Recife, Terça-Feira, 21 de Abril de 1998

Motorista mata dois passageiros

Rapazes foram confundidos com marginais e foram baleados dentro do ônibus que fazia a linha Rio Doce

A falta de segurança e a violência já virou rotina dentro dos coletivos que circulam na região metropolitana do Recife. Somente em janeiro e fevereiro desse ano, a Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU) registrou 375 assaltos. Anteontem por volta das 21h, o pânico levou um motorista da empresa Rodotur, de identidade ignorada, a matar os passageiros João Paulo da Silva, 16 anos, conhecido como Dão, e Alessandro Manoel da Silva, 19 anos, mais chamado de Sandro, que foram confundidos por marginais. Segundo testemunhas, os dois usuários discutiram com o cobrador e nem chegaram a passar pela catraca, sendo atingidos antes pelos disparos. Depois de balear os rapazes, o motorista abandonou o veículo na feira de Rio Doce e fugiu do local como se nada tivesse acontecido.

Ontem, no necrotério do Hospital da Restauração (HR), o irmão do menor João Paulo, o publicitário, André Luiz de Araújo, 33 anos, estava indignado com o crime. "É um absurdo um motorista de ônibus andar armado e matar um cidadão apenaspor uma questão de suspeita", reclamou. O publicitário garantiu que o irmão foi vítima de uma injustiça. "Ele não era ladrão. Antes de morrer Dão falou para uma amiga que o motorista atirou neles por engano", contou.

Segundo o publicitário, o irmão saiu de casa por volta das 9h. "Ele disse que ia para casa de uma tia nossa. Ficamos preocupados porque até às 17h ele não tinha voltado", ressaltou. André Luiz informou que ficou sabendo da notícia através de amigos. "Meu irmão e Sandro foram socorridos por pessoas que presenciaram o homicídio e chamaram uma ambulância da prefeitura", explicou.

André Luiz comentou que os dois rapazes deram entrada na emergência do Hospital da Restauração, como assaltantes de ônibus. "Não posso dizer que houve negligência no atendimento deles, mas com certeza, os marginais não têm o mesmo tratamento que um cidadão honesto", disse revoltado. O publicitário adiantou que irá tomar providências contra a Rodotur. "Depois que meu irmão for enterrado, eu quero justiça e espero que aempresa colabore com a lei", adiantou.

A reportagem do DIÁRIO DE PERNAMBUCO, procurou várias vezes pela gerência da Rodotur. Em uma das tentativas, um funcionário identificado apenas por João, disse que a empresa não tinha tomado conhecimento do caso. O duplo homícidio do motorista da Rodotur está caracterizado com crime de ação penal pública. A empresa será obrigada a apresentar a identidade do funcionário, que encontra-se foragido, e justificar porque o mesmo andava armado.

Segundo a gerente de fiscalização da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), Glória Barros, não é permido nenhum motorista ou cobrador portar armas. "Nenhuma empresa está autorizada a dar armas aos seus funcionários", declarou. O duplo homicídio está sendo investigado pela Delegacia de Rio Doce, que ainda não tem pistas do assassino.


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