Recife, Terça-Feira, 21 de Abril de 1998

Violência escolar - Temos o dever de acabar

*Carlos Augusto Costa

Os jornais têm noticiado a violência nas escolas. Várias discussões têm sido travadas sobre em que contexto essa violência se dá. Será que é fruto do ambiente externo que paulatinamente vem se degradando e que, associado com a impunidade e a falta de uma política social eficiente, tem trazido para os bancos escolares as cenas antes somente vistas em seriados de TV?

A violência que se vê nas escolas, com certeza, tem um componente muito forte que pode ser associado à realidade externa, e de difícil solução. Porém outras causas estão bem próximas de nós e podem, ser bem trabalhadas, dar frutos rapidamente.

Nos anos 80, quando ainda cursava a faculdade, na Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, localizada em uma ilha cercada por um cinturão de pobreza, detectou-se que o índice de depredação aos laboratórios e salas de aulas estava crescendo assustadoramente. Era comum desaparecerem ar-condicionados, equipamentos de precisão; portas eram arrombadas e a violência física estava se intensificando. Eu, que vivia dentro do campus, sentia na pele aquela realidade.

A Universidade detectou algumas causas. Dentre tantas, a que considerei mais significativa, e que hoje se mostra atual, era a total desconexão entre a Universidade e a comunidade que a circundava. As pessoas que moravam em volta não tinham identificação com a Universidade. Elas não sabiam para que e a quem servia a Universidade.

Foi deflagrado, na época, um programa em que a Universidade se abria para as populações que estavam em sua volta. Instalaram-se, dentro das comunidades, postos de assistência médica, jurídica e educacional, entre outros. Mostrou-se na prática que a Universidade poderia servir à comunidade. A Universidade foi aos poucos se tornando íntima e, o mais importante, útil para aquela população.

Como resultado, o que era óbvio, o índice de violência e de depredação foi reduzido drasticamente e a comunidade que antes era hostil passou a formar um cordão de proteção para a Universidade.

Em conversa com o jornalista Gilberto Dimenstein, visando convidá-lo a participar do Recidade , evento promovido pelo Movimento Cidade Cidadão, ele me contava de suas experiências enquanto acadêmico visitante da Universidade de Colômbia, nos EUA

Um dia, ele foi chamado para ir à rua 136, no Harlen, região de Nova Iorque povoada por gangues, traficantes de drogas e desempregados, para assistir a uma apresentação da Divina Comédia, de Dante Alighieri, feita por adolescentes.

O cenário, como ele mesmo descreve, não era dos melhores: adolescentes desfilando com rádios enormes ouvindo rap em alto volume, bonés ao avasso, falando um inglês incompreensível, lixo nas esquinas, prédios abandonados, muros grafitados. Porém o inusitado aconteceu e ele, emocionado, diz "redescobri o encanto do poeta italiano". E experimentei uma das cenas mais marcantes dos 20 anos em que tenho trabalhado com transmissão de informação".

A escola soube trabalhar o que tinha de comum entre aqueles jovens pobres e o poeta italiano. Dante também era rebelde e incompreendido. "Fizemos com que cada um deles se sentisse um pouco Dante", explica Jennifer Hogan, coordenadora do projeto na escola.

Pelos exemplos citados, a falta de uma proposta pedagógica que contemple a realidade local, a falta de sintonia entre o que acontece dentro e fora da escola leva necessariamente a um distanciamento entre os estudantes, a comunidade e a escola, e consequentemente a um aumento no nível de agressão ao patrimônio e às pessoas.

Quando se tenta fazer algo, logo vem à mente a falta de dinheiro. Porém os dados do Ministério da Educação, depõem em sentido contrário. Em 1995, foram investidos cerca de 43 bilhões de reais. Esse montante representa quase 6% do PIB(Produto Interno Bruto), e nos coloca em patamar próximo dos países desenvolvidos.

Não é nada fácil mudar uma realidade como a que estamos vivendo, porém exemplos de sucesso estão bem próximos de nós. Não podemos de forma alguma desanimar. Temos que buscar forças onde quer que elas existam e, acima de tudo, sermos criativos. O trabalho é árduo, exige dedicação, perseverança e persistência. Temos a responsabilidade e o dever, juntamente com o poder público, de não desanimar, sob pena de comprometermos o futuro das próximas gerações.

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