Recife, Terça-Feira, 21 de Abril de 1998

O trator que não escolhia vítima

Político de palavras duras e estilo explosivo, Sérgio Motta era o homem de confiança de Fernando Henrique

BRASÍLIA - Trator. Sem dúvida, Sérgio Motta não poderia ter escolhido autodenominação melhor. Para explicar seu jeito explosivo, chegou a se definir como uma pessoa que nasceu e viveu no reduto paulistano de portugueses e italianos, para explicar que não tinha medo de nada. E o trabalho era a principal força motora. Era como ele se sentia, passando por cima de tudo. E, principalmente, era como se sentiam seus adversários e até os amigos. Os adversários porque costumavam ficar sem ação, abatidos em duros ataques. Os amigos porque Motta não poupava ninguém.

A importância e o poder do ministro Sérgio Motta no governo ficaram claros desde o dia em que assumiu o Ministério das Comunicações. No discurso de posse, em 2 de janeiro, ele não poupou de críticas nem mesmo o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e o presidente do Congresso, senador José Sarney (PMDB-AP), aliados do presidente Fernando Henrique Cardoso na campanha eleitoral.

"O ministério e as concessões se transformaram em instrumentos de ação política", disse, ao criticar "a tragédia do setor na década de 80". Mesmo sem citar ACM e Sarney, as palavras do ministro tinham endereço certo: a derrama de concessões de emissoras de rádio e televisão feitas por ACM, ex-ministro das Comunicações, para garantir a aprovação, na Constituinte, do mandato de cinco anos para o ex-presidente José Sarney. Uma estratégia de conquista de maioria que o governo Fernando Henrique também viria a adotar depois. Os aliados reclamaram, mas o ministro não ligou e ainda disse, no dia seguinte, que não se retrataria.

PORTA-VOZ

Esta foi a primeira das muitas declarações polêmicas do ministro durante três anos e três meses de gestão. No começo, quando o ministro falava, se dizia que suas palavras expressavam o pensamento do presidente Fernando Henrique Cardoso, razão pela qual estava sempre mantido no cargo apesar dos problemas que estas declarações provocavam, às vêzes no Congresso, às vêzes no próprio governo. Mas, três anos de governo depois, dizendo-se cansado com os abalos políticos provocados por suas declarações, o presidente passou a determinar que assessores do Palácio do Planalto propagassem que nem tudo o que o ministro dizia tinha o aval do presidente.

Esta diferença de tratamento foi marcada por julho de 97, quando em entrevista à revista Veja Sérgio Motta conseguiu desagradar o presidente Fernando Henrique Cardoso, ministros tucanos, o PFL e o PMDB. "Retrospectivamente, dá para perceber que a aliança com o PFL não era necessária, que o Fernando Henrique seria eleito de qualquer jeito", disse o ministro. O PFL ficou tão irritado que o líder do governo na Câmara, deputado Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), ameaçou renunciar ao cargo.

AEROPORTO

Defensor da aliança com o PFL na campanha - "para que o Fernando tenha políticos para recebê-lo nos aeroportos do Nordeste" - e no governo - "para aprovar as reformas econômicas e manter o Real", Motta também foi intransigente na determinação de que fosse o PSDB quem determinasse a linha política do governo Fernando Henrique. "O PSDB mandou na campanha e está mandando no governo", afirmou no início do governo. O ministro sempre procurou contestar a imagem de que o PFL é quem mandava no governo.

"Quem manda no governo é o PSDB. A orientação e a ideologia do governo são social-democratas. O PFL é liberal e para eles o mercado resolve tudo. Para os social-democratas o estado tem uma função reguladora do mercado", defendia.. Nesta mesma entrevista, o minstro criticou as indicações dos ministros Iris Resende para a Justiça e Eliseu Padilha para os Transportes, feitas pelo PMDB. "Foi uma decepção. Pensamos em indicações que pelo menos trouxessem benefícios políticos no Congresso. Só que com o Iris e o Padilha isso não aconteceu. O PMDB dá menos voto para o governo hoje do que dava antes da ida deles para o governo", afirmou Motta.

CRÍTICA FEROZ

O ministro, que tinha uma visão de conjunto do governo e, ainda, como ninguém, tinha o projeto de Fernando Henrique na cabeça, fazia críticas internas e públicas ao próprio governo. Neste exercício de auto-crítica, seu momento de maior contundência ocorreu no dia 18 de abril de 1995, durante uma reunião com deputados do PMDB, quando Fernando Henrique estava visitando oficialmente os Estados Unidos. "O governo está muito tímido na área social. O Programa Comunidade Solidária ainda não adotou medidas concretas", afirmou, para surpresa dos pemedebistas. Suas críticas lhe valeram dias de polêmica quando ele emendou sua avaliação com uma interpretação ousada: "Esta masturbação sociológica me irrita", afirmou. No dia seguinte foi repreendido.

"O presidente considera que o ministro deve limitar seus comentários públicos à área de sua competência. Não cabe a um ministro tecer juízo de valor sobre o governo ou sobre outros ministros. Isto cabe exclusivamente ao presidente da República", declarou o porta-voz Sérgio Amaral, em Washington (EUA), onde se encontrava Fernando Henrique. O ministro levou o mesmo puxão de orelhas, em julho de 1997, mas desta vez do próprio presidente.

Motta havia feito críticas aos ministros da Administração, Bresser Pereira, atribuindo a ausência deste do país à aprovação no Congresso da reforma administrativa, e da Fazenda, Pedro Malan, por estar em Washington no dia em que o Congresso votou a criação do Fundo de Estabilização Fiscal. "Neste momento, em que o Brasil espera de nós um comportamento equilibrado e construtivo, não cabem críticas públicas de ministros a ministros", disse Fernando Henrique.

Aprovadas as reformas econômicas, no primeiro semestre de 1995, Motta aproveitou o recesso de julho para iniciar o processo de preenchimento das presidências e diretorias das companhias telefônicas estaduais - as teles, cujos cargos sempre estiveram à disposição dos apetites e à cobiça dos políticos. Com o princípio de privilegiar os indicados pelos tucanos e preferir alternativas técnicas, o ministro comprou uma briga feia com o PFL e o PMDB, detentores da maioria destes cargos.

SOCIAL-DEMOCRATA

Motta já vinha às turras com os pefelistas, descontentes por terem sido alijados das teles, quando voltou a cutucá-los durante palestra, em 28 de agosto de 1995, na Escola Superior de Guerra no Rio de Janeiro. "Este fervor liberal de acelerar a privatização é dilapidar o patrimônio público. Esse governo não compartilha disso", afirmou. "Sou social-democrata, sou contra esta febre de entregar o patrimônio público", arrematou. Os principais caciques do PFL, entre eles o presidente do partido Jorge Bornhausen e o presidente da Câmara, Luis Eduardo Magalhães, vinham pressionando o governo para acelerar o processo de privatização.

Desde o início do governo, Motta fazia questão de diferenciar a sua gestão da herança recebida pelo PFL, que durante muitos anos controlou o Ministério das Comunicações. Foi o que ocorreu em agosto de 1995, durante depoimento na Comissão de Ciência e Teconologia da Câmara dos Deputados, quando disse que ao assumir a pasta havia encontrado o ministério numa situação de "caos" e de "terra arrasada". Disse, sabendo que os senadores Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), e o líder do PFL, Hugo Napoleão (PI), o tinham precedido naquela pasta.

Suas declarações foram uma reação à pressão dos pefelistas sobre o ministro José Serra, do Planejamento, responsável pelo programa de privatização. Os pefelistas, alguns dias antes, haviam sugerido a criação de um ministério da privatização, retirando poderes de Serra em favor, naturalmente, de um pefelista. Com o vigor de suas palavras fez mais do que defender Serra, feriu o amor próprio dos pefelistas e colocou um fim na relação de confiança entre os dois partidos que, ao longo desses mais de três anos, tiveram em Motta a razão principal de muitas brigas e discussões tensas.

O presidente do PFL, Jorge Bornhausen, pediu explicações "públicas", na ocasião, e o ministro recusou-se a dar explicações. "As reportagens jornalísticas foram suficientemente claras", limitou-se a dizer, reafirmando, assim, o que havia dito.

Ocupando cada vez mais espaço no governo, o de mais ardoroso defensor e o de maiorcrítico, Motta não poupou. O ministro já fez críticas abertas à política econômica. "Não é possível se ter taxas de juros de 4% ao mês quando a economia está estabilizada. Isso representa juros reais de 3% ao mês, o que é um absurdo", afirmou. O ministro também travou uma batalha durante todo o ano passado, com a equipe econômica, em torno do destino que deveria ser dado aos recursos arrecadados pelo programa de privatização.

SÓCIO E AMIGO

Sócio e amigo de Fernando Henrique - ambos têm uma fazenda no município de Buritis, em Minas Gerais -, Sérgio Motta acabou envolvido no maior escândalo do atual governo - o da compra de votos para aprovar a reeleição. Dois deputados do Acre - Ronivon Santiago e João Maia - em conversas gravadas pelo ex-deputado Narciso Mendes, admitiram ter recebido R$ 200 mil para votar a favor da emenda da reeleição. Nas conversas, ocorridas em maio do ano passado, os governadores Amazonino Mendes (AM) e Orleir Camelli (AC) apareciam como os agentes compradores dos votos, e ambos insinuavam que a operação tinha o aval do ministro das Comunicações, Sérgio Motta. O ministro negou sua participação no episódio, os dois deputados que confessaram ter recebido dinheiro renunciaram, e as suspeitas sobre seu envolvimento continuaram no nível de suspeitas.

Mesmo afastado da direção do PSDB, desde que assumiu o governo em 1995, durante todo este período, Motta continuou sendo um dos principais comandantes do partido. Em 1995, o ministro forçou a demissão do presidente do PSDB, Pimenta da Veiga, por discordar que o deputado Saulo Queiroz, atualmente no PFL, assumisse a secretaria-geral do partido. "O cargo pertence a São Paulo e, além disso, o Saulo é muito ligado ao PFL", argumentou Motta ao justificar o veto. No ano passado, Motta interferiu diretamente na disputa pela liderança do PSDB na Câmara ajudando a eleger o deputado Aécio Neves (MG), evitando que o cargo fosse ocupado por Jayme Santana (MA), na época ainda adversário da governadora Roseana Sarney, com quem agora deve se aliar nadisputa pelo governo estadual.

Foi no seu gabinete, no Ministério das Comunicações, onde se reunia com a cúpula do PSDB todas as quintas-feiras, no horário de almoço, que foi planejada a política de cooptação, na qual o PSDB ampliou sua bancada na Câmara de 67 para 96 deputados. Mesmo assim, quando o PSDB da Bahia filiou o ex-governador Nilo Coelho, adversário político do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), Motta foi o primeiro a criticar a falta de critério nas filiações. "O PSDB está virando um partido-ônibus, onde sempre cabe mais um", criticou o ministro durante entrevista ao anunciar sua decisão de renunciar a seu cargo na direção do PSDB.

O ministro marcou sua posição, o PSDB saiu-se mal do episódio, mas isto não impediu a reaproximação de ambos e, em fevereiro deste ano, discretamente, Motta reassumiu suas funções no comando do PSDB.


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