Recife, Terça-Feira, 28 de Abril de 1998

O desvão da esquerda

PANORAMA POLÍTICO
Tereza Cruvinel

A decisão do PT do Rio atropelou a aliança nacional PT-PDT, mas nestas primeiras horas nem Brizola anunciará o rompimento, nem Lula desistirá da candidatura ferida. Deve voltar ao cenário o debate sobre a aliança de centro-esquerda, mas já não há mais nomes disponíveis para isso, exceto Ciro Gomes, que as esquerdas não admitem apoiar. Fora disso, é o estilhaço, com o lançamento da candidatura do próprio Brizola.

Em todas as entrevistas que deu ontem, o ex-governador negou ou desconversou quando perguntado sobre a hipótese de vir a disputar. Mas antes da decisão do PT do Rio já existia um movimento de pedetistas contra a aliança, insistindo na candidatura dele. Com a opção pela candidatura própria no Rio, a idéia percorreu guetos pedetistas com uma chama de revanche.

Dizendo ter ouvido até alguns fogos na madrugada, e atribuindo-os a adversários felizes com um resultado que implode a união das esquerdas, Brizola insistia na unidade mas cutucava: "quem toma uma decisão que agrada à direita acaba sendo de direita". Outra aspecto que recordou com razão foi o "vacilo" da direção nacional do PT, que sempre o tranqüilizou, dizendo que os defensores do apoio Anthony Garotinho, do PT, venceriam a convenção petista. Ora, desde o início da semana passada, já se falava, até aqui em Brasília, sobre o crescimento do apoio a Wladimir Palmeira entre as bases petistas. Só a direção nacional parecia tranqüila.

É verdade que Brizola, como diziam os petistas de esquerda, andava um pouco descrente da candidatura Lula. Preocupava-o muito o fato de ele estar chapinhando nas pesquisas enquanto Enéas crescia no vácuo dos pontos perdidos por Fernando Henrique. Entre dezembro pasado e abril, segundo o Vox Populi, FH perdeu quatro pontos, Lula outros quatro, Ciro cresceu um e Enéas três. Isso explica que Brizola estivesse, como diziam os petistas usando suas próprias palavras, "costeando o alambrado". Mas em matéria eleitoral, ele sabe que se está ruim com Lula, pior ficará com os dois em palanques opostos (mesmo que apenas para aprumar o PDT). Aí sim, os governistas soltarão muitos fogos. O outro candidato que o PT poderia lançar é Tarso Genro, e este Brizola não apóia.

Voltando à conversa da união de centro-esquerda, Itamar Franco já foi descartado e Sepúlveda Pertence já perdeu o prazo de se filiar. Resta Ciro Gomes, mas este as esquerdas não admitem apoiar.

Pressão sobre Tasso

É grande a pressão para que o governador do Ceará, Tasso Jereissati, desista de disputar a reeleição para coordenar a campanha de Fernando Henrique. Um de seus amigos, porém, recordava ontem os cálculos eleitorais que Sérgio Motta fez pouco antes de ir para Denver. Dos cinco governadores do PSDB, apenas Tasso e Eduardo Azeredo, de Minas, têm hoje condições seguras de reeleição. Desistir seria bom para FH, não para o PSDB.

Ciro olha e espera

Ciro Gomes, aparentemente o mais beneficiado pelo impasse entre PT e PDT, dizia ontem que não se oferecerá de novo como candidato único de centro-esquerda nem agirá como ave de rapina sobre este revés dos concorrentes. Ciro parece não ter ilusões quanto ao apoio do PT e do PDT, embora Brizola venha conversando, por telefone, com o professor Mangabeira Unger, que funciona como canal entre os dois. Mas o PSB de Miguel Arraes, já reticente em apoiar Lula, ainda pode decidir-se a apoiar Ciro. "Respeitarei os problemas deles, tocando minha campanha. Não agirei como abutre. A unidade de centro-esquerda é importante não para mim, mas para o país. Ainda há tempo", diz Ciro. Mas ele acha que sai favorecido não apenas pela reabertura deste debate: "O eleitorado acabará percebendo que minha candidatura é a única que está militando e caminhando. A passos curtos, mas segura".

Roteiro

Luís Eduardo Magalhães tinha uma estratégia para a votação da reforma previdenciária. Se as oposições conseguissem, com a ajuda de dissidentes governistas, derrubar o redutor salarial do servidores aposentados, ele derrubaria todo o artigo que trata do assunto. Mais tarde o governo voltaria ao assunto através de projeto de lei, que exige maioria simples. Os líderes governistas manterão a mesma tática, se chegar a haver votação.

O deputado Paes de Andrade garantiu na Justiça, ontem, o direito de presidir a convençao do PMDB em junho. Mas quem tem conversado com o ex-presidente Itamar Franco diz que ele até já perdeu o estímulo por uma nova briga.

Longe vai o tempo de debates políticos exaltados nos clubes militares. Hoje, às 16hs, o Clube Naval (no Rio) debate a criação do ministério da Defesa. O vice-almirante Armando do Amorim fala a favor; o vice-almirante Sérgio Tasso Vasques, contra.

Enfarto fulminante matou também, no sábado, o diretor do Prodasen-Senado, Henrique Canale. Como Luís Eduardo, faria 43 anos. Era filho do ex-senador Mendes Canale.

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João Alberto
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