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| Recife, Terça-Feira, 21 de Abril de 1998 |
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Sérgio Motta PANORAMA POLÍTICO É possível que o Governo Fernando Henrique, tenha um ou dois mandatos, ainda venha a ser dividido em antes e depois da morte de Sérgio Motta. Tendo devastado a alma de FH, o glacial, ela pode encolher politicamente seu governo, que será no mínimo mais insípido sem aquele que lhe dava cara, voz e tempero. Políticos têm a alma fendida entre a vida pública e a privada. Na de FH, Motta ocupou grandes espaços dos dois lados. - Sou espaçoso mesmo - disse no início do Governo, quando os pefelistas começaram a se queixar de sua onipresença física e política. A vida do estudante de engenharia da PUC Sérgio Roberto Motta mudou no dia em que foi apresentado ao presidente da UNE, José Serra, nos idos de 1963/64. Tinha um vago interesse por política, gostou, entrou para a AP. Mais tarde, voltando do auto-exílio, FH lhe seria recomendado por Serra. Acabariam formando um triângulo de relações complexas. Serra e FH seguiriam alimentando uma certa competição intelectual e política de que parece nutrir-se a amizade. Motta tornou-se ao mesmo tempo súdito e senhor de FH. Sabia não ter os atributos e o potencial de vôo do amigo. Tornou-se seu protetor, provedor e superego severo. "Ele sempre ocupou os espaços naturalmente, nunca por delegação do presidente", diz Serra. Se admirava o amigo, Motta também conhecia e combatia suas fraquezas. Sendo o mais generoso no afeto, era também o que criticava, divergia, explodia. FH, é verdade, devolveu sempre em complacência. Sérgio Motta fará falta ao Governo, ao PSDB, à política. Mas talvez seja como superego de Fernando Henrique que venha a fazer mais falta. O Governo irá em frente, de todo modo. O PSDB não deixará de montar seus palanques. Os órfãos sempre se ajeitam. Faltará mesmo é quem seja tão próximo de FH e com ele fale de igual para igual. Quem diga, quase vociferando: "Isso não pode, Fernando". como fazia Serjão se achava necessário. Faltará quem seja inconveniente, como naquela entrevista à revista Veja, onde verdades incômodas que se cochichavam no Governo. Faltará quem fale desocial-democracia num governo de hegemonia liberal. Aí estão líderes da esquerda reverenciando o Sérgio Motta que empregou e protegeu perseguidos na ditadura. A Cultura e os esportes também lhe devem o generoso patrocínio da Telebrás. Ainda no varejo parlamentar, ele fará muito falta, por mais que os líderes governistas tentem mostrar auto-suficiência. Nunca houve uma grande votação em que seu trator não atuasse na construção da maioria. Se fosse preciso, representava, como recorda um líder aliado. Certo deputado, tendo um problema não resolvido na "tele" de seu estado, ameaçava votar contra a reforma administrativa. Foi levado a Sérgio Motta, que ouviu a queixa e pediu na hora uma ligação para o presidente da estatal. Xingou, vociferou e ameaçou demitir o sujeito se ele não resolvesse o problema em 24 horas. O deputado saiu, e Serjão perguntou ao líder o que achara. "Posso ser sincero? Fiquei com a impressão que não havia ninguém do outro lado da linha", arriscou o líder. Serjão confirmou, deu boas risadas, mas garantiu que falaria mais tarde com o responsável e o problema seria resolvido. E de fato foi. Motta combateu o bom combate em sua derradeira grande aparição, na posse de Serra, com o tubo e a cânula de oxigênio. Tencionava desfilar por aí com o equipamento, desafiando os preconceitos aqui tão fortes com portadores de necessidades especiais. Diz-se que os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituíveis. O mundo de fato não acaba porque eles se vão, mas, em alguns casos, fica pior. Consciência do fim Sérgio Motta soube que ia morrer quando foi informado pelos médicos que seria sedado para ser submetido à respiração artificial. Lembrou-se, na hora, do que lhe haviam dito há três anos, por ocasião do infarto: se um dia sofresse entubação por conta de problemas pulmonares, aí sim, dificilmente escaparia. Recordou a história a um dos médicos, que só então se deu conta do que dissera na época. Pediu então que aguardasse um pouco mais. Queria passar um fax para o presidente (o que foi lido ontem no Planalto). Na semana passada, Fernando Henrique soube das circunstâncias em que o amigo decidira escrever-lhe. Confirmou sua impressão de que se tratava de um adeus, embora o texto não revele a dramática consciência da morte que Sérgio Motta tinha quando o escreveu, com o último conselho: "não se apequene". TANTAS vezes inconveniente em vida, Sérgio Motta morreu e foi sepultado no rápido intervalo entre dois compromissos internacionais do presidente. Poupou o amigo de cancelar compromissos ou de remoer culpas caso não tivesse podido lhe dar o adeus final. NA volta a Brasília, FH trouxe no avião ministros e líderes que estavam em São Paulo. Manteve-se porém o tempo todo isolado na cabine presidencial, com dona Ruth. DO presidente da Câmara, em exercício, deputado Heráclito Fortes: "Motta era um articulador político polivalente. Leva consigo muitos segredos. Muitos acordos dos quais ele era o único fiador". "LIVRE demais para ser um grande político" (de D. Paulo Evaristo Arns sobre Sérgio Motta). |
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