Recife, Sexta-Feira, 17 de Abril de 1998

Calcinhas em baixa

Pesquisa revela queda de 14% no consumo de peças íntimas femininas no Brasil

Fernanda d'Oliveira
Da equipe do DIÁRIO

Algo espantoso anda acontecendo na fatia de mercado de roupas íntimas femininas. Quem sabe um retorno à Idade Média, quando nem existia lingerie e a palavra sedução ainda era uma lenda. O fato é que o Brasil começa a mostrar uma tendência completamente inesperada: as vendas de calcinhas estão caindo assustadoramente. Há cinco anos, as brasileiras compravam uma média de nove calcinhas por ano. Era uma média baixa em relação aos países do Primeiro Mundo, mas é bom lembrar que sedução ainda é luxo para grande parte da população brasileira. Hoje, no entanto, a situação piorou: são apenas sete calcinhas por ano. Isso significa metade do números de peças íntimas que as inglesas comprar todo ano. De 1992 para cá, segundo os fabricantes, houve uma queda de 14% - foram trinta milhões de calcinhas a menos no mercado.

Essa revelação foi feita no mês passado, quando saíram os resultados de uma pesquisa encomendada pela Du Pont do Brasil. A empresa é fabricante de quase toda a lycra que é utilizada pelos fabricantes de roupas íntimas no país. A consultoria Research International detectou três motivos para a queda nas vendas: a qualidade do produto - considerada baixa pelas brasileiras -, a redução da compra por impulso e a estabilidade econômica do país (com o barateamento dos eletrodomésticos, um conjunto de calça e sutien sai pelo mesmo preço de uma cafeteira, por exemplo).

A luta, agora, é para recuperar a consumidora. Para isto, a Triumph já lançou a calcinha feita com tecido micromodal, que não retém a transpiração e é completamente moldável ao corpo feminino (o design lembra mesmo uma cueca um pouco mais feminina - vale lembrar que a peça mascula anda sendo usada por uma parcela das mulheres brasileiras). A Duloren também vai investir num marketing agressivo, aliado a modelos sensuais, no topo da moda, inclusive usando cores chocantes e tecidos transparentes.

PERNAMBUCANAS

Quer pela falta de conforto, que por erro de modelagem, as pernambucanas acham a decadência da calcinha muito natural. A economista BetâniaLima avalia que a calcinha ficou distante da visão de instrumento do desejo. "Hoje, o homem fica mais excitado sem ela", garante. Ela acha que a peça vem se transformando em peça de museu. "As mulheres estão mais diretas, afastando a calcinha do estigma de fetichismo, de instrumento do desejo. As calcinhas bonitas, cheias de rendas, muitas vezes não são confortáveis. Hoje a mulher tem coragem de assumir isso", afirma.

Já a advogada Ivania Barros Melo Dias defende o uso e a sedução provocada pela calcinha, mas critica a qualidade das peças nacionais. "Prefiro a lingerie importada. É de melhor qualidade e mais barata", garante.

A promoter Maria do Céu Kelner percebeu há pouco tempo sua redução na compra de calcinhas. "Não sei se reduzi minha mania por compra, se não liguei mais para a indução das empresas ou se cansei de tantas rendas. A verdade é que diminui. Acho que o preço também influi nas mulheres".

Além do poder aquisitivo nacional baixo, a jornalista Eunice Couto atribui a queda na compra de calcinhas a uma falha na produção da lingerie. Para ela, a produção mais nova não é sexy. "Hoje em dia há shortinho, macaquinho, mas tudo pouco sexy. E lingerie faz parte do jogo da sedução. Acredito que falta criatividaee nas empresas para a lingerie exercer um maior fascínio", avalia.

MUDANÇAS

Outra mulher que fez uma redução na sua compra de calcinhas foi a cabeleireira Edleuza Luiz. Ela atribui esse fato ao desconforto. "Se comparar a qualidade da lingerie íntima com seu corpo, você vai ver que ela aperta e é deselegante".

Ela bota por terra todos os conceitos das lingeries que existem hoje no mercado, mas dá a receita de como os fabricantes podem dar a volta por cima: É fazer uma pesquisa com mulheres inteligentes e com boa visão sobre o assunto intimidade, descobrindo a tendência para as cores, modelos e particularidade das silhuetas".


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