Recife, Terça-Feira, 21 de Abril de 1998

O legado de Tancredo

OPINIÃO
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O 21 de abril é um dia cheio de significados no Brasil. É a data da Inconfidência Mineira, da inauguração de Brasília e registra o momento em que Tancredo Neves nos deixou. Mineiro discretíssimo, arquiteto de obras políticas perfeitas, Tancredo é uma espécie de patrono deste lapso democrático que o país está atravessando.

O Brasil vive ciclos de desenvolvimento político e econômico. Tancredo uniu dois momentos. Foi ministro da Justiça de Getúlio Vargas, participou da última reunião do ministério no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. E socorreu o presidente, imediatamente após o tiro no peito, junto com Alzira Vargas. Momentos antes de Getúlio sair da vida para entrar na história, Tancredo recebera das mãos do presidente uma caneta, a título de "lembrança destes momentos difíceis". Depois, entendeu que recebera a caneta com a qual fora escrita a carta-testamento.

Em 1961, quando a crise entre João Goulart e os militares estava no auge, depois da renúncia de Jânio Quadros, ele foi a Montevideo, no Uruguai, dizer a Jango o seguinte: "presidente, se o Sr. insistir em tomar posse sem negociação, poderá chegar ao Alvorada sob um banho de sangue. A decisão é sua". João Goulart negociou o parlamentarismo com os irmãos Geisel e Tancredo Neves tornou-se primeiro-ministro.

Veio a Revolução de 64, e ele manteve sua posição contrária aos militares. Juscelino Kubitschek tentou negociar com os generais e acabou cassado. Tancredo não foi cassado, mas se recolheu a um silêncio tumular. Só reapareceu quando o general Ernesto Geisel assumiu, em 1974, a Presidência da República. Eles se conheciam desde a crise de 61. Elegeu-se senador e, quatro anos depois, deixou o cargo para se candidatar ao governo de Minas Gerais. Foi eleito. E a partir de Belo Horizonte começou a trabalhar na principal obra política de sua vida.

Junto com Ulysses Guimarães comandou a maior mobilização popular do Brasil contemporâneo. Apresentou sua candidatura no Colégio Eleitoral. Derrotou Maluf. Deu a volta ao mundo anunciando o Brasil da Nova República e adoeceu na véspera da posse, que, na época, era 31 de março. Morreu no dia 21 de abril.

Tancredo Neves montou um ministério preocupado com as ligações regionais. Seu ministro da Justiça foi Fernando Lyra. Seu líder no Senado era Fernando Henrique Cardoso. Tancredo transitou por ciclos distintos da história brasileira. Passou pela era Vargas, atravessou o período JK, sobreviveu aos militares e comandou, com educação, elegância e firmeza, a transição da ditadura para o regime democrático. Não sobreviveu para admirar sua obra. Os democratas deste país devem muito à persistência do Dr. Tancredo, esse herói discreto, mas como Tiradentes, enlouquecido de esperança.

Sérgio Motta

Governo tem alma. E a alma de um governo está na capacidade de articular, de atacar e de defender de seus membros. É este tipo de auxiliar que faz com que o governo se mova, distinga ações, construa alternativas.

O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso não revelou talentos, nem desempenhos especiais no ministério. Com a exceção solitária e polêmica de Sérgio Motta.

Durante o tempo em que participou da administração federal, ele mostrou três dimensões na sua atuação: o gestor, o político e o homem de partido.

Como gestor, ele deixa uma obra importante na área da telecomunicações, visível no cumprimento dos cronogramas das privatizações das teles. Neste caso, o setor viveu duas etapas: antes e depois de Sérgio Motta. Ele foi divisor de águas.

Como político, era ele quem fazia a defesa do presidente e quem promovia o ataque aos adversários. Nos momentos em que a administração FHC mais teve sonoridade política, a voz ouvida era a dele.

E sua voz não foi ouvida só fora do governo: foi bem ouvida no território governamental. Até quando criticou a parlamentares o programa coordenado pela primeira-dama. Neste campo ele exerceu a consciência do próprio governo. Como homem de partido, ele introduziu um estilo pouco familiar aos tucanos, mais afeitos a aguardar fatos do que a criá-los. Na verdade, além de construir realidades, como é próprio da política, ele não abria espaço a concorrente. Por isto, acumulou, certa época, funções ministeriais e partidárias.

Pode-se ter discordado de alguma de suas iniciativas, de algumas de suas afirmações. A maneira como ele conduziu os assuntos que lhe chegaram às mãos tinha marca específica.

Pode-se, inclusive, ter discordado de algum dos conceitos com que ele trabalhou. Mas há de se reconhecer que, com sua perda, o governo Fernando Henrique ficou politicamente mais pobre.

Não será o caso de repetir o lugar-comum de que o ex-ministro deixa uma lacuna. Na política, como na vida, elas serão sempre preenchidas.

Mas será o caso de recordar o vigor de sua determinação. E tomando-o como referência, honrá-lo na ação. A morte clarifica a face do homem.

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João Alberto
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