|
|
| Recife, Terça-Feira, 14 de Abril de 1998 |
|
|
Novos paradigmas OPINIÃO O final deste século está aposentando alguns paradigmas com muita rapidez. No campo da política, por exemplo, alguns analistas estão demorando a perceber que a guerra fria terminou. O fim da bipolaridade, o desaparecimento da União Soviética e de seus satélites fez surgir uma paz americana, determinada por Washington, com influência nos quatro cantos do mundo. Seguiu-se à paz americana o conceito de globalização. Empresas devem procurar lucratividade em qualquer lugar do mundo, seja em Rondônia, no agreste de Pernambuco ou no Vietnam. Há casos curiosos, como o de um conhecido fabricante de calçados esportivos que transferiu sua fábrica para a Ásia, onde os salários são baixos, e continuou a pagar muito para que um superastro do basquete faça a promoção da marca. O astro ganha mais do que toda a soma de salários da fábrica. Uma empresa aérea, respeitada na Europa, transferiu sua contabilidade para a Índia, em busca dos salários mais baixos, e colocou sua oficina na Irlanda. Continua a operar normalmente com menos funcionários e menor folha de pagamento. Algumas empresas aéreas brasileiras começaram a descobrir as vantagens de operar em terceiros países, no continente. A massa de impostos é menor, as facilidades são maiores e os juros bancários mais baixos. Os conceitos vão caindo, um a um. Discutir política hoje é uma questão complicada. Os grandes paradigmas do século desabaram. Os exemplos históricos pertencem, agora, aos livros. Não orientam a construção do futuro. A velocidade é intensa. Tudo muda, via Internet, com rapidez impressionante. O próprio conceito de emprego vai-se modificando. Os poucos que restaram ganharam em qualificação, em exigência e numa quase inacreditável especialização. O homem comum ainda está atônito diante de tantas mudanças. Quem cresceu à sombra da guerra entre comunismo e capitalismo não poderia imaginar que um dia o cenário fosse, simplesmente, ser desmanchado. Uma página virou. Resta, agora, a rapidez na tomada de decisões e o perfeito conhecimento do negócio. Empresáriosbrasileiros, não raro, perdem nestes dois quesitos. Em alguns estados do Nordeste as lideranças políticas e empresariais estão se demorando perigosamente a perceber o novo tempo. Na era da Internet demorar é perder. Os empresários, nacionais ou estrangeiros, estão tomando suas decisões em função das facilidades disponíveis. Facilidades de comunicação, de financiamento, de locomoção e de infra-estrutura. Quem oferecer mais e oferecer antes terá vantagens comparativas. Quem esperar, perde. Até que se criem novos paradigmas, o conservadorismo empresarial e a lentidão na tomada de decisões contribuem para somar uma imagem negativa. Neste final de século, a pressa é amiga de perfeição. Fraude eleitoral Enquanto autoridades e funcionários da Justiça Eleitoral se têm concentrado na tarefa de, com a ajuda da eletrônica e da informática, reduzir a margem de fraudes na apuração dos votos nas eleições, a fraude propriamente dita começa muito antes. Aqui em Pernambuco, mostrou o DIÁRIO DE PERNAMBUCO em sua edição do último domingo, o eleitor-fantasma não é propriamente o que aparece perante a Junta Eleitoral na data das eleições. É o que vem de ser fabricado meses a até anos antes, nas falcatruas em que se transformaram as transferências de domicílio eleitoral. O fantasma do dia da eleição é simples clone do verdadeiro fantasma que a fraude e seus artifícios previamente mandaram para dentro dos livros de assentamento do eleitorado. O que sucede em Pernambuco deverá estar a acontecer no restante do país. O corpo de fiscais para a contraprova do novo domicílio do eleitor é insuficiente para a realização a contento da vultosa tarefa. A ignorância de boa parte dos eleitores residentes em nossos grotões faz a sua parte. Porque é fácil ludibriar a boa fé daqueles que não alcançam a gravidade dos atos que são induzidos a praticar. A pobreza e a indigência dão também a sua contribuição ao largo processo denunciado. Pois, a necessidade radical que beira a fome não tem condições de resistir às promessas mais triviais quanto a oferta de um par de sapatos. A convicção geralmente difundida de que ninguém neste país apura coisa nenhuma, e muito menos pune a infração, completa o quadro em que se atenta, diuturnamente, contra a democracia no país. A começar pela destruição dos alicerces em que ela assenta, a idoneidade moral do eleitor e a veracidade dos resultados eleitorais. Segundo apurou o DIÁRIO nos próprios cartórios eleitorais do Interior, em cerca de 20% das cidades a média de eleitores hoje inscritos supera o percentual médio que existe entre o colégio eleitoral e o número total dos habitantes. Em pelo menos 35 cidades isto acontece. Em Brejão, estará o caso mais escandaloso: ali, o total dos eleitores até agora inscritos supera o número completo dos habitantes. Pode? em Chã Grande, a coisa não é menos repugnante: haveria, ali, 15.793 habitantes e 14.785 eleitores. Pode? Voltando a Brejão, o eleitorado entre 1994 e 1998 cresceu nada menos que 114% ( de 7.995 para 9.377), enquanto em Chã Grande, outra anormalidade, cresceu 93% ( de 13.957 para 14.785). Números como estes clamam aos céus. A questão é demasiado séria para que as autoridades se sintam confortadas. É bem o caso de um esforço concentrado da Justiça Eleitoral, no sentido de eliminar o quanto antes dos registros oficiais esses milhares de fantasmas. De igual modo, entrando em cena, com desassombro e vigor, o órgão do Ministério Público, para a denúncia e condenação daqueles que se conluiaram no crime de manchar a lisura das próximas eleições. |
|