Recife, Terça-Feira, 21 de Abril de 1998

Um eterno círculo vicioso

César Rocha
Da equipe do DIÁRIO

Por que os bancos não baixaram os juros na mesma proporção da queda nas taxas do Banco Central? Essa é a questão fundamental que o consumidor precisa saber, caso queira entender o motivo de continuar pagando caro pelo empréstimo pessoal ou pelo uso do limite do cheque especial.

Para resolver a questão, é preciso lembrar o seguinte: as taxas do Banco Central servem de referência; é a partir delas que os bancos definem suas próprias taxas. Definem, é claro, acrescentando um percentual para cobrir seus custos de operação. Acrescentam ainda uma margem de lucro.

Dito isso, dois aspectos das taxas bancárias devem ser levados em consideração: os lucros e os riscos que o mercado do dinheiro apresenta. No caso dos lucros, está claro que os bancos decidiram manter suas taxas altas para aumentar as margens de lucro. Ou seja, passaram a captar dinheiro por um preço menor (juros), mas continuam cobrando caro do consumidor pelo mesmo dinheiro. E cada banco cobra o valor exorbitante que considera justo.

Por exemplo:se o cliente do Unibanco, que tem uma das maiores taxas (12,3%), tomar emprestados por um ano R$ 1.000,00 no cheque especial, pagará 12 prestações de R$ 123,00. Chegará ao final do ano, com uma dívida de R$ 1.476,00 - 47,6% mais. No caso do Bradesco, cuja taxa é uma das menores do mercado, o mesmo empréstimo terá prestações mensais de R$ 90,00. Ou seja, pagará R$ 1.080,00 em um ano. Com a menor taxa praticada, a Caixa Econômica Federal é o banco que menos lucra na operação. Os R$ 1.000,00 de seu cheque especial significam para o consumidor mensalidades de R$ 85,00 e um débito total, em 12 meses, de R$ 1.020,00.

O outro aspecto da questão - os riscos - forma um círculo vicioso e tem forte participação no problema das taxas elevadas. Toda taxa de juro tem dentro dela um percentual de risco - uma espécie de taxa de seguro que garanta ao banco dinheiro suficiente para cobrir a indadimplência dos consumidores. Quanto maior é a inadimplência, maior é a taxa de seguro. E é bom lembrar que o Brasil continua a viverum momento de elevadíssima inadimplência. O problema é que juros altos contribuem para aumentar a inadimplência. Tradução: a inadimplência do consumidor eleva a taxa; e o banco estimula o calote ao extorquir o consumidor.

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