Recife, Sexta-Feira, 17 de Abril de 1998

Lagos da frustração

PANORAMA POLÍTICO
Tereza Cruvinel

Que há um mau humor crescente na sociedade com aspectos negativos do Real, como a estagnação econômica e o desemprego, o próprio governo sabe. Os institutos de pesquisa também. Efeito disso tem sido o declínio nas intenções de voto em Fernando Henrique, mas estas insatisfações podem desaguar em outro lugar: nas eleições para governador, figuras em que o eleitor projeta mais diretamente os problemas de sua realidade. O tal mau humor, segundo o cientista político João Francisco Meira, do instituto Vox Populi, acentuou-se de março para cá. Neste período, o desemprego aumentou e ocorreram fatos políticos negativos, como a convenção do PMDB e a reforma ministerial. Embora não ilustre este sentimento com números, principalmente por razões legais (do dia 4 para cá, todas as pesquisas devem ser registradas no TSE antes de serem divulgadas), Meira diz que suas pesquisas captaram uma frustração de expectativas com Real. Em abril de 1997, por exemplo, 52% diziam crer que o Real manteria a inflação baixa e os mesmos 52%apostavam que o plano geraria mais empregos. Hoje, certamente, o segundo índice seria bem mais baixo. Meira concorda com uma tese que está circulando muito entre os políticos. A de que as insatisfações recairão muito mais sobre os ombros dos candidatos a governador do que sobre o candidato Fernando Henrique. No plano estadual, existem alternativas aos candidatos governistas. Na disputa presidencial, FH ainda está bem à frente do segundo colocado, Luiz Inácio Lula da Silva, que não é uma opção nova. Além do mais, em alguns estados, dos quais o Rio é um bom exemplo, as frustrações foram engrossadas pela queda na qualidade dos serviços públicos privatizados. Um governador que é candidato à reeleição, como Marcello Alencar, pode ainda ser cobrado pelo colapaso de serviços sociais que são de responsabilide federal, como Saúde, pelo surto de dengue, e ainda por problemas de responsabilidade estadual, como a segurança. Talvez por isso, os tucanos estejam tão preocupados com a montagem dos palanques estaduais, principalmente agora que Sérgio Motta, gerente desta operação, ficou fora de combate. O PSDB corre o risco de reeleger Fernando Henrique mas de ficar com poucos governadores. Os cinco que têm são candidatos à reeleição, mas apenas dois estão bem avaliados nas pesquisas: Eduardo Azeredo e Tasso Jereissati. O PFL também tem apenas dois com boa nota. Amazonino Mendes e Jaime Lerner, sem contar a Bahia, onde Paulo Souto não disputará, mas Luís Eduardo Magalhães tem uma eleição tranqüila. No ano passado, os partidos governistas elegeram a maioria dos prefeitos, mas com um ano de mandato, já estão muito desgastados. A coincidência de mandatos terá sido uma bênção para FH, se as frustrações acabarem desaguando mesmo nos lagos da política regional.

Entrave

O presidente do PT, José Dirceu, vai procurar o governador de Pernambuco, Miguel Arraes, para uma conversa olho no olho sobre a resistência do PSB em apoiar, em São Paulo, a candidatura de Marta Suplicy ao governo. - Não entendo a insistência do PSB com a candidatura de Pedro Dallari em São Paulo. Vamos apoiar candidatos do PSB em outros oito estados - diz José Dirceu. O vice de Marta, ele garante, será quem o PSB indicar, seja Almino Afonso, Pedro Dallari ou José Pinotti. Mas a explicação tem nome: Luíza Erundina acha esquisito apoiar Marta depois de ter deixado o PT atirando.

À noite, sem partidos

O noticiário politico deixa a impressão de que em Brasília, quando não estão na tribuna, os políticos habitam guetos partidários. Não é bem assim. Quando a sessão acaba, pode acontecer de tudo, inclusive uma festa como a de anteontem, pelos 50 anos do deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh no restaurante Feitiço Mineiro, um ponto "cult" da cidade. Além dos muitos petistas, e de "companheiros" da equerda, como Miro Teixeira (PDT) ou Jandira Feghali (PC do B), comeram também da estrela de glacê vermelho que decorou bolo o líder Luís Eduardo Magalhães (PFL), Prisco Viana (PPB) e o ministro José Serra (PSDB), entre outros santos de fora, como o embaixador de Cuba. Na sessão "algumas palavras", Greenhalg agradeceu muito a ajuda de seu "xará", o líder do Governo, que não deixou de aplaudir quando Marta Suplicy foi chamada de governadora. Embora combata Maluf como ao diabo, derramou elogios a seu conselheiro na CCJ, o pepebista Prisco. Serra, retardário para variar, ainda aventurou-se com um charuto, inteirando-seda vida do amigo petista Sigmaringa Seixas, que disputará a vaga de vice na chapa de Cristóvam Buarque. Um clima de afeto incrível, em se tratando de pessoas que daqui a seis meses estarão brigando pelo voto.

Impasse

Na próxima quarta-feira o ministro Jose Serra vai à Comissão de Assuntos Sociais do Senado tentar arrancar um acordo para que se voto logo o projeto sobre planos de Saúde. ACM quer a mesma coisa. Aprová-lo de um jeito ou de outro, até 15 de maio. A propósito, o relator, Sebastião Rocha, corrige informação de anteontem: ele já deu seu parecer desde novembro. O que está havendo é um impasse em torno de alguns pontos, como a cobertura a doenças pre-existentes. Serra diz que enquanto isso as seguradoras estão se armando contra as novas regras, promovendo inclusive reajustes.

PASSOU mal percebida a importante votação de anteontem no Senado, enquanto a Câmara cassava Naya: de agora em diante, governadores e prefeitos que vierem a perder o mandato também ficam inelegíveis por oito anos, tal como o presidente e os congressistas.

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Paulo Fernando Craveiro
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