Recife, Domingo, 3 de Maio de 1998

Vinte anos da greve do ABC

No dia 12 de maio de 1978, os trabalhadores da Scania cruzavam os braços e iniciavam uma paralisação histórica

Laércio Portela
Da equipe do Diário

Depois de vários anos de hibernação, os trabalhadores brasileiros acordaram espantados com a sua própria ousadia. Era 12 de maio de 1978 e centenas de metalúrgicos da cidade de São Bernardo do Campo haviam decidido mudar a rotina. Eles acordaram às 4h, alguns mais cedo ainda, e se dirigiram para a fábrica da Scania, como faziam todos os dias. Naquela manhã, no entanto, a massa de homens parou ao lado das máquinas desligadas e cruzou os braços. Tinha início naquele momento a mais importante greve de trabalhadores do país desde o golpe militar de 1964, que entraria para a história pela ousadia e o pioneirismo.

À frente do grupo estava um homem baixinho e barbudo, que falava grosso e lembrava a todo o instante aos companheiros que a mobilização e a unidade eram as suas maiores armas. Luís Inácio Lula da Silva não era o político veterano de hoje, mas já possuía o discurso bem articulado dos líderes. Torneiro mecânico, ele tinha uma bagagem de seis anos no movimento sindical quando tomou para si a responsabilidade de liderar a greve dos metalúrgicos.

A estréia de Lula no sindicato aconteceu em 1972. Foi a época em que ele assumiu o cargo de diretor do Departamento de Previdência Social. Em 1975, já era o presidente - reeleito em 1978. Era preciso ter peito para comandar aquela greve. Na verdade, a mobilização ultrapassava as reivindicações por melhores salários (reajuste de 34,1%). Estando sob a égide do general-presidente Ernesto Geisel, o movimento ganhava contornos políticos de contestação à ordem estabelecida e reforçava a exigência das esquerdas por abertura política no país.

DOMINÓ POLÍTICO

A mobilização dos trabalhadores da Scania funcionou como uma cadeia de dominó e incentivou uma série de trabalhadores de outras empresas da região a cruzar os braços. O ensaio geral tinha acontecido no dia 10 de maio com paralisação parcial nas fábricas da Ford e da Mercedes Benz. O governo militar acompanhou de perto as greves, em 1978, mas preferiu não usar a força, receoso de desgastar ainda mais a sua imagem dianteda opinião pública. Opinião pública que, de um modo ou de outro, apoiava a ação dos sindicatos.

O acompanhamento militar era feito no estilo tradicional: em meio aos trabalhadores circulavam os agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e da Polícia Federal. "Os agentes do Dops chegavam às 5h da manhã na porta das fábricas para tentar convencer o pessoal dos piquetes - que nós chamávamos de corrente pra frente - a saírem dali. Os trabalhadores, quase todos muito jovens, respondiam: "Aqui ninguém tem medo do drops não, a gente não vai sair", relembra, nostálgico, Lula.

FIM DO LEGALISMO

A greve colocava fim à linha legalista que o sindicalismo brasileiro tinha optado por seguir desde o início da ditadura. As campanhas salariais de então não contavam com a participação efetiva dos trabalhadores. Os sindicatos delegavam a advogados as negociações com os empresários e tinha-se o costume de apenas homologar os índices decretados pelo governo. Daí o medo da repressão. Afinal, era proibido fazer greve. Tanto assim que os líderes do movimento preferiam usar a palavra paralisação, como uma forma de fugir do alcance da lei.

"Eu tive medo, mas tava lá duro e firme, no pé da máquina, com os braços cruzados", recorda Sérgio Piveta, um dos grevistas anônimos da Scania de 1978, hoje aposentado. "Não tive medo de ser demitido. Tiver medo de ser preso. Naquela época a gente tinha medo até de pensar em agitação. Para nós, havia sempre a impressão de que alguém, entre nós, poderia ser do Dops", testemunhou Piveta para a revista Teoria e Debate, da Fundação Perseu Abramo, em edição comemorativa aos vinte anos do movimento.

A mobilização da Scania acabou em vitória e os trabalhadores conseguiram fechar um acordo de reposição das perdas salariais com os empresários. Salários que, diga-se de passagem, sempre perdiam a guerra contra a inflação - vilã daquela e de tantas outras épocas. No ano seguinte, os trabalhadores voltaram às ruas, mas desta vez a polícia e o Exército não ficaram só olhando como em 1978. Maisescolado, o esquema de repressão agiu com rapidez. Cercou as fábricas e fechou a sede do sindicato, que passou a atuar na clandestinidade.

Os metalúrgicos também estavam mais fortes e organizados em 1979. À zero hora do dia 13 de abril eles decretavam uma greve geral. Era a primeira manifestação de massa dos operários, pós-64, na forma de greve nas ruas, fora das fábricas: com piquetes e assembléias gerais. A maior vitória aconteceu na porta da fábrica da Volks - a maior da região. Às 5h da manhã, 10 mil trabalhadores chegavam aos portões e começavam a entrar. Os líderes do movimento foram ao local, fizeram um cordão de isolamento e depois de muita conversa conseguiram a adesão dos companheiros. O movimento estava consolidado.

MULHERES NAS RUAS

Em abril de 1980, os trabalhadores do ABC começavam um novo movimento grevista. Foram 41 dias parados. Não houve ganhos salariais, mas a lição havia sido aprendida. Mesmo com os principais líderes presos, entre eles Lula, a greve foi a mais bem organizada daquelestrês anos e teve seu ápice numa passeata comandada no dia 1º de maio pelas mulheres dos metalúrgicos. Elas exigiam a liberdade para seus maridos e conseguiram agregar mais de 100 mil pessoas pelas ruas de São Bernardo do Campo.

Aqueles anos de contestação deixaram muitos filhos. Primeiro contribuíram para a melhor organização dos sindicatos. Houve a criação do Fundo de Greve e os jornais ligados aos trabalhadores passaram a ter um papel fundamental na disseminação das idéias da categoria. Nasceu também, em 1981, a primeira comissão de fábrica, na Ford. A comissão serviu como canal, criado pelos metalúrgicos, de interlocução com os patrões. Hoje, são 35 ao todo na região do ABC. O primogênito das greves de 1978, no entanto, é o Partido dos Trabalhadores, fundado pelos metalúrgicos em 1979 para ser o porta-voz não só da classe operária mas de todos os trabalhadores. Em 1983, outro filho ganhava vida: a Central Única dos Trabalhadores (CUT), que representa, 15 anos depois, mais de 15 milhões de pessoas.


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