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| Recife, Terça-Feira, 28 de Abril de 1998 |
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A arte zen de Mestre Galdino Morto há um ano, o ex-pedreiro, artesão e poeta de Caruaru começa agora a ganhar fama Michelle de Assumpção Do barro veio a luz e dela a iluminação tão almejada para criar peças à semelhança de ninguém. Pois foi esse o pedido que o artesão do barro e poeta Manoel Galdino de Freitas fez a Deus, no começo dos anos setenta, quando largou de vez o serviço na Prefeitura de Caruaru - era pedreiro no Alto do Moura - para se dedicar à criação de esculturas em barro e à poesia. No próximo mês, quando completar um ano que o coração do mestre parou de funcionar, sua peça mais famosa, o Mané Pãozeiro, será anônima até mesmo para os moradores de Caruaru. Ninguém saberá que ela foi feita na frente de estudantes paulistas, numa das passagens de Galdino por São Paulo, seguida por uma poesia, intitulada Se Cria Assim. Através dela, Galdino conta o processo de criação da forma mais ingênua e sabida que se possa imaginar, e cria um hábito: o de fazer alguns versos para cada uma das peças que modelar, dali em diante. Galdino deixou seus ensinamentos para o filho Antônio, momentos antes de morrer, mas está difícil continuar a história do pai. Com algumas peças (muitas delas ninguém sabe onde foram parar) num museu da rua Mestre Vitalino, o legado de Galdino há de ser o mesmo do outro mestre famoso. O artesão fazia serviço de pedreiro no Posto de Saúde do bairro, numa casa vizinha a de onde hoje funciona o museu com suas obras. Pediu uma porção de barro a um compadre, dono de uma cerâmica, e começou, na surdina, a esculpir figuras. Queimava as peças e as guardava. Um dia o compadre foi ver os trabalhos. Admirou-se e fez a proposta. Galdino aceitou trabalhar para ele pelos mesmos trocados que ganhava na prefeitura. Vendeu sua casa na cidade, comprou a de número 232 da Rua Mestre Vitalino e, tempos depois, já era um artista independente. Escreveu sobre isso também. "Sou um ceramista destemido/ há trinta anos no Alto do Moura/ cheguei perdido/ vim parar a nessa barraca/ eu ainda desconhecido". Mas nem tanto. Antes de morrer, teve o prazer de mostrar suas peças em São Paulo, Goiana, Brasília, Chile, França, Bélgica e Itália. Nada, porém, que compense hoje o fato da administradora do museu ter de ficar informando aos turistas que ali estão peças valiosas - algumas que chegam a custar até R$ 2 mil-, pois não há sequer uma placa indicando o lugar onde cerca de 20 esculturas em barro contam a história de um artista iluminado por Deus. "Queria tomar conta do museu, pois a pessoa que está lá não sabe contar aos turistas a história de Galdino", reclama Antônio Galdino. Ele vai buscar os escritos do pai e encontra, entre poesias e anotações, um cartão de vice-presidente da República, Marco Maciel. "Ele pensa que Galdino ainda está vivo", comenta. Vai lendo as coisas do pai, muitas já sabe decorado. Na sala da casa, em meio a peças suas e do velho, é onde tenta, a muito custo, continuar o trabalho. "Ele dizia que às vezes eu fazia peças boas. Tô dando continuidade, mas não dá para manter. Depois que ele morreu as coisas mudaram", conta o filho. Na esperança de ter um livro editado com os trabalhos do pai - obra prometida pelo secretário de Cultura de Pernambuco, Ariano Suassuna-, Antônio vai tentando vender as peças para ajudar a família de Galdino, no Alto do Moura. "As pessoas ainda reclamam do preço, mas as peças de meu pai são únicas e eu tenho que dar valor", explica. Galdino era um sonhador. Seus amigos de Caruaru sabiam disso. E as peças que criava davam o tom lúdico e fantasioso de suas idéias. O próprio Mané Pãozeiro, que traz uma mão levantada para o céu e outra na barriga, é explicado pelo artista como um homem que pede iluminação a Deus para criar. Galdino também gostava de se retratar em outras situações, como nas peças Galdino, o Herói Poeta e Galdino, Meu Mundo é Incrível. Com Mané Galdino, repetiu-se a história de Vitalino. Será que teremos, em breve, mais uma rua famosa no Alto do Moura? |
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