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| Recife, Terça-Feira, 21 de Abril de 1998 |
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O Inesperado PANORAMA ECONÔMICO É o momento mais desafiador da mais ousada privatização brasileira. Dentro de três meses serão leiloadas, num mesmo dia, todas as empresas do sistema Telebrás. A maior venda do mundo este ano. O mercado financeiro internacional não se recuperou da crise da Ásia. O emergente Brasil tem eleições presidenciais. As regras da venda não estão todas definidas. O preço não foi fixado. E o ministro, condutor e alma da privatização, morreu. O governo chorou ontem o amigo, o conselheiro, o articulador. O velório mostrou que Sérgio Motta foi além do governo. E unia mais do que seu temperamento permitia supor. Os olhos vermelhos de alguns ministros, governadores e as lágrimas do presidente eram a homenagem justa a quem fez política com sentimentos. Com óculos escuros e declarações firmes, Luiz Carlos Mendonça de Barros julgava camuflar a dor. O eleito para conduzir a mais delicada etapa da venda da Telebrás passou várias horas perto do caixão. Longe da sala onde a família e o governo se escondiam da numerosa imprensa. O cruel é que não há tempo. Nem para chorar o amigo. A política tem seus prazos definitivos. A economia é ainda mais implacável. Da privatização da telefonia depende o financiamento do déficit em transações correntes este ano. Sérgio Motta fez um extraordinário trabalho na preparação da privatização, mas ele está incompleto. Não se sabe se haverá restrições ao capital estrangeiro; não foram estabelecidos os preços das empresas; vários pontos técnicos do modelo de venda, das regras das concessões, da forma do leilão não foram até agora decididos. Faltam apenas três meses. O mercado ainda está arisco. Será preciso fazer o melhor negócio possível; ter regras tão atraentes que tragam os investidores, mas tão rígidas que protejam os consumidores. Que é assim que o ministro sonhava. Luiz Carlos Mendonça de Barros é a melhor pessoa para assumir o comando do processo. Mas sua tarefa é imensa. Tem que tocar uma venda no meio e completar o trabalho de um homem genial, porém centralizador. Se fracassar, todos os erros serão seus. Se for vitorioso, todos os méritos serão de bom grado transferidos à memória do amigo. Este é um daqueles momentos dramáticos da história dos homens públicos. Na sexta-feira da última semana que passou trabalhando, Sérgio Motta me ligou no fim do dia. Diretamente, sem secretária. E disparou. Ele sempre disparava. Entrevistar Sérgio Motta era o desafio de ser capaz de guardar todas as informações. Jogadas de forma dispersa e caótica em que ele exibia sua mente múltipla: da política passava para um detalhe de exata precisão técnica, acrescentava uma análise estratégica e concluía com uma história pessoal. Mesmo doente, ele mantinha a mesma intensidade. Na última conversa, ele se disse convencido de que só abrindo ao capital estrangeiro faria uma boa privatização do setor de telefonia. Restringindo-o à posição de minoritário, como na banda B, ele poderia espantar os investidores, deprimir o preço, exigir muito financiamento do BNDES, inibir a vinda de novas tecnologias e favorecer indevidamente certos empresários brasileiros, sem genuíno interesse no setor. E este ponto é apenas um dos vários que permanecem pendentes. Sérgio Motta tomou decisões brilhantes ao preparar o projeto de privatização. A mais bem sucedida delas foi a idéia de privatizar a banda B ainda antes de vender a Telebrás. Conseguiu pôr nos cofres das reservas cambiais US$ 8 bilhões vendendo o ar. Além de reforçar o caixa do governo, ele introduziu a competição em setor monopolizado por estatais jurássicas. O consumidor passou a se beneficiar de celulares mais baratos, mesmo antes de as novas empresas começarem a operar. Para a venda do sistema já instalado, ele contratou consultorias prévias e discutiu ponto por ponto de um assunto de assustadora complexidade. -Você precisa ver o Plano de Outorgas. Ele está bárbaro - me disse Sérgio Motta. Só ele era capaz de premiar um assunto tão técnico com um adjetivo tão descontraído. O bárbaro no Plano de Outorgas é que ele vai obrigar as empresas que comprarem as telefônicas a ampliar sua base, tornando o produto disponível até em áreas consideradas anti-econômicas. Há prazos após os quais um telefone tem que ser entregue em quinze dias ao preço de R$ 50. Ele tinha claro que privatizar serviço público é para melhorar a qualidade do serviço, o que se consegue com boa regulação. Quando decidiu expor sua doença ele estava convencido de que ajudaria a mudar o país a quebrar mais um tabu. Não teve tempo. No final da nossa última conversa ao telefone, eu substituí as perguntas pelos conselhos, quando ele começou a tossir. E ele atropelou meus cuidados: - O quê? Mais uma pessoa mandando eu me cuidar? Chega. Estou bem, não tenho qualquer restrição, estou apenas com um problema de adaptação ao aparelho de oxigênio. Otimista incorrigível. Ele sonhou em 94 em ser o chefe da Casa Civil de Fernando Henrique. Nomeado ministro das Comunicações ele, que nem sabia usar um computador, acabou domando a área de maior complexidade tecnológica atual que é o setor de telecomunicações. Quando sefaz agora o balanço dos espaços que ocupava, descobre-se um fato curioso: ele era uma espécie de chefe da Casa Civil, no que o cargo tem de articulação política e capacidade de visão estratégica. Quem tivesse ouvidos de ouvir políticos com seu jogo de sutilezas, entrelinhas e dissimulações tomava um susto ao conversar com Sérgio Motta. Quem tivesse ideologias econômicas, não conseguia enquadrá-lo. Sérgio Motta era diferente de tudo. Ele era o inesperado. |
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