Recife, Sexta-Feira, 1 de Maio de 1998

O atentado que abalou o país

Há 17 anos, os militares linha-dura jogavam, com a bomba do Riocentro, sua última cartada contra a abertura

Sérgio Augusto
Da equipe do Diário

O primeiro de maio deixou de ser uma data que lembre apenas a festa do Dia do Trabalho em Pernambuco e no Brasil. Este dia também lembra atentados, ameaças, mortes e o suspiro final do regime ditatorial imposto à nação. Hoje faz 17 anos que o país foi sacudido pela explosão do Riocentro, um atentado tramado pela extrema direita para ensanguentar a festa da juventude alusiva à data e interromper o processo de abertura política. Estávamos em l981 e a linha dura já tinha provocado dezenas de atentados, causando mortes, o que fez o então general-presidente João Batista Figueiredo desabafar: "Eu prendo e arrebento quem for contra a abertura".

O clima político era tenso e, pela primeira vez depois do golpe de 1964, a oposição levou seu apoio político ao presidente da República. O objetivo era garantir o processo de redemocratização. O atentado do Riocentro, percebe-se hoje, foi um divisor de águas na história recente da política brasileira, fazendo naufragar o projeto da ultra-direita e consolidando de vez a caminhada para a retomada do poder civil. O golpe de l964 morreu alí.

Era uma quinta-feira do dia 30 de abril à noite, já quase na madrugada do 1º de maio quando milhares de pessoas participavam do show no amplo espaço do Riocentro. Perto das 23h, quando o cantor pernambucano Alceu Valença começava a interpretar sua música Coração Bobo, a platéia, de repente, vira-se de costas para o palco. Todos tinham ouvido uma explosão vinda da direção da entrada, e se voltaram para ver o que tinha acontecido. Fora a explosão de uma bomba.

A BOMBA

No estacionamento, um carro Puma de chapa fria, com dois homens, não parecia diferente de centenas de outros veículos. Estava ocupado pelo sargento Guilherme Pereira do Rosário e pelo capitão Wilson Luiz Chaves Machado. Ambos subordinados ao comandante do I Exército, general Gentiul Marcondes Filho e ligados ao DOI-CODI, departamento do Exército destinado a sequestrar, prender e torturar adversários políticos.

Aparentemente, quando se preparavam para lançar bombas (pelo menos duas) contra a multidão, uma delas explode com os militares ainda dentro do Puma. O sargento, que estava com a bomba no colo, morreu na hora, dilacerado, e o capitão saiu ferido, sendo levado para o Hospital Miguel Couto. Seguranças e policiais informaram que, dez minutos depois, uma bomba de pequena potência explodiu na caixa de força e luz do Riocentro. O show prosseguiu e muita gente ficou sem saber o que tinha acontecido. Para o dia daquele show, fora trocado o pessoal da administração do Riocentro sem que se soubesse o motivo.

IMPERÍCIA POLICIAL

A perícia policial demorou a chegar ao local e, estranhamente, não recolheu objetos como um rolo de fita adesiva usado, uma fita cassete e, segundo testemunhas, pelo menos mais outra bomba que não explodiu e foi desativada. No dia seguinte pela manhã, o Puma vistoriado desapareceu do local onde fora abandonado, em frente à 16ªDP da Barra da Tijuca.

Redações de jornais cariocas receberam telefonemas anônimos. Uma voz informava que um tal Comando Deltaresponsabilizava-se pelos atentados que ocorriam naqueles dias. Foram incendiadas bancas que vendiam revistas e jornais de esquerda, uma bomba explodiu na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, houve outra contra a ABI e contra a OAB entre outros atos de terror. Na época, contou-se cerca de trinta atentados. Entretanto, o caso do Riocentro foi a gota d' água.

Na manhã do dia 1º de maio,uma nota oficial do I Exército expressava o espírito de corpo da instituição e, por aí, o confronto dentro do regime militar ao falar em " inominável atentado que vitimou subordinados", negar que houvesse outra bomba no Puma e informar que " os militares em apreço agiam no estrito cumprimento de missões de rotina determinadas pelo I Exército para reprimir, se necessário, ações de agitadores e subversivos". E repelia informações dando conta de que se tratava de uma incursão terrorista o que acontecera.


Inquérito não dá em nada
Imprensa é alvo preferencial do terror
Alceu e o passe de mágica

Fale conosco diario@dpnet.com.br

MAPA BRASIL ECONOMIA ESPORTES HISTÓRIA HUMOR
INFORMÁTICA INTERIOR MUNDO VEÍCULOS VIAGEM VIDA URBANA VIVER