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| (Atualizado no dia 15/4/1998) |
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A Democracia é mesmo inevitável Os valores democráticos são a base da sociedade da informação e possibilitaram o surgimento das redes Silvio Lemos Meira E m março-abril de 1964 o mundo era sombrio. Os generais de óculos de grau, fotocromáticos, de aros grossos, assumiam governos em todo canto, inclusive aqui. Galera de difícil trato e humor muito complicado. Há 34 anos, o pacto da incompetência da elite industrial e política com um certo tipo de nacionalismo instalava a ditadura que, no fim das contas, parou o Brasil por três décadas. Também em março-abril de 1964, Slater e Bennis publicavam, na vetusta Harvard Business Review, seu célebre artigo Democracy is Inevitable. Esta pequena obra prima, que você pode adquirir por US$3,50 no web da HBR (em www.hbsp. harvard.edu, você paga e transfere o .PDF na hora), propõe que a democracia é o único sistema que acomoda, naturalmente, a expansão e a mudança. Principalmente as grandes mudanças. E, como o avanço da tecnologia já provocava, à época, mudanças assustadoras, a democracia seria inevitável. Em todo lugar. E assim está sendo. Mas prever isso em 64 foi um feito. Por isso que vale a pena ler o artigo... Mais doque qualquer outro efeito corrente na sociedade, a revolução da informação é um resultado do princípio da inevitabilidade da democracia. Os valores democráticos são a base da sociedade da informação e o fundamento que possibilitou a criação de redes de computadores quase que completamente abertas e mundiais. Mas os tais princípios não servem só para países e redes de computadores, mas também para empresas e famílias. Leia com calma e identifique, logo no primeiro princípio, a Internet. Depois saia se perguntando o quanto de democracia existe em cada lugar que você estuda, trabalha, freqüenta, vive. O primeiro princípio democrático é o da comunicação irrestrita, independentemente de poder, riqueza e perfil social. É este que garante a todos o acesso à mesma rede, da mesma forma. O quarto onde está o micro que entra na rede na Beira Mar, em Piedade, pode valer mais que os fundos do bar, no Alto Zé do Pinho, de onde o povo vê o mundo na Web. Mas cada um vale não pelo que tem, mas pelo que pensa ou é capaz de pensar e expressar. E Devotos, você sabe, saiu do Alto e não da cobertura. Um a zero para o morro. No caso do Brasil, é preciso fazer uns ajustes neste particular. Falta criar oportunidades iguais de acesso, o que quer dizer educação melhor e para mais gente. Muito mais. E não apenas a educação-treinamento, aquela que nos prepara profissionalmente, para sermos explorados, como trabalho, pelo capital. Precisamos de educação-formação, o processo crítico no qual aprendemos a fazer perguntas esquisitas do tipo por quê, para quê e qual o impacto disso no meio ambiente. A educação democrática é aquela que cria as condições para a ruptura do paradigma social (ou empresarial), mantendo os princípios democráticos e os fundamentos essenciais do comportamento humano. Senão acaba dando num Pol Pot, o louco cambodjano que mudou seu país via o assassinato puro e simples de todo mundo que tinha alguma educação. Você pode ver esta história de puro terror em www. yale.edu/cgp. Aos mais sensíveis, cuidado com as fotos. Não são brincadeira. O segundo princípio trata do uso do consenso e não da coerção ou acordos como a base para a solução de conflitos. Uma democracia real tem que assumir e criar muitos consensos, sobre a filosofia que a sustenta e sobre seu funcionamento e mudança permanente. O terceiro cuida da criação e manutenção de uma atmosfera que permite e encoraja a expressão emocional, ao mesmo tempo que o comportamento profissional clássico. Ou seja, se não conseguimos falar ou ouvir o que tem que realmente ser dito, com o coração, estamos vivendo algum tipo de farsa. E farsas só funcionam à força, o que é o fim da democracia. Imaginem uma Internet como a telegrafia dos rádio-amadores: nada de comércio, amores, sexo nem pensar, política menos ainda. Uma linha de comunicações para catástrofes e um pouco mais, controlada pelo governo. Não ia ser a mesma coisa. PRINCÍPIOS O quarto define uma polarização para o lado humano, aliada à aceitação da inevitabilidade dos conflitos entre indivíduos e organizações e ao desejo de mediar e administrar tais conflitos em bases racionais. O último reza que a base da influência é a competência técnica e o conhecimento, e não o poder formal. Sai a universidade/fábrica de diplomas, entram os centros de treinamento e o auto-didatismo. Vale quem sabe e não quem-diz-que-sabe. A competência técnica e o conhecimento, associados às tecnologias da informação, que cuidam para que a comunicação irrestrita seja possível, são cada vez mais a base do paradigma industrial e de serviços em todo o mundo e a razão fundamental das conseqüências sociais, econômicas e culturais da era da informação. É bem possível que neste novo modelo tecnológico, industrial e econômico estejam a maioria dos produtos e serviços do futuro, que serão fundamentais para atrair investimentos e criação sustentada de trabalho em qualquer país ou região. Dez anos depois da publicação original, Slater e Bennis viram uma das mais antigas ditaduras do mundo entrar em colapso, com Portugal voltando à vida; depois disso, um-a-um e o Brasil inclusive, a maioria dos países do ocidente, com um atropelo aqui e ali, voltou a alguma normalidade democrática, apesar de alguns regimes bárbaros ainda resistirem. Vinte e cinco anos depois do artigo, o Muro de Berlim foi para o espaço: parecia coreografia de Joãozinho Trinta, que coisa bonita. Trinta anos depois, em março de 1994, em Buenos Aires, que tinha sido sede de uma das mais violentas ditaduras de que se tem notícia, Al Gore, vice-presidente dos EUA, fazia seu discurso sobre a construção da Global Information Infrastructure, na reunião da International Telecommunications Union (em www.seflin.org/nii/ cc.11.html). Dada a partida, países, blocos econômicos e instituições de grande peso político começaram a montar seus projetos de Sociedade da Informação, todos prometendo e trabalhando para criar os últimos elos que faltam para cumprir, em todo lugar, os princípios básicos da democracia. Que vai demorar um pouco mais em alguns lugares. Mas vai acabar chegando. Da mesma forma que acabou chegando luz na Macuca, em Garanhuns, e como vai chegar telefone. Quando houver telefone, vai haver Internet. Aí Palmeirina vai ser parte do mundo. E não desta capitania hereditária, quase imutável desde Pinzón. Se eu fosse político, acreditaria nisso e nas suas conseqüências. Ceaucescu não estava nem aí: deu no que deu. EDUCAÇÃO Aliás, falando de poder e educação, o descaso do governo está pondo em greve as universidades federais do país. Para saber porque a UFPE parou, veja www. di.ufpe.br/~srlm/po-de-giz.htm e www.adufepe.com.br. E, se for o caso, mande e-mail para seu deputado federal e senador (www.camara.gov.br e www.senado.gov.br) exigindo uma posição sobre a crise no ensino superior federal. É assim que a democracia funciona... |
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