Recife, Terça-Feira, 14 de Abril de 1998

Sem-terra resistem ao despejo

160 famílias pretendem instalar barracas às margens da PE-50

Erilene Araújo
Enviada Especial

GLÓRIA DO GOITÁ - A tensão entre os agricultores que ocupam, desde o dia 30 de março, o Sítio Ladeira Grande, em Glória do Goitá, foi amenizada, ontem, pela suspensão temporária do mandado de reintegração de posse da área, concedido pelo juiz da comarca, Reginaldo Alves de Andrade, desde o dia 7. Não vai ser a assinatura do termo de compromisso firmado ontem entre o juiz, o coordenador da invasão do Sítio Ladeira Grande, Reginaldo Olímpio de Albuquerque, e dois sem-terra, João Nazário dos Santos e José Salatiel Barbosa, que fará com que as 160 famílias, que ocuparam a propriedade, deixem o local. Os manifestantes pretendem apenas mudar o lugar do acampamento. As barracas feitas em palha e pedaços de árvore serão retiradas de dentro do Sítio e vão ser armadas na beira da pista, na PE-50, na altura do quilômetros 14. A saída definitiva dos ocupantes só ocorrerá depois que o Incra fizer uma vistoria em Ladeira Grande.

On Incra ainda não definiu uma data-limite para realizar a vistoria no Sítio. Entretanto, seo procedimento não for realizado em quinze dias, os sem-terra prometem uma ação mais enérgica. Inicalmente, eles voltam a ocupar Ladeira Grande. O que acontecerá depois será definido. De acordo com Reginaldo Albuquerque, caso seja constatado que o Sítio não está em condições de ser desapropriado, eles desistem e partem para uma nova investida. O próximo terreno que será ocupado não foi definido, mas deverá estar localizado no Agreste de Pernambuco.

Um levantamento preliminar feito pelo coordenador da invasão revelou que o Sítio Ladeira Grande tem cerca de 300 hectares e é improdutivo. Existem algumas áreas com plantações de côco, cana-de-açúcar, banana e mandioca, mas todas estão abandonadas. A informação foi confirmada pelo agricultor Pedro Leandro da Silva, 61 anos, que nasceu e se criou no Sítio. "O dono daqui já plantou muita coisa, mas hoje não faz mais nada", garantiu.

Foi por falta de moradia e trabalho que o agricultor Anísio Mendes da Silva, 57 anos, decidiu participar da invasão no Sítio LadeiraGrande, em Glória do Goitá, a primeira da sua vida. A decisão foi tomada logo que os manifestantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) apareceram na favela onde mora e perguntaram quem pretendia se juntar ao grupo. A luta dos manifestantes parecia a luz no fim do túnel e a solução para parte dos seus problemas. "Eu já tinha pensado em ocupar um engenho antes, mas não poderia fazer sozinho. Quando apareceu a oportunidade, eu me agarrei com as duas mãos", comentou.

A ocupação de Ladeira Grande aconteceu no dia 30 de março, por volta das 6h. Os invasores são pessoas que moram em Glória do Goitá e em municípios próximos, a exemplo de Chã de Alegria e Vitória de Santo Antão.


Marcha se aproxima

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