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| Recife, Domingo, 3 de Maio de 1998 |
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Olhos de ver OPINIÃO O Dia do Trabalho é lembrado, em todo o Ocidente, no 1º de maio. Menos nos Estados Unidos. Lá é comemorado na primeira segunda-feira de setembro. Mas foi em Chicago que, depois de uma tremenda pancadaria entre polícia e sindicalistas, surgiu a legenda do dia dedicado ao trabalhador. Aqui no Brasil, a data passou a ser oficialmente comemorada por Getúlio Vargas, dentro de sua política de exaltar os operários e tentar industrializar o país. No último 1º de maio, ao contrário da era Vargas e dos governos que se seguiram, não houve comemorações, discursos ou manifestações originárias do poder. O novo ministro do Trabalho, Edward Amadeo, cometeu um artigo que distribuiu aos jornais convidando as classes dirigentes, os sindicalistas, os patrões, os operários, professores, observadores para um debate sobre os caminhos do emprego. É um belo convite, que tenta colocar no terreno das idéias um problema que ocorre na vida do trabalhador. O fato é que o emprego está desaparecendo. A política de combate à inflação, produzida pelo governo, tem como ponto básico a competição entre empresas estrangeiras e nacionais. Ou seja, o Brasil abriu as portas à importação e as indústrias daqui têm que competir, em preço e qualidade, com as de fora. Na prática, as empresas estrangeiras, nos segmentos de tecnologia de ponta, estão simplesmente adquirindo as brasileiras. Elas chegam com capital e tecnologia e desempregam aos milhares. O problema não está na falta de novos empregos, mas na extinção dos atuais. Para combater este fenômeno assustador, provocado pela política econômica, o governo não tem remédios, nem dispõe de medidas eficazes a implementar. Por essa razão, o ministro do Trabalho convida as classes operários e os dirigentes patronais para um debate. O desemprego, na ótica oficial, passa a constituir um dado acadêmico, não mais uma realidade da vida. Algumas empresas estão se mudando para regiões menos desenvolvidas do país, com o objetivo de reduzir seus custos e enfrentar a concorrência. Esta é a oportunidade de regiões, comoo Nordeste, obterem um ganho significativo em relação ao sul desenvolvido. Atrair empresas para pagar menos impostos e um salário médio mais baixo do que é pago em outras regiões. É uma política semelhante à que ocorre no norte do México, fronteira com os Estados Unidos. Fábricas norte-americanas atravessaram a linha divisória entre os países, para se beneficiar da mão-de-obra mais barata. O Recife tem mostrado ao país índices alarmantes de desemprego. É a maior taxa do Brasil. Os governantes, daqui e de Brasília, além da reflexão proporcionada pelos debates promovidos pelo ministro, precisam perceber que a região está se transformando num barril de pólvora. A mistura de desemprego, seca fortíssima e elevados índices de violência urbana costumam resultar em graves problemas políticas. Só aqueles acometidos por obtusidade córnea não enxergam este cenário. Liberdade de imprensa Hoje se comemora o dia mundial da liberdade de imprensa. Liberdade de imprensa significa liberdade de expressão. Expressão nas suas diversas acepções. Como certificação do homem, enquanto pessoa titular de direitos e enquanto ser capaz de agir. O homem no sentido aristotélico, homem político, relacionado e sujeito. E liberdade de expressão como formadora de cultura, enquanto construção coletiva, no plano da sociedade que organiza e produz, que sedimenta e distingue o fazer, na paisagem azul da liberdade. Recente conferência da Unesco anotou uma afirmativa que é um lema: "Sem liberdade não há cultura". Sim, porque a cultura, enquanto realização humana, só se concretiza em sua plenitude se for apoiada na liberdade, no livre arbítrio. Neste sentido, a cultura confirma a liberdade. E a liberdade liberta a cultura. Alguém poderia querer associar a liberdade, no domínio produtivo, a uma noção econômica: liberdade econômica, para acentuar a existência do sistema de mercado. Sobretudo depois que o socialismo real, deque resultaria a economia planificada, foi revogado pelos fatos. Poderia talvez querer relacionar a liberdade, no território político, a uma noção social: liberdade política, para destacar o reconhecimento crescente da democracia. Mercado e democracia, democracia e mercado, dois valores sociais que chegam a este final de milênio como manifestações da maturidade de nossa civilização. Mas o conceito que se quer aqui firmar, a noção que se quer aqui consagrar, o valor que se deve hoje projetar é a liberdade sem adjetivação, é a liberdade sem qualificativos. É a liberdade substantiva, orgânica, essencial. Liberdade liberdade. Na América Latina, a liberdade de expressão vem gradualmente se afirmando como ideal e como convicção, como determinação legal e como prática. Apesar da exceção cubana. E de uma certa penumbra paraguaia. A recente decisão do Mercosul de introduzir uma cláusula democrática no conjunto de seus compromissos pode ser vista como significativo avanço. Avanço que reflete importante consenso entre as nações que o constituem. Será tanto mais importante ressaltar a liberdade de expressão, como tal, quanto se recorde que atualmente em 64 países ela existe, em 61 países ela existe parcialmente e em 63 países ela não existe. É dado recolhido pela Associação Mundial de Jornais. Um dia, um cineasta europeu quis que a liberdade fosse azul, que a igualdade fosse branca e que a fraternidade fosse vermelha. Talvez por isto o astronauta tenha dito, girando em torno do globo terrestre: a Terra é azul. |
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