Recife, Terça-Feira, 21 de Abril de 1998

Legado de Tancredo Neves causa controvérsia política

Treze anos após sua morte, o ex-presidente é um personagem polêmico

Sérgio Augusto
Da equipe do Diário

Hoje, 21 de abril, faz 13 anos que morreu Tancredo Neves, na véspera de sua posse como presidente da República. Esta é a idade do novo regime democrático, que nasceu com a retomada do poder civil no país. A superação do regime militar e a volta da democracia devem-se às articulações feitas por Tancredo Neves nos bastidores em nome da Aliança Democrática, negociando ora com os generais mentores da ditadura, ora com as lideranças civis de todas as tendências. É unanimidade, no país, que o gênio criador dessa passagem de regime foi Tancredo, que na época era governador de Minas Gerais. A unanimidade, entretanto, não existe quando se indaga sobre o que foi feito de seu legado como construtor da nova democracia.

O deputado Fernando Lyra (PSB), que foi o nome escolhido por Tancredo para o Ministério da Justiça, acha que, 13 anos depois, o país pode dizer que o grande legado do político mineiro está visível, que é "o aprofundamento do sistema democrático". E mais: "Em se tratando de Tancredo, devemos a ele a forçada resistência contra a ditadura, a liberdade e a esperança". A avaliação do ex-ministro limita-se ao aspecto da consolidação institucional do regime e ao perfil pessoal do líder mineiro.

FIXAÇÃO

Entretanto, para o articulador da campanha presidencial de Tancredo Neves no Nordeste, deputado Sérgio Guerra (PSB), as coisas não aconteceram como Tancredo queria. "Não aconteceram em pelo menos três campos políticos. Sua fixação era a reestruturação partidária e uma nova Constituição. Esta foi bastante equivocada, pois não foi ao mesmo tempo moderna e social. A estrutura dos partidos se degradou dos dois lados,esquerda e direita", explica Sérgio Guerra.

Ele assinala que, no campo social, o projeto de Tancredo dava destaque para o fortalecimento da Sudene, quer dizer, privilegiava o Nordeste. "A Sudene foi absolutamente desmontada. Não se tem uma política de reforma e ajuste social. Ao contrário, mesmo reconhecendo-se que o Plano Real tenha produzido um certo ganho para a população de baixa renda, o agravamentodo problema do desemprego e a má distribuição da riqueza entre as regiões e classes sociais têm, no final, prejudicado os objetivos de segurança e justiça sociais", ressalta o deputado.

Para Guerra, os sintomas dessa desagregação são óbvias: "Quem não se assusta com o tamanho da violência e do desemprego?". Nota que, no campo econômico, a idéia de Tancredo era a integração do Brasil no mundo, a desregulamentação e a privatização dentro de um processo gradativo que tivesse a ver com o ajuste da empresa brasileira aos desafios do mercado, e nunca a liquidação destas empresas. "A privatização não tem conseguido estruturar grupos nacionais para sustentá-la, correndo o risco de virar uma pura e simples desnacionalização", diz Guerra.

REVANCHISTA

A teoria conspiratória foi descartada de imediato, porque os generais e o então presidente João Figueiredo já haviam garantido a passagem do regime, e essa passagem não era para as mãos da esquerda. A Aliança Democrática reunia inclusive políticos historicamernte ligados ao golpe militar. Portanto, o projeto não era - na expressão dos militares - revanchista. A habilidade de Tancredo conseguiu um projeto de transição para o qual teve, de um lado o aval das forças armadas e, de outro lado,o apoio dos trabalhadores. Até hoje discute-se sobre o segredo do toque pessoal de Tancredo que foi capaz de equacionar e resolver impasses políticos. Nos meios políticos acredita-se que Tancredo Neves nunca revelou esse segredo a ninguém.


Ex-ministro destaca qualidades

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