Recife, Terça-Feira, 14 de Abril de 1998

Omissões

Luis Fernando Verissimo

No Deu no JB do último sábado o leitor Alexandre Porciúncula Gomes Pereira defendeu o papa Pio XII, cuja omissão na época da perseguição dos nazistas aos judeus eu tinha comentado. Na verdade, escrevi, genericamente, sobre "o Vaticano", sem mencionar o papa, porque a política de acomodação com o fascismo era da Igreja da época, não só de Pio XII - que, segundo o leitor, chegou a salvar 700 mil judeus do extermínio. O sr. Alexandre cita fatos históricos e me acusa, simpaticamente, de ignorá-lo. Não ignorei fatos históricos mas não há dúvida de que lemos histórias diferentes. Aparentemente, a que eu sei é a mesma que a Igreja aceita, e que a levou a pedir perdão agora, senão não haveria omissão a ser perdoada.

Mas há uma injustiça em destacar só a omissão da Igreja. O Holocausto foi uma história de horror cercada de grandes e pequenas calhordices, individuais e nacionais. Há pouco ficamos sabendo de como se aproveitaram do ouro dos nazistas, em grande parte confiscado de judeus, os suíços, que há anos ostentamsua neutralidade como uma virtude superior e não uma boa maneira de lucrar com qualquer lado. O que fazer com refugiados judeus foi, durante boa parte da guerra, um problema diplomático que poucos países enfrentaram bem, ou com a urgência necessária. É verdade que a enormidade do que estava acontecendo aos judeus só ficou clara no fim da guerra, o que de certa maneira absolve alguns entusiasmos iniciais com o nazismo - que, afinal, estava defendendo o Ocidente da bolchevização eminente. Era notória a simpatia pelos nazistas entre aristocratas ingleses e um dos mais simpáticos era o próprio rei Edward VIII, que, felizmente, abdicou do trono para casar com uma plebéia e abandonou a política para dedicar-se apenas às suas gravatas. Há quem diga que o que levou à sua renúncia foi menos o casamento do que o embaraço político. E nem vamos falar no nosso Estado Novo e dos seus primeiros entusiasmos.

Enfim, não era só a Igreja.


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