Recife, Sexta-Feira, 17 de Abril de 1998

Naya se diz traído por 40 deputados

O construtor do Palace 2 estava convicto de que seria absolvido

BRASÍLIA - O ex-deputado Sérgio Naya se queixou a amigos, na noite de ontem, que foi traído por pelo menos 40 colegas. O ex-deputado passara os últimos dias trabalhando pela sua absolvição e considerou surpreendente a decisão do plenário da Câmara que, por 277 votos a 163 - apenas 20 votos a mais que o mínimo necessário, que era de 257 votos, ou seja, a maioria simples dos 513 deputados - aprovou a cassação do mandato.

Com o resultado da sessão, quando 21 parlamentares preferiram abster-se e 10 votaram em branco, Naya, o dono da Sersan, empreiteira responsável pela construção do Palace 2, que desabou matando oito pessoas, se tornou inelegível por oito anos.

CREDOR

Depois de conversar longamente nos últimos dias com vários deputados em seu gabinete na Câmara e no seu escritório na sede da Sersan, Naya estava convicto de que seria absolvido. "Tive 30 ou 40 traições", desabafou o ex-deputado a um de seus interlocutores logo após o resultado da votação. Segundo amigos, Naya estava confiante numa vitória também porque se considerava um credor de vários parlamentares.

FAVORES

"Muita gente deve favor a ele. Ele ajudava muita gente", disse um dos auxiliares do empresário. Eleito deputado por três vezes, Sérgio Naya tinha fama no Congresso de emprestar aviões, apartamentos e oferecer outras benesses aos seus colegas parlamentares. O ex-deputado disse ainda a um amigo que ficou abalado, mas que não se sente um derrotado. A intenção do deputado é descansar e depois retornar aos negócios.

"Isso não me derrubou, nem vai me derrubar. Vou dar a volta por cima", comentou. Naya passou o dia de ontem em Brasília, mas se recusou a receber os jornalistas. Os auxiliares mais próximos não informaram o paradeiro de Naya, que não apareceu no apartamento que tem na Super Quadra Sul, conforme relato dos servidores do bloco J.

Campos lidera defesa

Entre os 163 deputados federais que votaram contra a cassação de Sérgio Naya (sem partido), pelo menos dois ou três são pernambucanos. Os outros 22 parlamentares da bancada de Pernambuco prefeririam a conveniência da votação secreta para não revelar o voto. O mais contundente foi Wilson Campos (PSDB), que liderava a tropa de choque que defendia Naya.

A posição de Campos foi uma demonstração do corporativismo existente entre os parlamentares. Mesmo com toda demonstração de solidariedade com o responsável pelo desabamento do edifício carioca Palace 2 - resultando na morte de oito pessoas - o tucano preferiu não declarar em público seu voto.

Vítima de uma cassação em meado dos anos 70, quando era Senador, Wilson Campos foi um dos que mais defenderam Naya, utilizando o argumento de que já teria passado por tal situação e que teria sido injustiçado.

O tucano, na época fazia parte da extinta Arena, foi acusado de tentar subornar um comerciante, escândalo que ficou conhecido como o Caso Moreno. Campos fez campanha dentro da própria Câmara para convencer os colegas de Legislativo a derrubar o processo de cassação, aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Casa.

Juízes tomam posse no TRE

Em concorrida solenidade ontem à noite, no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), tomaram posse como juízes os advogados Mário Gil Rodrigues Neto e José Paes de Andrade. Eles foram indicados em lista tríplice, pelo presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Etério Galvão, ao presidente do TRE, Luiz Belém, e nomeados pelo presidente da República, para um mandato de dois anos, renováveis por igual período. A indicação de Mário Gil foi em julho e a de José Paes em dezembro do ano passado. Ao ato de ontem compareceram desembargadores, juízes e políticos de diversos partidos.

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