Recife, Segunda-Feira, 20 de Abril de 1998

O Brasil holandês

Depois de sete anos de guerra contra o invasor, os luso-brasileiros reconhecem a derrota. Entre 1637 e 1644, os holandeses ampliam seu domínio no Nordeste, sob o comando de Nassau

O Brasil holandês completava sete anos de existência quando João Maurício, o conde de Nassau-Siegen, assumiu o governo. O estado da colônia era precário, canaviais e engenhos foram devastados, comprometendo a produção açucareira, e as guerrilhas persistiam. Em sete anos de administração, Nassau conseguiu mudar os rumos do nordeste brasileiro. O período nassoviano, como é conhecido, corresponde à idade de ouro do domínio holandês no Brasil.

"Um dos lugares mais belos do mundo", escreveu Maurício de Nassau em sua primeira carta à Holanda, referindo-se ao Brasil. Nassau desembarcou em Pernambuco no dia 23 de janeiro de 1637. Foi nomeado governador-geral, capitão e almirante pela Companhia das Índias Ocidentais, que controlava as ações dos holandeses no Brasil.

O início do período Nassau foi marcado pela repressão à guerrilha e fixação das fronteiras do Brasil holandês. Porto Calvo era uma ativa base da resistência, nas Alagoas, de onde os exércitos luso-brasileiros atacavam os holandeses. Nassau reuniuas suas tropas e reconquistou Porto Calvo em fevereiro de 1637. O ataque foi fulminante. Pernambuco estava, enfim, livre da guerrilha.

O conde Banholo, comandante de Porto Calvo, ordenou a retirada para o rio São Francisco. A fuga foi confusa. Mais de 400 soldados luso-brasileiros morreram no caminho. "Os homens", conta a História,"fugiam levando consigo as mulatas concubinas, enquanto as suas menosprezadas mulheres, despenteadas e de pés no chão, lutavam contra os matos e os lodaçais".

O Ceará era o próximo alvo dos estrangeiros. A invasão dessa capitania foi rápida e teve a valiosa ajuda dos índios tapuias. Os invasores ampliavam assim a sua fronteira norte. O território do Brasil holandês, em 1637, se estendia do rio São Francisco, no seu extremo meridional, ao Ceará, no norte.

FRACASSO

Em 1638, Nassau planejou sua expedição mais ousada - a conquista de Salvador. A capital do Brasil português era fortemente guarnecida e não sucumbiria fácil ao exército holandês. Após sitiá-la durante um mês, Nassau desiste da invasão e volta para Pernambuco. Em Salvador, teve seu primeiro fracasso em terras brasileiras.

A Espanha, que na época dominava Portugal e as suas colônias (inclusive o Brasil), preparou uma esquadra para conter os avanços de Nassau. A frota era composta de 87 embarcações e 6 mil homens, sob as ordens do português conde da Torre. Mas a expedição, atacada pelas naus inimigas e prejudicada pelas correntes de ar que a empurravam da costa, não conseguiu desembarcar as suas tropas em Pernambuco. Tomando o rumo do norte, a armada luso-espanhola se dispersou.

O Brasil holandês experimentaria uma fase de paz com a libertação de Portugal da dominação espanhola, em 1641. O término da União Ibérica, período em que os reis da Espanha assumiram a coroa portuguesa (de 1580 a 1641), proporcionou a Maurício de Nassau a oportunidade de negociar o fim das hostilidades entre os holandeses e os luso-brasileiros.

Aproveitando-se da fragilidade de Portugal, empenhado na sua luta de independência da Espanha,Nassau desrespeita a trégua e invade Sergipe, Maranhão e Angola (África) - fundamental para garantir a mão-de-obra escrava para os canaviais brasileiros dos flamengos. Com a conquista de Sergipe e do Maranhão, a Nova Holanda passava a incluir em suas fronteiras sete das 14 capitanias em que se dividia a América portuguesa.

GOVERNO POPULAR

A vida na Nova Holanda mudaria com Nassau. Logo nos seus primeiros meses de governo, tratou de conciliar a população luso-brasileira com a administração holandesa. Concedeu créditos para que os senhores de engenho retomassem a produção nos canaviais, destruídos por anos de luta armada. Permitiu ampla liberdade religiosa. Flexibilizou o monopólio comercial da Companhia da Índias Ocidentais e garantiu aos portugueses os mesmos direitos dos holandeses. Nassau visava consolidar o domínio holandês, atendendo às demandas mais importantes da população.

Nassau desembarcou em Pernambuco com uma legião de pintores, cientistas, médicos, astrônomos, engenheiros e arquitetos. A fauna, a flora, a vida dos indígenas, as doenças, os hábitos alimentares do Brasil pela primeira vez foram estudados por cientistas. Os pintores Frans Post e Albert Eckhout retrataram a vida e as paisagens brasileiras. O primeiro observatório astronômico e meteorológico do Novo Mundo foi construído no Recife.

Aos poucos, os novos conhecimentos, hábitos e costumes da Holanda eram assimilados pela população. Não sem algum assombro. Causava grande estranheza aos luso-brasileiros o jeito das mulheres flamengas. Um viajante holandês comentou o jeito recluso e recatado das portuguesas: "As mulheres daqui se vestem custosamente; quando saem de casa, o que é raro, estão cobertas até os pés, pois seria grande vergonha deixar alguém vê-los."

As mulheres holandesas, por sua vez, freqüentavam bares e tavernas, bebendo e discutindo assuntos de negócios e guerra com os homens. Mesmo com tantas diferenças culturais, os casamentos entre holandeses e mulheres portuguesas foram bastante numerosos.

Os flamengos menos propensos à miscigenação racial mantinham relações com prostitutas vindas da Holanda a pedido dos invasores, preocupados com o avanço do homossexualismo na cidade, devido à pequena quantidade de mulheres. Grande número de mulheres fáceis, como eram conhecidas, desembarcou no Recife e outras capitanias dominadas pelos holandeses.

O conde promovia animadas festas e banquetes em seus palácios para os senhores de engenho e os altos funcionários do governo. Para o povo, Nassau organizava espetáculos de rua. Para a inauguração da ponte do Recife, em 1642, ele preparou uma festa popular e anunciou que faria um boi voar. O espetáculo não passou de uma encenação com um boneco de pano, do tipo do bumba-meu-boi, para poder cobrar pedágio de quem passasse pela ponte.

A Companhia não estava satisfeita com os resultados financeiros do Brasil holandês e com as políticas de seu governador. Nassau considerava os tutores da companhia uns sovinas sem visão política. Em 1644, o conde apresenta o seu pedido de demissão e voltapara a Europa.

Sua partida foi chorada pelos habitantes do Brasil holandês. Maurício de Nassau também se afeiçoara ao Brasil. Meses antes de morrer declarou: "Essas belas terras brasileiras não têm igual sob o céu".


O novo Recife
João Maurício de Nassau-Siegen

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