiro. Tendo no dia das mães seu segundo melhor período de vendas do ano, o setor de comércio preocupa-se com a perspectiva de um número elevado de doentes, sobretudo entre os vendedores, nesta semana. As pequenas empresas são muito atingidas. Ricardo Leimig, dono da Oficina de Pedras, uma fábrica de granitos no Recife, conta que dos seus oito funcionários, três já adoeceram nos dois últimos meses. Por se tratar de pessoas de baixa-renda, a tendência é uma recuperação mais lenta, de 8 a 10 dias. "Eles não têm substituto", diz Leimig. "Isso porque não há mais de um especialista por área, se ele não vem, pára tudo", acrescenta. Ele, mesmo tendo economizado com o pagamento de horas-extras, teve prejuízo por ter perdido contratos em função do prazo de entrega. CAMPANHAS Os empresários já tomaram a iniciativa de criar programas de informação e combate ao dengue. A Fiepe, através do SESI, está levando cartazes, panfletos e promovendo palestras nas empresas interessadas em estimular a prevenção nas empresas. Só de material de divulgação já foram investidos 300 mil reais. O Clube dos Diretores Lojistas também está se valendo da panfletagem, nas principais ruas do centro da cidade, para evitar o agravamento do problema. A construção civil enfrenta a epidemia fixando cartazes de orientação nas obras e eliminando os pontos de foco da dengue nos canteiros de obra. Na prática, a Ademi ( Associação das Empresas do Mercado Imobiliário) está orientando suas afiliadas a promoverem verificações períodicas nas obras. Segundo Armênio Ferreira, presidente da Ademi, num prazo de 30 dias, a maioria dos focos estarão eliminados. Algumas empresas agem por conta própria ou fazem parcerias com as secretarias de saúde. A Tintas Coral é uma delas. Em 97, a empresa teve 42 casos de dengue. Em março deste ano três funcionários contraíram a dengue, em abril já foram 14 os contaminados. Todos os casos aconteceram no parque industrial que possui 272 trabalhadores. A média de afastamento, segundo o médico da empresa, é de 5 dias. Além da distribuição de material informativo, a empresa vem promovendo reuniões por setores para explicar como se evita a proliferação do mosquito nas comunidades onde vivem os funcionários. O prejuízo da empresa com a epidemia vai além dos dias parados. A cada palestra a fábrica pará por uma hora. |
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