Recife, Terça-Feira, 21 de Abril de 1998

Morte prematura

Luis Fernando Verissimo

Só a coincidência, e a obrigação tácita de fazer algum comentário sobre a coincidência, e o fato de que somos, afinal, todos mortais e solidários diante da inimiga comum, reúne neste quadrado os quatro mortos notáveis deste fim de semana. Dois deles, Serjão e Linda McCartney, têm em comum a morte antes dos sessenta, que é quando a gente sente que entrou na fila e passa a desejar que ela não ande muito rápido. Também eram pessoas que, numa frase boba mas apta, "tinham tudo". Linda, o dinheiro e a fama; Serjão, o poder e seu evidente gosto em exercê-lo. Eles têm mais razões do que os outros para xingarem a morte - e pode-se desconfiar qual dos dois a está xingando mais alto. A morte merece todos os palavrões póstumos do Serjão.

Para Octavio Paz e Nelson Gonçalves sobrou, como assunto de viagem, resignação, pois viveram muito e exerceram a sua arte até o fim. E talvez um ou outro bolero.

Mas o que é que eu estou dizendo, viveram muito? Ninguém vive demais. Toda morte é prematura.

Vários leitores, inclusive dois em carta para o JB, me avisaram que eu ouvi cantar o santo sem saber onde. Troquei o São Tomás de Aquino pelo Santo Agostinho! Foi num comentário sobre a palestra do presidente, aquela das duas éticas, na semana passada. Na verdade, acertei o santo e errei o resto. Eu estava pensando na sistematização da teologia de Agostinho depois da sua ruptura com o maniqueísmo, principalmente em "Da Trindade", e foi isso que eu comparei com a suma do presidente para um governo prático. Claro que sei que a Suma Teológica é do São Tomás de Aquino. Ou aquele era o Santo Ignácio Loyola de Brandão?


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