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| Recife, Terça-Feira, 14 de Abril de 1998 |
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Titanic e os torpedos fulminantes da crítica americana Mesmo depois de ganhar onze Oscars, o diretor James Cameron não aceita críticas ao filme David Ansen NOVA IORQUE - Você pensaria que ganhar onze Oscars e arrecadar mais de US$ 1 bilhão nas bilheterias seria o suficiente. Não para James ("Rei do Mundo") Cameron. Sua necessidade de aprovação não tendo sido satisfeita pelo gigantesco sucesso de Titanic. Cameron escreveu uma série de insultos na edição de 28 de março do Los Angeles Times atacando seu crítico de cinema, Kenneth Turan. O crítico não somente cometeu o pecado imperdoável de não gostar de seu filme, como também atacou-o três vezes em sua coluna. "Os delírios mordazes de um homem amargo... o pior tipo de elitismo movido pelo ego", acusou Cameron. "Não é que ele não goste de alguns filmes, prerrogativa de todo crítico. Ele não gosta de todos os filmes". A única maneira de interpretar esta última acusação, já que as críticas vociferantes de Turan podem ser contadas nos dedos, é que Cameron considera Titanic como todos os filmes num só. Ainda mais reveladora foi sua afirmação de que Turan "claramente não é homem suficiente para admitir quando está errado". Como se os Oscars tivessem fechado as portas para qualquer tipo de discussão. Para muitos, o faniquito de Cameron pareceu mesquinho e mal-intencionado, outro exemplo de sua necessidade de mostrar seu poder. Porque o propósito final de seu artigo era demitir Turan de seu emprego. "Esqueça Clinton - o que podemos fazer pelo impeachment de Kenneth Turan?", foram suas palavras finais. "Se este é o jeito com que ele lida com discordâncias", diz Turan. "Tenho cada vez mais empatia com as pessoas que trabalham para ele". CRÍTICOS É claro, muitos leitores do Los Angeles Times ficaram do lado de Cameron: as investidas de Turan contra o filme - que concentraram-se quase completamente no roteiro, -que ele classificou como subliterário - não foram feitas para torná-lo popular. "Críticos de cinema", escreveu em seu artigo, "contrariamente à opinião popular, não são medidores de aplausos". Esta rusga foi uma distração divertida que colocou os que amaram Titanic e os que odiaram Titanic (uma minoria apaixonada) em posições de batalha, mas sem dúvida será rapidamente esquecida. Bem mais significativa foi a questão levantada pelo artigo de Turan: que lições Hollywood escolherá aprender com o sucesso de Titanic e o que eles prevêem como o futuro dos filmes? Para o crítico do L.A. Times, o cenário é apocalipticamente sombrio. Em primeiro lugar, ele prevê uma grande quantidade de filmes de US$ 200 milhões em nosso futuro, quando diretores poderosos e movidos pelo ego exigirem tratamento igual a Big Jim, e executivos amedrontados cederem às suas exigências. (Muitos outros fizeram a mesma previsão). Ainda mais terrível é a premonição de Turan de que Titanic marque o fim da inteligência nos roteiros de Hollywood. "Não se iludam a respeito disso, o que estamos testemunhando é o naufrágio total da noção de qualquer coisa remotamente parecida com um roteiro literário como parte necessária do processo de criação e produção de um filme. Jamais um filme com um roteiro tão deficiente quanto o de Titanic foi aclamado tão universalmente (bem, quase universalmente) como o apogeu do cinema". Mas enquanto todo mundo fica olhando para bolas de cristal, prevendo o futuro impacto fatal de Titanic, as mudanças em Hollywood já começaram e, aparentemente, não têm nada a ver com orçamentos gigantescos, histórias épicas e roteiros tolos. O produtor Lawrence Mark (de Jerry Maguire) percebeu o novo clima pela primeira vez quando um projeto que estava tentando fazer há anos -uma adaptação do excelente romance de Mona Simpson Anywhere But Here, sobre uma relação entre mãe e filha (estrelando Susan Sarandon e Natalie Portman) - recebeu o sinal verde da Twentieth Century Fox na cola do sucesso de Titanic. Segundo Mark, a lição que os estúdios aprenderam é a de que "as mulheres podem comandar as bilheterias". CONVENCIDO Isto foi confirmado mais uma vez quando outro filme difícil de vender, sobre três irmãs - uma versão do romance "Hanging Up" de Delia Ephron, dirigido por Diane Keaton - foi aprovado pela Columbia. Mark também está convencido de que se não fosse por Titanic, a Fox não teria se empenhado tanto no lançamento de The Object of My Affection, uma comédia sobre a relação entre uma mulher e um homem gay. Os números de Titanic aumentaram a confiança da Fox na enormidade do mercado feminino. Recentemente, a roteirista Gigi Levangie ficou muito surpresa quando tentou vender a idéia de um filme. "Eu tentei vender uma comédia sobre homens solteiros para um estúdio conhecido como um estúdio masculino. Eles a compraram - com a condição de que eu explorasse mais o sub-enredo romântico e desistisse da parte de ação masculina". Levangie ri: "Eu vendi 'Quanto Mais Idiota Melhor€ e eles compraram uma comédia romântica". Como ela explica isto? "Não é só Titanic. É O Casamento do Meu Melhor Amigo. Nós já exploramos todas as maneiras possíveis e impossíveis de matarmos uns aos outros. Eles estão explorando agora as 1.001 formas de nos amarmos". Parece que estamos numa época de histórias de amor, dramas lacrimosos e comédias românticas. Mas não pense que Hollywood descobriu de repente o seu lado feminino e que filmes de ação "macho" serão banidos. Na verdade, nem todo mundo vê um novo despertar. "É conversa fiada - que eles redescobriram o público feminino", insiste uma executiva. "Eu ainda ouço toda hora que 'vender um filme feminino é tão difícil€". BILHETERIAS Amy Pascal, presidente da Sony Pictures, acha que "é nojento" pensar que alguém tenha que redescobrir o público feminino. Afinal, observa, O Casamento do Meu Melhor Amigo, Romeu e Julieta e Pânico foram todos sucessos cujas bilheterias foram comandadas pelas mulheres. "Como é que temos que ser redescobertas? É uma burrice completa. É paternalista... Mas é verdade. Toda vez que um filme feminino faz sucesso, eles nos redescobrem". Pascal tem motivos para ficar incomodada. Os homens de Hollywood precisam de avisos periódicos para lembrarem que metade do mundo não são eles. É a lição que dizem ter aprendido depois dos "surpreendentes" sucessos de Tomates Verdes Fritos, Waiting to Exhale, O Clube das Divorciadas e Romy e Michelle. Por que sempre tem que ser uma surpresa? ESTÚDIOS É perfeitamente possível, é claro, que a lição oficial que Hollywood resolva aprender com Titanic seja a errada. Mas na verdade não importa - para os estúdios, qualquer explicação é preferível à idéia de que todo sucesso de bilheterias é uma sensação singular. Hollywood precisa pensar que está aprendendo alguma coisa com seus grandes sucessos; senão, seria forçada a reconhecer que seus negócios são apenas um jogo de azar. Polêmicas à parte, quem quiser tirar suas dúvidas, pode assistir ao filme de Cameron nos cinemas Recife 1 e 3 e no cinema São Luiz. No Recife, assim como em outras partes do mundo, Titanic vem batendo recordes de bilheteria, queiram ou não os críticos. |
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