Recife, Terça-Feira, 21 de Abril de 1998

Construções ameaçam mangues

Canal que faz a ligação de estuário com o mar, em Itamaracá, está obstruído por edificações irregulares

A especulação imobiliária está comprometendo mais uma área de mangue primitivo. Na praia do Rio do Âmbar, próxima ao Forte Orange, em Itamaracá, construções irregulares e desmatamentos estão ameaçando o ecossistema. Na praia, o canal que faz a comunicação natural da água do mar com o mangue está obstruído por uma casa construída irregularmente no local. "A água que fica no mangue é de chuva. Só entra água salgada quando a maré está alta, invadindo tudo", explicou o pescador Valdemiro Vicente de Lima, 55 anos, morador da praia desde que nasceu. Em Rio do Âmbar, cerca de cem pessoas vivem diretamente da pesca.

O mangue funciona na natureza como um estuário para a reprodução das espécies marinhas. O pescador diz que depois da invasão de veranistas, que vem acontecendo progressivamente há dez anos, a oferta de peixes vem diminuindo violentamente. "Antigamente era comum se tirar quarenta, cinqüenta quilos de peixe do mar. Agora, quando saem quinze, a gente fica contente. Tainha quase não existe mais," exemplificou Valdemiro. As áreas de situação mais crítica ficam atrás da colônia de pescadores e do Iate Clube de Itamaracá. Nestes lugares, os mangues já cedem espaço para ruas improvisadas com casas em alvenaria. A maior parte das residências fica fechada ao longo do ano, só sendo ocupada em época de férias. Para resolver o problema da diminuição de caranguejos, os moradores tomaram, no ano passado, a iniciativa de cada casa ficar responsável pela reintrodução de uma duzia dos crustáceos no mangue do Âmbar.

Outro problema comum é o acúmulo de dejetos nos mangues. O arquiteto Eduardo Araripe, veranista, afirma que a praia não dispõe de coleta regular de lixo. "Um caseiro recolhe o lixo de todas as casas e leva para um terreno baldio ou o queima. Algumas pessoas não têm consciência e lançam dejetos no mangue", atesta. Como acontece em Piedade, no município de Jaboatão dos Guararapes, faixas de praia são irregularmente ocupadas por proprietários que aumentam o espaço de seus terrenos. "O aumento aconteceu porque houveum boato de que o Iate Clube iria construir uma garagem de barcos, então o pessoal se defendeu. Mas tudo é de madeira e pode ser retirado", diz o veranista.

O superintendente regional do Ibama, José de Anchieta, diz que o instituto já tem conhecimento do problema nos manguezais. "Vamos notificar os responsáveis. O Ministério Público já está ciente do problema. Fica difícil remover construções, a idéia é preservar o que resta", diz. O Ibama ainda não identificou a empresa que possa estar comercializando lotes no mangue. De acordo com a nova lei ambiental, o desmatamento ou aterro de manguezal é crime, podendo render detenção de 3 meses a 5 anos. "A construção em mangues é proibida por lei e nós sabemos que ninguém compra este tipo de terreno para criar caranguejos, por exemplo. Uma construtura que estiver comercializando mangues pode estar agindo de má-fé", expõe.

Os técnicos do Ibama informaram que a importância dos manguezais não é apenas ecológica. Sua preservação é essencial também para a estrutura urbanística das cidades. Sendo uma área de escoamento, podem provocar o retorno das águas das galerias fluviais e das chuvas, causando alagamento em ruas e avenidas.


Estuário é loteado na Estância

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